"A Elegia da Mulher Feia"
| cetaps.description.printingName | Imprensa Beleza | |
| cetaps.publisher.city | Lisboa | |
| cetaps.researcher | Marques, Gonçalo | |
| cetaps.source.place | J. 2628 B. | |
| cetaps.text | Á MARGEM DOS CONCURSOS DE BELEZA A ELEGIA DA MULHER FEIA Todos os olhos se volvem para a mulher formosa, para aquela que detem o talisman da Beleza - e só ela fascina e só essa sorve, triunfalmente, voluptuosamente o mel da alegria de viver. Só para a mulher bela os homens teem sempre um olhar ávido, só por elas os corações masculinos palpitam fortemente - e é ainda para elas que se inventam toilettes bizarras e joias refulgentes. E a mulher bela sente-se assim adulada e esquece muitas vezes de descobrir tesouros espirituais, volvida como está para o culto da sua beleza exterior. Sabe que será sempre admirada, sem que ninguém se importe devéras com o seu espírito - pois todos estão fascinados pelo seu corpo. Sabe que todos os homens, ao vê-la, terão uma exclamação íntima; sabe que será procurada para esses concursos de beleza que os grandes jornais organizam; sabe que todas as homenagens da vida lhe estão reservadas e que muitas vezes bastaria uma palavra sua para que um enamorado delas demande a morte, encostando revolver à cabeça dementada por amor... Sabem tudo isso e passam triunfantes, orgulhosas, certas que um gesto seu pode atrair a fatalidade ou a felicidade suprema.... Elas perturbam, tentam mesmo involuntariamente, porque toda a beleza é tentadora - e no corpo duma mulher bela a natureza parece ter personificado toda a sua harmonia. Mas tudo tem o seu reverso, a vida é feita de dolorosos contrastes, esses contrastes odiosos e muitas vezes convencionais que permitem ao homem avaliar os seus próprios valores, as suas próprias concepções. E assim, ao lado da mulher bela, há a mulher feia, que se convencionou chamar feia, pois muitas vezes a sua fealdade é meramente convencional e oculta até, paradoxalmente, uma enigmática beleza, que os olhos profanos não sabem decifrar desde o primeiro momento. A fealdade na mulher, repetimos, é meramente convencional, porque a beleza não reside apenas em seu corpo, mas sim em sua alma, em seu espírito. E por um natural equilíbrio, é precisamente nas feias que se desenvolvem mais as virtudes espirituais; são elas que se debruçam longas horas sôbre esses livros que falam de sentimentos puros e que enunciam horizontes de magna amplitude; são elas que conhecem todas as canções da ternura; são elas que sabem descobrir todas as celulas afectivas. Emquanto as belas se volvem para a adoração do corpo, elas quedam-se no culto do espírito; emquanto as formosas se enebriam com a vida material, as feias sonham, sonham - sonhos de beleza infinita. E são carinhosas e seu coração é um alegrete onde florescem todas as rosas dos sentimentos nobres - e quantas vezes delas se exala uma densa simpatia, tão densa que desperta paixões como a própria beleza física! E porque existe nas feias, oculto sob a fealdade, uma outra beleza, foi quási sempre as feias que os escritores românticos elegeram para heroïnas de suas obras, pois êles sabiam que só elas poderiam realizar essas acções elevadas e esses lentos sacrifícios que exigem uma alma plena de sentimentos bons. Cantaram os românticos as mulheres feias e sôbre a cabeça delas os poetas colocaram seus diadêmas líricos. E a própria história, mesmo essa que devemos repudiar e esquecer como a uma mentira pretérita, está povoada de mulheres feias: - feias foram as heroïnas de antanho, em sua maioria, feias foram as grandes escritoras, as grandes artistas, feias foram todas as mulheres que tiveram um papel importante dentro das colectividades do seu tempo. Por esse mesmo fenómeno de compensação que pauta a natureza, dir-se-ha que todas as qualidades de inteligência e de valor são, dum modo geral, inimigas da beleza física. Esta vive só por si, para deslumbramento dos nossos olhos, emquanto a outra, a do cérebro ou do coração, se impõe à nossa alma. É necessário, pois, que não guardemos as nossas manifestações só para aquelas que teem um corpo formoso; é necessário que sejamos justos e pensemos também nas feias e pensemos com carinho e com ternura, porque detrás do biombo da sua fealdade se oculta tantas vezes, tantas! uma alma cheia de enlevo, uma alma propícia a dar-nos uma doce e tranquila felicidade. As feias também merecem as nossas elegias, porque são mais modestas e até porque sofrem mais, e conhecem melhor, dentro do seu anonimato e isoladas dos olhos da Admiração, o que na vida há de profundidade de dôr. [imagem] Caras premiadas Tipos de beleza: de mulher brasileira, ao alto; de mulher francesa, ao centro; de mulher iuglesa, em baixo. | |
| dc.contributor.author | Anónimo | |
| dc.date.accessioned | 2025-04-17T15:15:27Z | |
| dc.date.available | 2025-04-17T15:15:27Z | |
| dc.date.issued | 1925-12-01 | |
| dc.description.abstract | Num artigo que pretende enaltecer as frequentemente esquecidas ou ignoradas qualidades da mulher apelidada de feia, preterida à mulher dita bela por não partilhar das mesmas características físicas, apresentam-se três tipos de beleza, de entre os quais o da mulher inglesa. | |
| dc.format.extent | 5-6 | |
| dc.identifier.uri | https://cetapsrepository.letras.up.pt/id/cetaps/131976 | |
| dc.language.iso | pt | |
| dc.publisher | Alexandre de Assis | |
| dc.relation.ispartof | Renovação: Revista Quinzenal de Arte, Literatura e Actualidade | |
| dc.relation.ispartofvolume | 11 | |
| dc.rights | http://purl.org/coar/access_right/c_14cb | |
| dc.subject | Sociedade | |
| dc.subject | Iconografia | |
| dc.title | "A Elegia da Mulher Feia" | |
| dc.type | Article |
Files
Original bundle
1 - 1 of 1
Loading...
- Name:
- A ELEGIA DA MULHER FEIA.pdf
- Size:
- 640.42 KB
- Format:
- Adobe Portable Document Format