“Carta Inédita de Antonio Feliciano de Castilho”

cetaps.description.printingNameImprensa Libânio da Silva
cetaps.publisher.cityLisboa
cetaps.researcherAlice Laurentino
cetaps.source.placehttps://pt.revistasdeideias.net/pt-pt/contemporanea
cetaps.textCARTA Inédita de Antonio Feliciano de Castilho Ex." e excellente amigo: Quarta feira 25 de Janeiro de 1871-, da tarde. Não respondi logo pelo portador da carta de V. Ex. porque só agora saio da cama. A minha ophthalmia teima em me prender no quarto, e quasi de escuras o mais do dia; contudo parece-me que principia a declinar, e tomara-a eu já fora de todo para me ir esparecer um dia com V. Ex neue seu paraizo, e bem o necessito. As sensaborias e os desgostos graves chovem de toda a parte e de continuo. Hontem mesmo recebi eu a nova de ter fallecido na ilha da Madeira, meu sobrinho Alexandre perda dolorosissima para a familia, e não pequena tambem para a sciencia. Foi um exemplar de bons estudiosos e um raro modelo de probidade. D'aquella especie não ficam por cá muitos. Esta cartinha de V. Ex, trouxe-me bem a proposito momentos de suave distracção; comprovando-me que, neste rapido rarear das fileiras ainda não ficando de pé e firmes, camaradas a quem me è doce amar, e por quem o sentirmo-nos amados nos é dulcissimo. Dou parabens a V. Ex, ds artes e o min pelo que já sei que ha de sair o seu quadro do natal do pobresinho. Não sinto pequeno desvanecimento em pensar que os meus versos inspiraram pintura e muzica a um tal espirito. Aproveite, aproveite meu amigo a sua estação productiva; estro, liberali-sou-lho Deus como a poucos, Se não colhesse a final as coroas maximas, só a si o poderia imputar, que então haveria sido (e oxalá que o não seja) o filho prodigo do genio. Mais favoravel concurso de circunstancias quem o poderia desejar! Vive num bello suburbio, em ares saudaveis e apraziveis, paredes meias com um rei illustrado e amigo, com ocios para meditar no bello, deslembrado de politicos, de invejosos e mexeriqueiros, frequentado de bons companheiros, poetas, pintores, musicos, e congregando à sua meza deliciosamente italiana, e na sua officina de maravilhas, uma ninhada de talentos variadissimos que para ahi gravitam pela atracção da homogeneidade, e para remate de tantos condões, tendo das portas a dentro uma socia que é ella propria a sua musa, e crianças sadias, leves e alegres que são as aves do paraizo do seu viveiro. Por mim lhe posso dizer que as horas sempre breves que eu ahi passo me renovam cá dentro umas como revelações de idade de oiro não fabulosa. Pena é que a sua admiravel robustez se tenha agora desmentido um tanto com essas lembranças de rheumatismo; esperemos comtudo a primavera, que d'aqui a nada nos está batendo à porta lhe restituirá em cheio o seu vigor antigo. Agora mesmo me chega a agradavel noticia de estar já coberta de flor uma amendoeira na rua de S. Caetano aqui perto. A primavera que não tarda, breve lhe ha de acabar com esses encomodos que afinal lhe haverão servido para que possa apreciar melhor as delicias da saude. Deus, que é o pai dos bons pintores, tambem segue a regra de realçar com sombras as formusuras mais brilhantes dos seus quadros. Mal advinha V. Ex." que dia é este hoje em que a sua amigavel cartinha me chega ás mãos! É a vespera do meu 71 anniversario; recebo-a portanto como uma especie de parabens e felizes auspicios, e até como tal th'a agradeço. Os instrumentos concedidos por sua magestade aos dois estudantitos do Conservatorio que V. Ex. apadrinhou, ainda não chegaram; alguem os terá demorado no caminho. Os meus agradecimentos a El-rei e a V. Ex." é que eu não quero que se retardem; agradecimentos tardios parecem se muito com ingratidões. Senti muito que a Ex. Sn." D. Celina não quizesse fazer-me à mercê de conservar em seu poder os livros inglezes; em que mãos poderiam elles ser mais propriamente empregados? Chegam-me visitas que me obrigam aqui esta conversação. Conclu-o-a forçadamente assignando-me De V. Ex. Admirador e amigo velho muito obrigado
dc.contributor.authorCastilho, António Feliciano de
dc.date.accessioned2025-04-17T14:15:39Z
dc.date.available2025-04-17T14:15:39Z
dc.date.issued1922-12
dc.description.abstractCarta do poeta português António Feliciano de Castilho (1800-1875), datada de 25 de Janeiro de 1871, para um amigo. Existe uma menção a “livros inglezes”, os quais o poeta quer oferecer a uma tal de D. Celina.
dc.format.extent113-114
dc.identifier.urihttps://cetapsrepository.letras.up.pt/id/cetaps/131948
dc.language.isopt
dc.publisherSociedade “Edições Contemporânea”
dc.relation.ispartofContemporânea
dc.relation.ispartofvolume6
dc.rightshttp://purl.org/coar/access_right/c_abf2
dc.subjectLiteratura
dc.title“Carta Inédita de Antonio Feliciano de Castilho”
dc.typeArticle
person.birthDate1800
person.deathDate1875

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