“A propósito de tempestade na ásia de Pudovkine”

dc.contributor.authorMonteiro, Adolfo Casais
dc.date.accessioned2024-04-19T10:03:50Z
dc.date.available2024-04-19T10:03:50Z
dc.description.abstractNuma exaltação ao cinema russo, que, na opinião do autor, se destaca do cinema europeu e americano pela sua dimensão educativa, Tempestade na Ásia (tradução de Potomok Chingis-Khana, 1928), de Vsevolod Pudovkin (1893-1953), figura-se, à luz do que é apresentado, como uma revolta do povo tibetano, ao mesmo tempo que ridiculariza os chefes do exército inglês. O autor emprega, ainda, o anglicismo "film" ou "films", em articulação com o seu equivalente português.
dc.description.authorDate1908-1972
dc.format.extent8-9
dc.identifier.urihttps://cetapsrepository.letras.up.pt/id/cetaps/114383
dc.language.isopor
dc.publisherA Renascença Portuguesa
dc.publisher.cityPorto
dc.relation.ispartofPrincípio
dc.relation.ispartofvolume4
dc.researcherMarques, Gonçalo
dc.rightsmetadata only access
dc.source.placeBN P.P. 3800 A.
dc.subjectAnglicismos
dc.texta propósito de tempestade na ásia de Pudovkine Do pouco que entre nós se tem visto do cinema russo, podemos já concluir alguma coisa sôbre as suas características fundamentais; e que admirável esforço de renovação realiza, em contraste com o constante e progressivo abastardamento do cinema europeu e americano. Independentemente da personalidade que revela a técnica, alguma coisa há que basta para o distinguir: a qualidade dos temas que êsses films desenvolvem. Em qualquer dos filmes que entre nós foram exibidos (Aldeia do Pecado, A Mãe, Tempestade na Asia), encontramos uma vitalidade - diriamos: um realismo, se não receassemos má interpretação da palavra, - uma atmosfera tão despida de artificialidade, tão próxima da verdade humana, que somos transportados a um ambiente completamente diverso daquele a que estamos habituados, e que é profundamente convencional. Mesmo aqueles filmes franceses, alemães, norte-americanos, etc., que saem da vulgaridade, raras vezes se furtam a um diletantismo envenenador, que, impregna, desde a escolha dos assuntos ao jôgo dos actores, diletantismo a que não é estranho o facto de os realizadores preferirem para argumento, romances e novelas do pior género. Precisamente, os realizadores russos, quando não trabalham sôbre argumentos virgens, isto, não procurados em obras literárias ou teatrais, aproveitam e baseiam-se em obras de autêntico valor - A Mãe, de Gorky, por exemplo. E aqui devemos lembrar um facto muito importante: como todos sabem, na Rússia o produtor é o Estado; o cinema está portanto livre dos prejuízos que nos países capitalistas advém da comercialização, das preocupações visando exclusivamente o lucro. A diferença não é pequena, pois o gôsto do público, não educado, vai ao pior, motivando por parte dos produtores a escolha de assuntos que estejam dentro da mediocridade do público a que se destinam. Ora o cinema soviético existe para educar. A sua importância não foi ignorada por Lénine, que o considerava a arte mais importante. Mas, aqui surge um problema essencial, muito aproveitado pelos especialistas da detracção sistemática: Muitos ignorantes - ignorantes de verdad, ou ignorantes por conveniência? costumam fazer cavalo de batalha do facto do cinema soviético ser determinado por finalidades educativas. As interpretações fantasistas que dão à palavra educação essas personagens, mostra apenas que as suas concepções da educação são bastante primitivas; julgam certamente que educar não vai além de ensinar a ler, escrever e contar, e pouco mais. Ora, êste sentido educativo do cinema soviético, é preciso entendê-lo num sentido muito largo - demasiado largo para as inteligências de superficie, que tudo julgam entender, pois para elas tudo é simples. Esses bárbaros que teem museus admiráveis, não vêem no cinema únicamente um meio de propaganda; não julgueis - ó vestais do cinema puro! - que vos querem ensinar marxismo por imagens. Cada coisa tem o seu lugar, e educar entende-se também com respeito à beleza. O cinema que vive sob a garra dos interesses capitalistas, esse é um veneno que só por milagre poderá ter a fecundidade de abrir almas à beleza. Mas o cinema soviético, êsse que não esmagará a má-fé e a incompreensão, enche-nos de visões belas e intensas. Porque a beleza não é um bibelot para adornar a sala de visitas de um burguês; não está nas superficialidades que podem entreter um momento: a beleza, essa que encontramos nos films russos, é forte e transcende sem dúvida a sensibilidade dos admiradores de Clara Bow e de Rodolfo Valentino; é uma beleza que não exclui tragédia nem sofrimento, e que pode aparecer num regato que deslisa entre calhaus, na revolta dum povo que avança em tempestade, na alegria dionísica duma festa da aldeia, numa expressão de prisioneiro fitando o sol. Beleza que não é para as mãos débeis dos estetas a profanarem, mas se destina à coragem daqueles que aceitam a vida a peito descoberto, sem máscaras. Esses compreendem qual a beleza, e qual o sentido educativo dos films russos: sentido educativo que se realiza numa dignificação do homem, pela visão duma vida com todos os extremos, mal, bem, felicidade, dor, duma humanidade viva, sem os alambicamentos ridículos ou torpes do nosso cinema. * Tempestade na Asia, apesar dos bárbaros cortes que sofreu, revela-se-nos todavia suficientemente para podermos considerar como uma das mais altas obras que se tenham realizado em cinema. É por um lado uma exaltação da revolta, o poema simbólico do povo escravizado pelo estrangeiro, e que rompe finalmente as cadeias; duma verdade feroz ao mostrar os ridiculos dos chefes do exército inglês. É por outro lado um documentário admirável do povo tibetano, dos seus costumes, como da paisagem dêsse recanto áspero da Asia. Tudo isto, porém, não é o essencial do film, que não está no assunto, na côr local, nem na perfeição técnica, mas no ritmo extraordinário que estremece de ponto a ponto do film, fazendo dêle um dêstes poemas que nos suspendem a respiração, que nos alheiam completamente do que não seja a sucessão das imagens no rectângulo mágico. O grande valor do film está no éco que em tôdas as almas encontram os sentimentos e as paixões que exprime: nada há ali que nos seja estranho: é com todo o nosso ser que tomamos contacto com as imagens que se sucedem. Quando Timur se revolta, e do carneiro morno e aparentemente insensível se torna a própria encarnação da revolta, quem ousará dizer que não se sentiu revolvido no mais íntimo da alma? E essa emoção não deriva únicamente de ser essa, e não outra scena menos intensa, que vemos: mas depende essencialmente da verdade com que realizador e intérprete, recriam perante os nossos olhos estados fundamentais da sensibilidade. Aqueles que não tenham visto o filme não poderão compreender as minhas palavras: porque os actores de Tempestade na Asia são tão poucos actores, estão de tal modo isentos de artifício, vivem de tal maneira o seu papel, que nos esquecemos de que êles representam. É da Rússia que esperamos a salvação do cinema: a ausência de estrêlas, de galãs, de filmes feitos para exibir um actor ou uma actriz; a libertação dos interesses financeiros; tudo isto, acrescentado ao facto de na Rússia terem aparecido formidáveis criadores como Eisenstein e Pudovkine, obrigam-nos a voltar os olhos anciosos para ela, já que o nosso cinema se torna cada vez mais uma flor de estufa, abafado, dum lado pelas imposições aniquiladoras dos interesses financeiros, do outro pela crescente incapacidade dos realizadores, que, não sabendo libertar-se, se perdem numa cansada repetição de banalidades e lugares comuns.
dc.title“A propósito de tempestade na ásia de Pudovkine”
dc.typeartigo de imprensa

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