“O foot-ball alfacinha”
dc.contributor.author | Cabral, Francisco da Motta | |
dc.date.accessioned | 2024-04-19T10:04:00Z | |
dc.date.available | 2024-04-19T10:04:00Z | |
dc.date.issued | 1924-06 | |
dc.description.abstract | Num artigo que mostra a rápida evolução do futebol na capital portuguesa do pós-guerra, o autor reflecte sobre o exacerbado gosto que os portugueses nutrem pela prática deste desporto, popularizado em Inglaterra, empregando, ainda, os anglicismos “foot-ball”, “sport”, e “bife”, designação que usa, em alternância, com o termo “inglezes”. | |
dc.description.authorDate | 1889 – 1959 | |
dc.description.printing_name | António Filipe de Gouvêa | |
dc.identifier.uri | https://cetapsrepository.letras.up.pt/id/cetaps/114435 | |
dc.language.iso | por | |
dc.publisher.city | Lisboa | |
dc.relation.ispartof | A Revista | |
dc.relation.ispartofvolume | 1 | |
dc.researcher | Marques, Gonçalo | |
dc.rights | metadata only access | |
dc.source.place | BN J. 2817//11 B | |
dc.subject | Desporto | |
dc.subject | Anglicismos | |
dc.text | O foot-ball alfacinha Desinteressei-me do foot-ball em tempos do lyceu, após uma tre- menda canelada que me poz uma tibia quasi a descoberto e me levou a concluir, para mim, que levar pontapés dos homens, por sport, me não agradava nem me servia. Era uma opinião pessoal, evidentemente; e, como todos os exercicios ao ar livre merecem o meu applauso, o extrangeirismo do jogo bife não chegava a beliscar sequer o meu na- cionalismo, porque não tinha fóros, e não podia tel-os! de fallar á alma peninsular. Annos passaram e o foot-ball, ao que julgo, não passava das cercas dos collegios, entre a barra e tantas outras brincadeiras de rapazes. Fóra disso, haveria em algumas cidades desafios que interessavam os jogadores e pouco mais... Na rajada da grande guerra veio bater na peninsula um vento de foot-ball que rapidamente assumiu proporções de vendaval. Ha mezes, chegou aos meus ouvidos de alheado, que o numero de espectadores aos desafios se contava por muitos milhares, disputando-se lugares a quantias fabulosas. Interroguei-me sobre a curiosidade da multidão e resolvi-me a presenciar um desafio... Um electrico «Jardim Zoologico» apinhado de gente, conduziu-me á funçanata... Espraio o olhar pela assistencia de muitos milhares de pessoas - mancha escura, apagada, como as ruas da cidade que para ali mandou o que tem de mais anodino, na ociosidade imbecilisante do domingo, porque a ralacice da semana amollece a sensação de prazer que o descanso produz em quem trabalhou. Nos lugares caros estão novos ricos, hypotheticos em tudo desde a riqueza até ao chic que procuram dar-se, ôcos como os pneumaticos dos automoveis envidraçados onde se mostram como peixes de aquario. Ali, estão elles no seu elemento: deslocados na esphera social onde viciam e assapateiram os gestos, passam bem entre a deturpada pronuncia da nomenclatura ingleza do jogo. São tambem consequencias, da guerra europeia, enxertadas num paiz onde a democracia avigora e reforça a inversão de valores em que se esteia e appoia. Desvio os olhos para o campo: é um quadrilatero cerrado por varolas caiadas a branco, onde os grupos começam a dispor-se tomando posições. Esse mostruario de plasticas que nas raças fortes constitui uma demonstração de robustez, pelo esboçar de musculaturas elasticas, pernas direitas, peitos salientes, cabeças erguidas em pescoços tremidos - offerece-me, santo Deus! um espectaculo desolador: vejo pernas tortas com varizes desenhadas, peitos em quilha, cabeças enfiadas pelos hombros, - num exhibicionismo de pobreza physica, que o pudor manda occultar numa população dessorada pelos vicios duma cidade atrazada na hygiene, arrazada pela syphilis, pela tuberculose, por um alcoolismo réles que nas gerações apparece em rachitismo, myopia e demais fraquezas organicas. Ha mais dum jogador com oculos! Dado o pontapé inicial, milhares de olhos correm pela trajectoria da bola, saltitante entre corpos mechidos que ás vezes lembram bonecos desconjunctados, numa confusão de batuque, até que um ou outro salto, num embate feliz com a bola, risca no ar uma curva graciosa de movimento. O jogo prosegue e a multidão applaude com vigor phases da lucta, coroa de palmas a victoria, e palmeia tambem os derrotados, porque os grupos tem os seus sequazes e numa certa altura ninguem se entende: esboçam-se conflitos, exaltam-se paixões na balburdia fatal, de sempre que o vencedor se confunde com o vencido... Foram estas as impressões que me ficaram dum sport que me não falla á alma e cuja analise não baniu o meu tédio. De resto, não sou obrigado a sentir como os inglezes... MOTTA CABRAL | |
dc.title | “O foot-ball alfacinha” | |
dc.type | artigo de imprensa |