“Castelos em Hespanha”
| cetaps.description.printingName | Imprensa Libânio da Silva | |
| cetaps.publisher.city | Lisboa | |
| cetaps.researcher | Alice Laurentino | |
| cetaps.source.place | https://pt.revistasdeideias.net/pt-pt/contemporanea | |
| cetaps.text | CASTELLOS EM HESPANHA Ao Excelentissimo Senhor Dr. Manoel de Brito Camacho Parte destas coisas que escrevi foi na pretensão de responder a uma das brilhantes chronicas por V. Excellencia publicadas na Lacta-ha ja ans doze annos, se não estou em erro. Dizia então V. Excellencia.e d'ahi o men protesto, que assim como Bizet na musica da Carmen, Marillo e Vellasquez interpretaram na pintara a alma hespanhola. Essas chroni cas tão ricas de intelligencia, de sensibilidade e de humor, tinham como titulo Por terras civilisadas e como sub-titulo Impressões dam selva- gem. Pode ser que apezar da muita e justa curiosidade que sempre des pertam as obras de V. Ercellencia, alguem as tenha desconhecido, e pode ser que, por am feliz acaso, sirvam as minhas mal sonhadas paginas para lhes criar um leitor a mais. Assim eu ficaria justificado, e assim me seja permitido que estes Castellos em Hespanha, mais ligeiros e ephemeros do que o fumo, eu os offereça, por não ter nada melhor, a quem é, como V. Excellencia um dos mais raros, mais elevados e nobres espiritos que tem amado e honrado a nossa Terra. Pois vá de atrevimento... E as horas religiosas que vivi na lenta contemplação dos paineis do Prado, de longe venham, uma a uma, e pallidas de emoção se acerquem, com seus vestidos longos de saudade, seus diademas onde brilham sem ruido, deslumbramentos da minha Iniciação, e uma a uma ao ouvido me murmurem as magicas palavras que acordam para a vida as recordações. Que ellas venham em miados passos, lá de tão longe, e me sorriam e animem, dando-me a precisa coragem para affirmar: Vellasquez é portuguez. (1) Dizer que, assim como Bizet na musica da Carmen Vellasquez e Murillo interpretaram nas suas telas a alma hespanhola, não é decerto uma impressão de selvagem que, orgulhoso dos seus olhos claros e da sua propria sensibilidade, se recusou a genuflectir ante o fetiche supremo que se chamou Rodin, sacudiu o pó das suas sandalias á porta do Salão dos Independentes, e exigia lógica aos poemas de Nietzsche, a feia e fria lógica que já matou Jesus e Budha, Mafoma e Confucio, e está prompta ainda a guilhotinar toda a raça illuminada de Zarathustras, que – al d'elles – nunca foram philosophos pela simples razão de que foram apostolos e altissimos poetas. Ora, que Murillo tenha interpretado, já não digo a alma, mas a animula castellana, não me interessa discutir, tanto mais que este pintor me deixon quasi indifferente, tocando, ao que me pareceu, só a superficie das coisas, realista ingenuo nas f guras das ruas, simplesmente terno na tinta argentes dos seus assumptos religiosos. Mas enquanto a Vellasquez, não. Tudo o que senti, protesta contra esta affirmativa que sabios criticos veem passando de mão em mão, a ponto de que, hoje, ella já brilha com o fulgor das verdades incontestaveis nas paginas dos Baedekers. Eu bem sel que, ainda ao mais irreverente chronista, a meio de longa viagem atravez de terras civilisadas, viagem accidentada de bons ditos. de emoções pre ciosas, de sinceras rebeldias, é grato repousar á sombra suave d'um logar commum, muito especialmente quando este é de larga e frondosa copa, de seculares raizes, escorado por nomes illustres- judeus como o de Reinach, castelhanos como o de Blasco Ibañez... Mas hespanhol, o Vellasquez Interroguemos D. Sebastian de Morra, o misero anão de olhos negros e insistentes, com seus duros punhos cerrados contra as coxas curtas, e tão orgulhoso e tão triste como por terras de Castella o meu coração de estrangeiro. Elle aos dirá como, antes de pousar, o pintor o fazia dizer a sua historia, contar a ultima afronta recebida, porque fora que uma das princezinhas the puxira com força a negra barba, como elle estivera quasi a morder a pequenina mão cor de rosa, mais cruel para a sua vaidade que uma tenaz de Inquisição.. Consolava-se D. Sebastian por encontrar n'aquele artista o coração que sabia escutar o seu odio de coisa espezinhada, e lhe sabia insuflar orgulho, quando já no fundo escuro da sua pobre alma começava um borbulhar de lagrimas. Era então que Vellasquez principiava a pintar; mas a pintar o homem que vivia e sofria a dentro d'aquele enfezado corpo, quando outro qualquer, Ribera ou Goya, pouco importa, teriam simplesmente e gostosamente retratado o monstro. E o Niño de Vallegas, de boca dolorosa, o Bobo de Coria, e aquele outro ando, El-Primo, de linda e lyrica cabeça, tão cavalheiroso e erudito, folheando o seu livro com profunda gravidade – todos, todos elles nos estão contando a tranquila doçura de D. Diogo, como elle era diferente da gente castelhana que os cercava, tão simples de maneiras, e de tão nobre e serena linguagem, que as horas as passavam encantados, parecendo que suas falas vinham de desconhecidas terras, de mais suave luz e de amorosas, melancolicas almas. Escutel-os, horas e horas seguidas, e a todos, creio, era querido o nome d'aquele pintor, que impassivelmente e impiedosamente, marcava os traços de degenerescencia d'um rei, ao mesmo tempo que descobria nos monstros o que n'eles havia de profunda e humanissima dôr. Vellasquez é portuguez... Que artista, senão da nossa raça, teria pintado o quadro das Lanças (Rendição de Breda), em que o vencedor, descido do cavalo, se curva para o vencido que lhe oferece as chaves da cidade. impedindo-o de ajoelhar e sorrindo-lhe com tamanha bondade, que parece pedir perdão da victoria? Todos os cavaleiros teem a cabeça descoberta, e em nenhuma face reluz a soberba dos vencedores. Ha um outro quadro das Lanças, logo à entrada do Museu. Ahi o homem que entrega as chaves da cidade está de joelhos em terra e suplica piedade (1) Já em 1888, o eminente escriptor, Ex Dr. Coelho de Carvalho, no seu admiravel livro de Viagens, dizia: O apparecimento de Vellasques vindo do mesmo movimento naturalista, de que sahiram Marillo, Zarbaran e Alonso Cano, é, contudo, um estranho phenomeno dado na arte bespanhola, porque apesar do melo de Sevilha ser excellente e propicio, seria difficil is forças phisiologicas da raça castellana, affectada de perversio nervosa, originada pelo terror e pelo ascetismo, produzir uma organização, tão perfeitamente equilibrada. Vellasquez porem era filho dum portugues... O pae de Diogo Rodrigues da Silva Vellasquez era João Rodrigues da Silva, do Porto... No genio de Vellasquez se pode observar essa dupla influencia, a do sangue portugues que lhe des a tenacidade e equilibrio das faculdades do estado e do criterio justo, e a da nossa orientação litteraria que origin espirito artistico da corte de Pillope IV, em cujo centro se fixou definitivamente a sua indole, creando-se a escola de Madrid. emquanto o gran capitão victorioso, sobre um imenso cavalo de guerra, tem um gesto de insolente e dominadora soberania, esmagando com o olhar os vencidos que se rendem. Este quadro, sim, este é d'um hespanhol! … Para ver as Conceições de Murillo tem que se atravessar uma sala (1) onde entre castelhanissimos Riberas e dois maravilhosos Zurbarans, o grande Christo de Cano se ergue, contorsionado e tragico, a boca clamando injurias, o braço direito rompendo da tella, ameaçador e terrivel contra a injustiça e covardia dos homens, e contra o Deus que o abandonou: E' o Bakounine, rugindo, pregado n'um madeiro! E na outra sala, a seguir, entre dois ternos Murillos, o Christo de Goya repousa na cruz, todo o corpo isento de dor, a carne resplandecente como d'um deus pagão de eterna belleza, só nos olhos e na face, virada para o ceu, ha lagrimas e uma como que divina amargura. E' Apollo, o Sol cruclficado! E os hyeraticos e angulosos dos byzantinos, os sérios, sangrentos Christos primitivos, que vieram perseguir em sonhos a alma anciosa do Grecco, e O d'este que ascende n'um painel do Prado como uma fugitiva chama que a dor modelasse – cada um nos diz a sua palavra, encarnação d'algum versiculo de oiro e lagrimas, mas não mais do que uma só palavra, uma só expressão, um só momento do Christo. O de Miguel Angelo na Sixtina ergue o sea Immenso braço de Jove Justiceiro, fazendo encolher de terror a propria Mãe! E o indifinivel Christo de Leonardo, o malor de todos, é feito da eternidade e silencio da Esphinge, – Ephinge, cujo corpo de féra se estylisasse em humana forma e sobre cujo infinito sorriso descesse a perpendicular d'uma lagrima. O seu braço direito é o braço poderosissimo de Deus, cuja mão habituada a fazer e a reger os mundos, entre os apostolos, como entre os signos, affirma a traição, quer que se execute a traição: emquanto o braço esquerdo, n'um doce gesto de resignada humildade, acceita a consummação dos factos, a necessidade da sua dor e sua morte. E estes dois movimentos contraditorios são reflectidos no tranquillo espelho do seu rosto em duas correspondentes e contraditorias expressões, que se debatem e fundem, não sei porque magico poder, deixando-lhe na face como que o perpassar d'uma sombra de indefinida, longinqua e quasi piedosa ironia... A cabeça que levemente se inclina não é a redonda cabeça d'um deus da Hellade; é uma mais vasta aboboda, e a curva superior que a limita não é o melo circulo perfeito d'um craneo grego, mas uma semi-ellipse que se destaca no fundo azul dos ceus, como se a mão de Leonardo ao traçal-a tivesse seguido a linha mathematica e harmoniosa da orbita d'um astro. Velam as palpebras os seus olhos, mas sentimos, como em nenhum outro, a certeza de que nos está vendo e, quasi imperceptiveis, os altos supercilios, abertos em dois finos arcos, dão o quer que seja de oriental, á expressão d'este indecifravel deus do Occidente. A sensação mais prompta e mais segura que recebemos ao contemplal-o, é que é mais antigo do que o Christo greco-semita, como mais antiga deve ser a sua vasta alma, infinito mar de quietude e silencio onde vieram, desaguando e desapparecendo, como longos rios, as religiões de todos os homens, arrastando no tumulto das correntes as almas imperfeitas de todos os deuses. E assim, entre a agitação dos gestos e exclamações dramaticas de entorno, só aquella Quietação é verdadeiramente força e movimento, como só é audivel, em verdade, aquelle Silencio. Desenhou e pintou Leonardo todos os apostolos sem que, durante largos annos, ousasse traçar no muro o rosto de Jesus. Seria bem curioso de ver o grande quadro, onde, como n'um palco, cada per sonagem tem o seu gesto proprio de interrogação, de dor ou de espanto, quando faltava ainda a figura central do Christo, exactamente aquella que desencadeou o tão dramatico tumulto. A figura dominante seria então a de Judas ou, antes, a sua bolsa d'oiro, que elle aperta, com invencivel força, na mão carnosa e robusta, d'um grosso desenho que não mais se repete em quadro algum de Mestre Leonardo. O centro da tragedia seriam pois aquelles trinta dinheiros, corruptores de todo o pão e de todo o vinho d'aquella ceia mystica, de toda a belleza da carne e de toda a luz do espirito, fonte de todo o mal, a serpe metallica entre cujas volutas a humana besta aprisionada, eternamente se debate e consomme. Que o Othelo era a tragedia d'um lenço, creio que foi Hugo quem o disse. Tambem se poderia affirmar, antes da presença do Christo, que todo aquelle quadro era a tragedia d'uma bolsa (1) Por un recente, erudito e encantador artigo do Ex. Dr. Ricardo Jorge, soube que esta ordem, por que eram dispostas as telas do Prado, está hoje, e ainda bem, profundamente modificada. Commentadores de Leonardo lastimam que este a tivesse posto na torpe mão do traidor, tomando-a á conta de infantilidade desnecessaria, indigna do grande artista. Não: Aquella bolsa é uma das faces do problema, e aquelle dinheiro é para Judas como o seu proprio sangue, corre-lhe nas velas desde a hora em que nasceu; por elle perderá a sua alma e se perderá a sua raça por todas as estradas do mundo, e por ella todos os homens seremos condemnados pelos seculos adeante...Os outros aposto-los teem as mãos livres e puras; só Judas se deixou algemar, manietado por aquelle ciro que o escra visa e denuncia. Depois de tudo feito, de tudo ter composto, foi que Leonardo começou a meditar sobre Jesus. E a sua meditação durou quatorze annos. Até que um dia, dia espantoso para a historia da Arte e da Humanidade, o mysterioso homem pintou aquelle mysterioso Deus. Bem sabia o grande enciclopedista da Renascença que só depois de creados os homens foram creados os deuses, filhos da humana anciedade, do nosso medo e da nossa esperança; e assim, aquelle Jesus que, à primeira vista nos apparece como o ennunciado d'um complexo theorema, foi afinal para o artista a conclusão logica a que chegou o seu espirito, desde que puzera como permissas todas as forças conflictuosas d'entorno, synthese suprema de tantos gestos dêsencontrados, do fluxo e refluxo de tantas almas. E tem-se a illusão de que um genio egual a Leonardo, só em frente do Christo deduziria e comporia todos os elementos restantes, exactamente como estão compostos, como d'uma observação minuciosa e profunda das figuras que o cercam, chegaria aquella concepção de Jesus exactamente como lá está imaginado. O malor genio da sciencia e da arte no seu tempo, porventura o maior genio da Humanidade de todos os tempos, não poderia ao fim de quatorze annos de constante preocupação, deixar de produzir obra de belleza e pensamento que desafiasse, atravez dos seculos, a intelligencia e a curiosidade dos homens. E assim o quadro ficou sem deixar continuadores, toda a Renascença precipitando-se n'uma Jarga vida de acção e ambição; luctas de povos, luctas religiosas, descobertas de novos mares e de novos mundos, tentativas para unificação da Italia, tentativas portuguezas para a conquista da Terra, e os seus grandes artistas, mesmo Camões, mesmo Miguel Angelo, trabalhando mais que meditando. fazendo obra individualista ou nacional, mas impossibilitados de se congregarem para uma grande obra de Harmonia, – imitadores da Hellade, que jamais attingiram a Acropole. E é ao annunciar do seculo XVII, que na grande Ilha Ingleza e nesta quasi ilha de Hespanha e Portugal, de novo surgem os grandes medians, Schakespeare, Cervantes e Vellasquez, que geram as tres obras maximas, humanisações do mysterio Vincesco: o Hamlet, D. Quixote, o Christo do Prado. O velo de intelligencia pura e puro sentimento que se interrompera em Leonardo, viera occultamente derivando pelo sub-solo do quasi todo o tumultuoso seculo XVI, e emfim, resurge, quando entre as furias puritanas, saem da taberna da Sereia oscillando até aos palcos de Londres, as terriveis duvidas do amavel principe, do Hamlet gentilissimo, e entre as fogueiras inquisitoriais, ao lado do immenso ventre de Sancho, se ergue a impolluta lança do Tristissima Figura. Vellasquez, mais simplesmente, mais humildemente, faz melhor talvez: responde ao Christo da Cela com o seu Christo crucificado. Em nenhuma parte, por tantas e desvairadas sallas de Muzeus, por tanto velho muro de Egrejas e Cathedraes, encontrei painel que a este fosse comparado E' que nenhum reflecte a séria e tranquilla doçura, a absoluta resignação d'este divino Oedipo, cuja humana e clara luz d'amor em verdade Illuminou o esphingico mysterio, violou o infinito d'um sorriso que parecia eterno, dando-lhe como limite e fecho aquella cruz. Só elle soube dar aos homens pelo arrependimento a livre força de vencer o Passado, que os bellos deuses da Grecia jamais tinham vencido. Tanto um como outro, o filho de Jocaste e o Filho de Maria, foram expostos n'um madeiro, ambos tiveram os pés martyrisados, ambos desconheceram a Mãe em certa hora; mas emquanto o heroe grego, decifrando o enygma da vida só ar mado de intelligencia, é por fim precipitado nos horrores do incesto, Jesus, mais puro e mais forte, éo unico que, pelo perfeito amor e pela morte voluntaria, realisa a victoria absoluta sobre a Fatalidade. E só o Christo de Vellasquez traduz esta suprema força. Em nenhum outro, o Filho de Deus so humanisou tão real e perfeitamente, em nenhum a dor tão serena e discreta, nem tão humilde e cal- lado o triumpho absoluto da resignação sobre todas as violencias e injustiças da Terra. E este Cordeiro expiatorio é ao mesmo tempo d'uma tragica e viril belleza, a sua carne é halito d'amor, e o seu corpo perfeito, amphora translucida guardando como sagrada, solitaria flama, a consciencia tranquilla da propria força, a certeza plena da victoria. Morto, e vive uma vida eterna; prisioneiro, e guarda em si mesmo a liberdade absoluta. E' o Homem, que dentro de si mesmo se creou o seu proprio Deus. E en sonho que Elle responde ao Christo de Leonardo: Está feita a tua vontade: a negra traição que ordenaste e a voluntaria acceitação que lhe offereceste. Os teus braços já não mais se contradizem em oppostos gestos, pois estão ambos agora egualmente abertos numa Cruz. Da batalha de teus pensamentos ficou este residuo, a Dôr, ante a dor dos homens que me contemplam; da tua dualidade resta esta unidade perfeita: A Mortes. A Morte libertadora e inviolavel... A grande chimera teve como projecção esta realidade: o Homem – o Homem, onde começa e finda toda a divina comedia. E eu sonho ainda que elle erguerá um dia a face, até hoje inclinada e meio occulta sob a cabeleira negra; sem esforço se desprenderá da sua cruz, –n'aquelle claro dia em que sobre a terra abun- VELÁSQUEZ M. del Prado "NUESTRO SEÑOR CRUCIFICADO" [IMAGEM] dante e Worida todos forem seus irmãos, livres de toda a ideia de peccado. E caminhará pela alegria do mundo não se distinguindo mais dos outros homens, pois cada um dentro de si matou a sua propria mentira: – Que desde esse dia não haverá mais deuses... Mas n'aquelle painel, cujo fundo é ainda de nocturna escuridão, como negra é ainda a alma dos ho- mens d'hoje, elle é para nós simplesmente o Christ – o Christo como nós, portuguezes o entendemos o Christo das prisões e das infinitas magoas, cuja dor é feita da contemplação de todas as nossas dores: Senhor da melancholia, perdão e misericordia; Aquelle de quem todas as nossas mães souberam ensinar a ingenua e maravilhosa historia. As suas copias estão disseminadas em Portugal, e se fosse possivel um plebiscito nos campos, nas serras, nas costas do mar, todos os outros seriam repudiados como deuses extrangeiros que a alma portugueza não entende. Sim, bem portuguez, eu o sinto e juro! E bem digno de reparo e motivo para grande orgulho nosso, é afinal este caso maravilhoso de, entre tantos Deuses, ser para o Deus da nossa raça que se volvesse o nobre genio das Hespanhas, D. Miguel de Unamuno, que ante Elle nos versos immortaes do seu altissimo poema, El Christo de Velasquez, ergueu um dos mais bellos hymnos que a voz humana tem entoado no mundo: ...Vara mágica nos fué el pincel de Don Diego Rodrigues de Silva Vellazquez. ... Aqui encarnada en este verbo silencioso y blanco que habla com lineas e colores, dice su fe mi pueblo tragico. A fé de seu povo? Não. Mas sim a fé e a esperança deste mais simples e menos numeroso povo de Portugal, cujo passado delirio de grandezas, – delirio maior que tem havido na Terra! – teve tambem, um dia, como fecho luminoso, uma Cruz, aquella Crara Cruz que appareceu e brilhou por sobre as aguas do Mar Vermelho, ante as espantosas naus do Albuquerque Terribil! Que incognoscivels forças gularam a Unamuno para áquelle Christo em cujas veins corre o sangue portuguez de Vellasquez? Não é a primeira vez que para Portugal se volve a alma da Hespanha, é certo, nem é a primeira vez que ella entre nós procura o Salvador... A mesma angustiosa bussola guia as almas dos povos e as almas dos poetas. Assim foi tambem, assim foi tambem, naquelles tempos de Commaneros e Carlos V, e de apavorantes prophecias: Particularmente cryan los ignorantes en una que dizia, que avia de reynar en España uno que se llamaria Carlos, y que avia de destruyr el Reyno, y assolar las cludades. Pero que un Infante de Portugal le avia de vencer, y echar del Reyno y que el Infante... … Horas depois de se abandonar a sala de Vellasquez, ainda se caminha como somnambulo atravez das ruas movimentadas de Madrid, tudo nos parecendo irreal, phantasmas de existencias. sombras de alegrias, vagas expressões e gestos vagos, que pertencem como nós mesmos a uma vida imperfeita e transitoria, emquanto lá no Muzeu, ao canto d'uma tela, um simples cão, o somnolento cão das Meninas, vive, eternamente dormitando, uma vida eterna. Se olhamos para o ceu, logo no fundo azul se destaca aquelle pequeno principe cavaleiro, D. Balthazar Carlos, que tem nos olhos o liquido veludo dos olhos das creanças, e cuja boca de infante foi talhada para mandar e dominar os homens; com elle vemos passando a pomposa cavalgada: Duque de Olivares, Filippe IV, Isabel de Bourbon com seu longo e solemne vestido de amazona real. Se nos sentamos à mesa d'um café, logo voltam a cercar-nos os andes e os bobos, princezas e meninas, respiramos o ar que ellas respiram, e isola-nos do resto da gente e do bulicio d'entorno, a luz de opala e ambar que illumina as telas de D. Diogo. A luz de Vellasquez! Nos outros pintores a luz é, como nos italianos, voluptuosa e sensualissima; halito de mysticismo nos grandes religiosos primitivos, familiar e caseira nos Teniers encantadores, pomposa e fria nas largas telas de Rubens; Rembrandt maneja-a e domina-a com toda a prodigiosa força do seu genio; Ribera atira a para os seus quadros como se pintasse com um archote acceso! Em Goya é a luz forte e secca da Hespanha, os seus lienzos, por vezes, parecendo que foram recortados dos poentes castelhanos do Guadarrama… Mas a luz de Vellasquez, é simplesmente – a Luz! A luz como Deus a fez, e tão real e verdadeira que eu creio que D. Diogo, se ella um dia abandonasse o mundo, era capaz de soltar o Fiat prodigioso, compondo-a de novo, como Balzac seria capaz de refazer toda a especie humana, sem lhe faltar um sorriso e sem lhe faltar uma lagrima. ... E ao mesmo tempo é luz suavissima, o quer que seja de outomnal e melancholico; luz que atravessando o prisma diaphano d'uma tranquilla alma, desse no espectro o tom melódico e distante d'uma saudade. Pois se eu lhes juro que Vellasquez é portuguez! A serenidade e a força, a grandeza e a doçura, eis a atmosphera que nos envolve e que trouxemos da casa de Vellasquez, como se o deus-operario que creou aquellas vidas ainda por ali andasse, trabalhando e illuminando. Versos de Cambes, de João de Deus, de Anthero, paginas de Camillo, murmure-as o portuguez que descançou n'aquella sala, e hade ver como lá encontram accorde de incon fundivel sympathia, assim como the morrem n'uma sensação de frio e de exilio se a experiencia for tentada nas salas de Goya ou ante os paineis dos outros mestres. Lá se podem reviver paizagens de Portugal, rostos amigos e distantes, passados amores pois é recanto immortal de nossa terra que ali se encontra, immerso em saudade, onde semi-mortas folhas perpetuamente vão cahindo na melancholica luz d'um outomno eterno. Decerto nós possuimos uma pintura propria, pois possuimos uma alma bem caracteristica e distincta da alma dos outros povos. E' fóra de Portugal que isto melhor se entende, e uma toirada basta para marcar a funda differença que existe entre portuguezes e hespanhoes, apesar de serem estes os extrangeiros que, creio bem, mais se parecem comnosco. Assisti a uma corrida de toiros em Madrid, e apesar da minha velha aficion de homem do Riba-Tejo, confesso honradamente, que toiros em Hespanha não voltarei a ver. Vi lá morrer um pobre esqueleto de cavallo branco, que a mim me fez lembrar a agonia d'aquelle de Dolstolewski, enchendo de angustia os pesadelos do assassino Rodia: o cavallo martyr que teve de defrontar-se com tres toiros, as pobres pernas tintas de sangue, um rolo vermelho de tripas sahindo do ventre, até que uma ultima cornada o rangon inteiramente, atirando-o a terra, onde ficou debatendo-se e soprando de dor, as visceras despegadas a entornarem-se-lhe no chão ensanguentado. Deram-lhe uma puntillada, para acabar, que acertou mal, deixando-o vivo. Laçaram-no depois pela garganta, apertaram-lhe bem a corda, varreram-lhe e levaram-lhe os intestinos, e para ali o aban donaram emquanto, n'outro ponto da arena a corrida continuava. Permanecia assim immovel largos segundos: mas de quando em quando erguia ainda o seu longo pescoço branco de enforcado, respirava fundo, e os olhos abriam-se-lhe, cheios de intelligencia, dilatados de espanto: Porqué, porque o torturariam assim? Isto durou um quarto d'hora deante de não sei quantos mil madrilenos, sem que uma alma exigisse a puntilla misericordiosa que désse fim áquella immensa agonia... Hespanhol, o Vellasquez!? Os hespanhoes teem Goya! E á Maja, a essa eu bem n'a vi, constantemente a vi, reclinada e nun a meio da arena, presidindo e sorrindo como n'um jardim de suplicios, pois toda a tragedia era em sua honra, – a destreza e a coragem dos homens, o sofrimento e o sangue das féras! Ella era o bárbaro idolo d'aquella miesa bárbara, em que fol gran-sacerdote n'essa tarde, o espada Pastor, feio e grave sacerdote, cumprindo com uma sobriedade antiga todos os passes do ritual, jogando a vida com a mais serena valentia. Eu a vi, á desnuda manola de olhos cor de ambar, aspirando o halito ardente de toda a praça seguindo morosamente a agonia das bestas, deliciada e sempre sorrinde... Para attingir o seu corpo de femea sagrada, os homens vestem-se de seda e oiro, desafiam cem vezes a morte, enchem um circo de cadaveres e sangue, pois o sangue é preciso para que os labios d'ella sejam eternamente vermelhos e eternamente sorriam... ... Dilata-se-lhe e ondoia a curva macia da anca, os seios erguem-se mais altos, é mais mysteriosa a sombra tenue do seu ventre; respira, e os seus braços cruzados sob a cabeça, parece que vão a abrir-se quasi n'uma oferta – ao gladiador talvez que além vae executando os passes da Morte, talvez no negro toiro mugindo, reluzente de suor e de sangue.. ... Ou, vae porventura erguer-se, mover os pés pequenos e nús pela arena avermelhada, os braços voluteando na cadencia d'uma dança bárbara, cada movimento do seu corpo nú, fazendo rugir de desejo os homens e as féras!... Como a Gioconda, ella é mysteriosa, e, como o sorriso da Gioconda, infinito o seu sorriso. Em Monna Liss, o mysterio do espirito; na Maja o mysterio da carne, todo um poder terrivel e supremo enchendo-nos o coração de medo e ferocissimo amor... E ainda ao accender das luzes, quando se inundam de gente as ruas da Cidade e esta se agita n'uma alegria cheia de brilho eruido, atravez da noite eu voltei a vél-a, Salambo de Madrid, dominando Madrid, emquanto por entre as vitrines resplandecentes a multidão circula como serpente enorme, com suas escamas luzindo quando volutela nas praças illuminadas, ou desenrolando o seu longo corpo de Pithon atravez das ruellas estreitas e escuras, por onde se quebram os primitivos ais das malagueñas... Como para a outra em Carthago, a mesma anciedade a leva e arrasta, entre luzes e risos, por toda a noite de Madrid, e os seus movimentos ainda os mais imperceptiveis, são em busca d'aquella que um dia se despiu sobre o leito de Goya e a quem chamaram – A Maja desnuda! E sonho com o divino manto de Tanit, o sagrado Zaimph, em que surgiu envolto o bárbaro Matho ante a filha de Amilcar – eu, que junto d'esta, que supponho mais bella e mais terrivel, só tenho os rotos andrajos da pobre chronica que ahi fica... CARLOS AMARO | |
| dc.contributor.author | Amaro, Carlos | |
| dc.date.accessioned | 2025-04-17T13:43:06Z | |
| dc.date.available | 2025-04-17T13:43:06Z | |
| dc.date.issued | 1924-03 | |
| dc.description.abstract | O artigo incide sobre cultura, literatura e pintura espanholas, com especial enfoque para o pintor Diego Velasquez (1599-1660). Ao fazer referência ao artista ibérico, Carlos Amaro (1879-1946) alude também a William Shakespeare (1564-1616), já que tanto o artista como o dramaturgo se demonstram importantes personalidades da mesma época. | |
| dc.format.extent | 17-24 | |
| dc.identifier.uri | https://cetapsrepository.letras.up.pt/id/cetaps/131938 | |
| dc.language.iso | pt | |
| dc.publisher | António Ferro | |
| dc.relation.ispartof | Contemporânea | |
| dc.relation.ispartofvolume | 10 | |
| dc.rights | http://purl.org/coar/access_right/c_abf2 | |
| dc.subject | Teatro | |
| dc.title | “Castelos em Hespanha” | |
| person.birthDate | 1879 | |
| person.deathDate | 1946 |
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