"O P.e Corrêa da Serra nos Estados Unidos"

cetaps.description.printingNameTipografia da "Portugalia"
cetaps.publisher.cityLisboa
cetaps.researcherMarques, Gonçalo
cetaps.source.placeJ. 2314 B.
cetaps.textO P.e Corrêa da Serra nos Estados Unidos O sr. José Agan ganhou com uma estada de poucos anos no Brasil, no serviço consular norte-americano, não sómente um bom conhecimento da lingua portuguesa, que falla correntemente, como tambem o gosto pelos estudos historicos relativos ás relações entre os dois paizes. Das suas investigações no archivo do departamento do Estado de Washington e dos papeis depositados na Bibliotheca do Congresso retirou material para trez estudos históricos, o primeiro dos quais, sobre Corrêa da Serra, acaba de apparecer no Pennsylvania Magazine of History and Biography, devendo o segundo, sobre a correspondencia entre Maia e Jefferson, sahir no Virginia Magazine, e o terceiro sobre a missão Cabuga, nos Estados Unidos, nalguma outra revista historica. Maia era um estudante brasileiro em Montpellier que nos fins do século XVIII tratou de interessar Jefferson, então ministro em França, nas conspirações da colonia contra o governo da metropole. Cabuga foi o enviado da mallograda Republica Pernambucana em 1817. Corrêa da Serra foi uma personalidade verdadeiramente interessante. Teve relações de amizade pessoal com quatro presidentes dos Estados Unidos: Jefferson, Madison, Monroe e John Quincy Adams, sendo sobretudo intimo do primeiro, a quem aconselhou na organisação da Universidade de Virginia e que lhe manifestou interesse e sympathia até á morte. Foi membro da American Philosophical Society, que era então a mais notavel associação scientifica dos Estados Unidos, e formou parte do chamado Wistar Party, que era um grupo de intellectuaes e de politicos com gostos litterarios que se reunia aos sabbados em casa d'aquelie famoso medico de Philadelphia, cuja memoria Corrêa da Serra perpetuou ao dar o nome scientifico de «wistaria» á glycinia. Corrêa da Serra foi, conforme então se escreveu, o oraculo d'esse agrupamento, e a impressão que produziu entre os seus contemporaneos dos Estados Unidos, onde viveu em 1797 como capellão de Kosciusko, porque seguia então a Vida ecclesiastica, e logo em 1812 (só em 1816 havia de ser ministro de Portugal) foi das mais profundas. Alem da sua intelligencia e erudição, era um grande conversador e devia possuir muita seducção pessoal. Jefferson falla nas suas cartas da sua amabilidade e da sua simplicidade, considerando-o «o maior digesto da sciencia de livros, homens e coisas que elle jámais encontrara e lamentando-se sómente de o não poder collocar á frente da sua grande instituição universitaria». John Quincy Adams chegou a ser um enthusiasta do padre e Gilmer até escreveu que era «o ser mais extraordinario d'este mundo, no presente e no passado, pois possuia todos os idiomas antigos e modernos e todas as sciencias physicas e moraes, não havendo pergunta a que não soubesse responder, observação sua que não valesse a pena ser registada nem pessoa que ao seu lado não parecesse um tonto, pois lia, comprehendia e recordava tudo». Encontra-se isto expresso em cartas que mais parecem d'um meridional. Corrêa da Serra foi educado em Italia, em Napoles e em Roma, para onde emigrara seu pai perseguido pela Inquisição de Lisboa. Alli conheceu e alcançou a protecção do culto Duque de Lafões, que em Portugal o chamou para o seu lado e lhe confiou a redacção dos Estatutos da Academia Real das Sciencias, fundada por elle em 1779, e da qual veiu a ser secretario perpetuo Corrêa da Serra, que contava então 29 anos. Todavia, assim como seu pai, não se contentava com ser um naturalista, sobretudo botanico, e tambem se dedicava a escrever artigos philosophicos muito no espirito do seculo XVIII; attrahiu iras religiosas e teve de se refugiar em Paris, onde completou a sua educação liberal. Instruido, attrahente, espiritual, até picante na sua inalteravel suavidade, Corrêa da Serra alcançou muitos amigos em Paris e logo em Londres, para onde teve que sahir depois de haver regressado a Portugal e de se ter de novo dedicado a trabalhos academicos, pelo facto de ter dado asylo a um girondino fugitivo, o homem de sciencia Broussonet, com quem tinha entabolado relações de amizade em Paris. Esta segunda vez o seu desterro foi de 28 annos, ainda que nem todos devido a desfavor official, pois em 1801 D. Rodrigo de Sousa Coutinho (conde de Linhares) obteve para elle a nomeação de secretario da embaixada portuguesa em Londres. Porem, o embaixador tinha-lhe antipathia e não lhe permittiu tomar posse do cargo: certamente Corrêa da Serra lhe fazia sombra pois se tinha tornado uma personalidade no mundo scientifico, bastando dizer que era membro da Royal Society de Londres e do Instituto de França. Quando veiu para os Estados Unidos trazia cartas de recommendação, entre outros, de Lafayette e de Humboldt, que eram as melhores credeciaes. Deu lições, viajou, estudou, e quando recahiu sobre elle a designação de D. João VI para que fosse seu representante em Washington, Jefferson sentiu grande satisfação e escreveu a Gilmer: «Espero que isto signifique que o teremos aqui por toda a vida, pois a sua posição não estorvará as suas viagens botanicas. O governo português é tão pacifico e inoffensivo que nunca tem disputas com os seus amigos. Só deseja que o seu ministro lhe escreva uma vez de trez em trez mezes que tudo caminha bem». Escrevendo por seu lado ao presidente Madison, Corrêa da Serra manifestava o desejo de continuar a ser o mesmo philosopho amigo, e accrescentava que o ministro português seria para os Estados Unidos uma especie de ministro de familia. Porem enganavam-se ambos, elle e Jefferson: a sua missão diplomatica havia de ser atribulada, especialmente pelas questões de neutralidade, suscitadas pela occupação portuguesa da Banda Oriental e pela sublevação de Artigas que transformou Baltimore num ninho de corsarios, que commetim depredações contra o commercio marítimo português. Os governos revolucionários da America hespanhola tinham recorrido á mesma arma contra o commercio da mãe patria, sem que até certo tempo pudesse esta protestar officialmente, porque o enviado da Junta de Cadiz, D. Luiz de Onis, passou seis annos em Washington, de 1809 a 1815, antes de ser reconhecido pelo governo norte-americano. Houve um momento em que nas reuniões sociaes da capital federal se encontravam com caracter publio trez individuos que antes figuravam alli com caracter particular: Corrêa da Serra, Onis e Hyde de Neuville, proscripto e logo ministro de França. Corrêa da Serra fez causa commum com Onis, porque o rei de Portugal lhe apertava o sapato em Montevideo e conseguiu o que, segundo carta de Monroe a John Quincy Adams, tanta falta fazia a Onis, a saber, uma lei mais severa de neutralidade, a de 1817, adoptada apezar da vigorosa opposição de Henry Clay, montado no seu Cavallo de guerra sul-americano. O sentimento publico estava a favor dos independentes, e sobretudo estava a seu favor a avidez de lucro, pois que o produzia o corso em que se empregavam navios norte-americanos, que os officiaes dos portos deixavam sahir com facilidade e que os juizes deixavam de condemnar usando sophismas, por exemplo, antes da lei de 1817, o facto de que não podiam os cidadãos d'um paiz neutral receber patente de corso d'um principe ou Estado estrangeiro e que não entravam nessas duas categorias os governos americanos não reconhecidos ainda. Nas suas memorias, John Quincy Adams expressa repetidas vezes a sua indignação por tantas e tão seguidas indignidades «que fazem, segundo diz o sr. Agan, da década de 1815 a 1825 uma chronica criminal da peor especie». No livro publicado ha poucos anos pelo senhor Lockey, acerca dos começos do panamericanismo, e em que se reproduz, sobretudo, o aspecto hispano-americano da questão, attribue-se áquella pirataria o seu verdadeiro caracter individual, mas faz-se a defeza da menor participação, mesmo individual, de cidadãos norte-americanos na libertação do Novo Mundo. É um facto que esta cruzada politica não apresenta o equivalente norte-americano de Cochrane, de Miller e da legião britannica de Carabobo, embora o primeiro e outros mais fossem movidos por motivos de ganancia. O governo britannico olhava com sympathia a emancipação do Novo Mundo hispanico porque significava uma extensão do seu commercio, da sua influencia e, portanto, do seu poderio, e é mister ter presente que a conclusão do cyclo napoleonico de guerras tinha deixado atraz de si, como a ultima grande guerra, uma epocha de abatimento industrial. Alem d'isso, nas lides da guerra muitos se tinham desacostumado das tarefas da paz, e na America do Sul havia amplo campo para as suas actividades, como hoje o ha para especulações em armamentos. Em sua relativa passividade desde o ponto de vista official, os Estados Unidos nunca trataram de restabelecer conciliadoramente a auctoridade hespanhola, sendo sómente accusado Onis, de haver demorado, com a cessão da Florida, o reconhecimento das colonias transformadas em nações. A Inglaterra, ao contrario, pretendeu que a Hespanha modificasse o seu regimen colonial e que, ao mesmo tempo, dessem as colonias um tratamento de preferencia á mãe patria. A solução preconizada em Londres era a de uma verdadeira confederação de spanish commonwealths debaixo d'um soberano commum, o que a Inglaterra teve que applicar modernamente para que se não dissolvesse o seu imperio colonial. Corrêa da Serra teve também o seu episodio de reconhecimento que frustrar, com a Republica Pernambucana de 1817. O presidente Monroe nunca recebeu o enviado pernambucano, porem o governo norte-americano admittia nos seus portos os navios com bandeira da nova republica e autorisava a sabida de abastecimentos para a mesma. Corrêa da Serra viu o momento em que nos Estados Unidos se armariam corsarios pernambucanos, isto é, em que norteamericanos assumiriam esse caracter, e perdeu um pouco as estribeiras. Não só avisou o departamento de Estado de que a occasião era excellente para que os Estados Unidos modificassem a impressão que, segundo elle, existia na Europa de que o governo norte-americano fomentava as revoltas no Sul, mas tambem, passando por cima do mesmo governo, annunciou publicamente que a costa pernambucana se achava bloqueada, arrogando-se uma attribuição que lhe não correspondia. D'ahi certa frieza de Monroe para com elle, em contraste com a sua anterior intimidade. A lei de neutralidade foi confirmada em 1818, e o executivo norte-americano auxiliou Corrêa da Serra «até certo ponto» nos seus esforços para impedir e perseguir as expedições clandestinas: é indispensavel dizer até certo ponto, porque as exigendas da politica interna levaram Monroe a nomear juiz de districto em Maryland e commandante do cutter aduaneiro indivíduos mettidos nessas emprezas contra a lei. A intervenção portuguesa conseguiu algumas restituições de presas, porem não obteve condemnação alguma de pessoas, nem tampouco indemnisações, o que contrariou vivamente Corrêa da Serra, que, quando deixou o posto em 1820, vaticinou que os Estados Unidos soffreriam algum dia males provenientes da mesma causa. Assim aconteceu, com effeito, durante a guerra de Seccessão, quando dos portos ingleses sahiram corsarios contra a marinha e o commercio da União. É verdade que a Inglaterra, que em 1819 imitou a lei de neutralidade norte-americana não pôde provar que tivesse feito esforços bastantes para impedir as infracções da lei e foi feita responsavel por ellas pela côrte arbitral de Genebra. Corrêa da Serra não pôde sequer convencer o governo norte-americano da conveniência de uma commissão mixta para o exame e liquidação das reclamações portuguesas. Contestaram-Ihe que os tribunaes norte-americanos eram sufficientes e competentes. Adams escreve, no seu diario, que obedeceu nesse ponto contra os seus proprios desejos ás ordens do presidente; que Portugal não deixava de ter razão e que os Estados Unidos seriam castigados no futuro. Jefferson viu como politico que a proposta não seria acolhida e assim o disse com franqueza a Corrêa da Serra que quasi se indispoz com elle, pois o temperamento do antigo cura parecia ter mudado como trato diplomatico. De suave se tornou irascivel, chegando a dizer ao secretario de Estado, Adams, que teve o bom gosto de se não irritar, que os norte-americanos eram «uma massa de perturbadores» («a most unmanageable creuw»). A sua acrimonia, realçada pela sua vivacidade, apesar dos 68 annos, e a grosseria do ministro britannico, que era Stratford Canning, famoso logo como embaixador na Russia e em Constantinopla, fizeram que com Monroe se estabelecesse certa etiqueta nas relações da Casa Branca com os ministros estrangeiros que costumavam ir alli de visita e tomar chá sem convite especial nem previo pedido de audiencia. Conta-se que nas recepções diplomaticas Corrêa da Serra tinha sempre o talento de monopolisar a conversação com o Presidente, suscitando um thema interessante, no qual Monroe entrava gostosamente, extendendo-se os dois no mais agradavel debate. Jefferson foi-lhe fiel até ao fim. Este fim foi, comtudo, melancholico. Onde Corrêa da Serra se sentia melhor era, apesar de tudo, nos Estados Unidos, a cujo meio se tinha adaptado e affeiçoado chegando a responder a um interlocutor inglês que o observava, que o céu norte-americano tinha mais brilho, o que não era de admirar, visto que os Estados Unidos estavam de facto illuminando o mundo. Na Europa estava descontente, impaciente, irritado. Tambem a sua saude declinava. Eleito deputado á Constituinte de Lisboa de 1821, quasi se limitou naquella assembléa a defender a Academia. Falleceu de diabetes em Setembro de 1823. Pouco antes tinha sido nomeado plenipotenciario para tratar com o ministro norte-americano a conclusão de um tratado de commercio entre os dois paizes, e recusou a nomeação por a achar incompativel com a funcção legislativa e porque tinha partido absolutamente desgostado da attitude dos Estados Unidos na questão da pirataria, embora Jefferson o tivesse querido convencer de que o governo não pactuava com os bandidos e lhe reiterasse o seu desejo de que, no caso de lhe não agradar a atmosphera europea, buscasse um retiro na Universidade de Virginia. «Nenhum estrangeiro, escreveu Jefferson a Madison, deixou jámais nos Estados Unidos tantos amigos e tantas recordações. Comtudo, elle esqueceu ou pareceu esquecer os seus amigos norte-americanos». Deixou de escrever a todos e nem sequer accusou recepção ao ministro norte-americano Dearborn, da copia da carta de Jefferson, na qual este dizia que os seus amigos conservavam por elle a mais viva sollicitude e pedia a Dearborn que lhe prestasse todos os serviços possiveis, porque os consideraria mais que se lh'os prestasse a si mesmo. Oliveira Lima
dc.contributor.authorLima, Manuel de Oliveira
dc.date.accessioned2025-04-17T09:21:59Z
dc.date.available2025-04-17T09:21:59Z
dc.date.issued1925-10
dc.description.abstractNuma nota biográfica que analisa o percurso diplomático de José Francisco Correia da Serra (1750-1823), o autor destaca as amizades que o biografado, membro da Royal Society of London for Improving Natural Knowledge – fundada em 1660 –, travou em Londres, para onde chegou a obter uma nomeação para secretário da embaixada portuguesa. De acrescentar que, para além de uma descrição dos norte-americanos como “a most unmanageable creuw”, emprega-se o anglicismo “cutter” e faz-se uma menção a um interlocutor inglês.
dc.format.extent25-31
dc.identifier.urihttps://cetapsrepository.letras.up.pt/id/cetaps/131887
dc.language.isopt
dc.publisherConselho Director Central das Juventudes Monarchicas Conservadoras
dc.relation.ispartofPortugália: Revista de Cultura, Tradição e Renovação Nacional
dc.relation.ispartofvolume1
dc.rightshttp://purl.org/coar/access_right/c_14cb
dc.subjectViagens
dc.subjectLíngua Inglesa e Anglicismos
dc.subjectCiência
dc.title"O P.e Corrêa da Serra nos Estados Unidos"
dc.typeArticle
person.birthDate1867
person.deathDate1928

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