“O Carrossel”

dc.contributor.authorMacedo, Diogo Cândido de
dc.date.accessioned2024-04-19T10:04:02Z
dc.date.available2024-04-19T10:04:02Z
dc.date.issued1925-01-15
dc.description.abstractReflectindo sobre o ambiente da feira popular, o autor destaca a figura de uma antiga acrobata de circo que, após uma vida de boémia e de excessos, evidenciada pela descrição que compreende uma comparação das suas rugas às de um “buldogue”, raça de origem inglesa, se encontra a trabalhar num carrossel para um patrão, descrito com recurso à personagem Charlot, interpretada pelo inglês Charlie Chaplin (1889-1977), devido ao seu caraterístico bigode.
dc.description.authorDate1889-1959
dc.description.printing_nameÂngelo César
dc.description.printing_nameAfonso Duarte
dc.description.printing_nameAgostinho Jorge
dc.description.printing_nameAlberto de Utra Teles Machado
dc.description.printing_nameAntónio de Sousa Augusto Telo
dc.description.printing_nameBranquinho da Fonseca
dc.description.printing_nameJosé de Campos de Figueiredo
dc.description.printing_nameVitorino Nemésio
dc.format.extent2
dc.identifier.urihttps://cetapsrepository.letras.up.pt/id/cetaps/114461
dc.language.isopor
dc.publisherGráfica Conimbricense, Limitada
dc.publisher.cityCoimbra
dc.relation.ispartofTríptico
dc.relation.ispartofvolume6
dc.researcherMarques, Gonçalo
dc.rightsmetadata only access
dc.source.placeBN J. 3425//4 M
dc.subjectCinema
dc.textO CARROSSEL «Messieurs-dames, un tour de cochon!... Montez, mes amours!... >> Eis o guincho apregoativo da mulherunca estafermosa de avental curto todo amarelo vistoso, blusa tricotada em verde hortelã, cerrada ao tronco como meia elástica, gâmbias musculosas forradas em malha côr de tango, afrodisíacas e berrantes, calçadas até à rótula por botinas de duraque pardacento com os seus cento e vinte ilhoses polidos, e perspontadas na gáspia com desenhos de tatuagens de marujo. Encaracolada a papelotes na véspera, a sua gaforina de rouquine sardenta é todo o seu orgulho de beldade que foi nos assaz distantes tempos de acrobata de circo, quando por conta do primeiro amante conseguia despertar ciumes aos machos, fazendo requebros de cadela fraldiqueira ao enfiar-se pelas argolas de ferro e ao saltitar na corda bamba de guardassolinho nipónico na dextra, fazendo equilibrios de graça e de garça, que era a tentação de todo o magala que a contemplava, aplaudia e beliscava. Hoje essa trunfa hirsuta como ouriço-cacheiro, de pucho alçado na nuca, cocoruto emproado sobre mil ganchos de latão, jardim suspenso desta babiloneca que é a feira, dum loiro ruivo e de rêpas cortadas como pentinho meúdo à flor da testa, assim como os seus olhos verde-gato mexediços, felinos e arteiros a formarem salto ao público palonso, bistrados em redor como mascarilha de arlequim afivelada que nem lunetas fumadas, presos ao nariz achatado a punhetaço e com corcova no pino, de asas resfolegantes, com rugas em arco, de buldogue farejando vianda, pedindo vícios e enfretando os sôcos, dum rubro acenoirado que o alcool e o desejo lhe deram, tem seu quê de faiança chinesa, meio buda meio cachorro, como essas que vemos pelas montras dos bulevares, bonecos de fancaria para burguesoide de barato gosto. O mento que se adivinha ter sido de pierrete, agora informe e encarquilhado como noz revelha, encardido, rugoso e ás arrecuas, é abafado pela papeira balofa que recorda balão do Grandela retesado e que desce até aos peitos gordalhudos que o espartilho empina, formando dest'arte um jôgo de bolas descomunais e algo esmadrigadas que o decote encaixilha geométricamente, tal como nos compendios escolares se explica aos gaiúlos o que é uma trindade de circuuferências tangentes. Toda maquilhada a oca de cosinha, a ruge de telha e a negro de rôlha queimada, com uma bôca polpuda, cubiçosa e larga, aberta à trôche-môche por capricho de navalha canalha, dum carmim estridente e viscoso que tresanda a pústula suspeita, bocarra venenosa e má, talhada para carrascão e obscenidades, sustendo a clássica cigarrilha ao canto, à laia de galdéria de revista, como prégo que impede a chaga de mais se rasgar, e deixando ver a cárie dos dentes raros de mentirosa, como os de serra estragada, amarelecidos e curtinhos, de roedor, mostra de quando em vez, ao apregoar, um enxerto de oiro já oxidado, unica joia que possue em todo o corpo, mas já muito menos brilhante que a cabeleira, juba que á força de ensopamentos em águas oxigenadas e esfreganços de unguentos e brilhantinas rançosas, reluz ao sol que nem capacete de bombeiro, empenachado por uma maçaroca de aparas de cobre, torcidas é retorcidas como chavelhos de borrêgo. Firme como um cêpo, junto à caixa dos ganhos, mealheiro pintado a zarcão, pernas escarranchadas para melhor equilibrio, bem campée nas pantorrilhas de balaustre, telinta os francos na palma da mão suja e de dedos reduzidos, como quem lhes toma o pêso, anunciando a mercadoria com réles trejeitos, gaiteira e dengosa, na sua voz roufenha de pichel amolgado: «Uma volta, 50 centimos, meus senhores!...», E é só trepar para o lombo do orelhudo cevado de car valho... Há quarenta a escolher, todos iguais e rosados que direis - salvo seja!... crianças grandes em pelota todos lusidios, todos a rir, todos a piscar um ôlho de troça mortos por andar à roda, para cima e para baixo, ao som daquele estafadíssimo realejo automático revestido a espêlhos, que pela milèssima vez esganiça a canção da Mariette, num compasso monótono mas estroina... « - Mariette... ma petite Mariette...» E enquanto o carrossel gira aos solavancos, os pares se abraçam com cio fingindo mêdo ao perigo de se estatelarem, as garotas excitadas, de sentidos e cabeça tonta, dão gritinhos em falsête assustadiço e os machões simulam lubricamente desequilibrarem-se para se lhes agarrarem às nádegas, os cochons de madeira envernisada continuam a rir de focinho erguido catrapiscando a clientela num esgare de manipanço mal cavacado, e a meretriz directora do torneio, repetindo o seu pregão aguardentado, vae apalpando as coxas dos mancebos que lhe passam ao lado na montada suina, e vae fazendo contas pelos dedos aos mariolas que desejou e aos lucros que embolsou nessa tarde, trauteando simultaneamente a catilena do realejo: « - Mariette!... Ma petite Mariette !... » A freguesia esquentada pelo folguêdo é composta de boniches e operarios na sua maioria, uma ou outra costureirita do bairro e algum estudante boémio de passagem, que na democracia do riso trepam aos flancos do animaleco de pau com cauda alçada e torcida, como bigodes de gendarme, tudo à cata da excitacão animal, da sensaçãosinha de estonteamento, coração aos pinotes e brejeirice no instincto, como caloiros temeratos "a ensaiarem o vôo no desenxovalho traficante do femeaço. Agora é o méco proprietário do aparelho rolante, carroça giratória que engoda os papalvos e diverte os foliões, que de còco fóra da moda sôbre o ôlho papudo e cúpido, e de rabêta entre as beiçanas deformadas pelo geito de chupar fumo, bigodinho espontado à Charlot, pupila de rato gatuno, com um tricot cinzento a cobrir-lhe o arcabôiço de carrejão e o cachaço taurino, lencinho encarnado de seda crua no bolsinho da jaqueta mal cerzida, no seu vozeirão sifilitico, igual ao da caixa de música a que acaba de dar corda por meio duma manivela que nos matraqueia os ouvidos num ruido antipático de trique-traque palhaço, grita à multidão pasmadiça batendo as palmas como quem chama creados de café: - «Montez, mesdames!... montez !... Dix sous chaque tour! Allons mes enfants!... E metendo dois dedos imundos às guelas, tal como os cabreiros chamando o gado tresmalhado, atira dois assobios por cima da feira, correndo logo ao balcão a rufar num tamborineco esventrado, em acompanhamento da cantiga que a rapasiada jà trauteia... - «Si tu veux... faire mon bonheur !...» Já as luzes começam de se acender por tôdas as boites da feira. Os reverberos electricos multiplicam-se nos espelhos da barraca do manêjo, fazendo mirabolancias de reflexos enquanto êste rodopia. A alegria redroba e agora, mais claridade dum lado, mais trevas do outro, a intensidade do apertão parece fazer crescer o alarido e água na bôca ao pequename que se derrete de gôso sobre as espaduas roliças dos leitões rosados, que em sarabanda de fecha-a-roda maniaca, continuam de tromba levantada a fazer de ôlho a quem os monta, numa rivalidade sem consequências com a matrona de pêlo doirado, tão bácora como êles, e tão enxundiosa. E o orgão da Barbaria lá recomeça mais um número do seu parco reportorio coxeante, sol-i-dó de circo, cada vez mais rouco, cada vez mais fanhoso : - «Va z’ y. Mariá,... la terreur de Batignolles !... Paris, 1923. DIOGO DE MACEDO.
dc.title“O Carrossel”
dc.typeartigo de imprensa

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