"Impressões de Teatro: Zilda, O Lodo e Á La Fé"

cetaps.publisher.cityLisboa
cetaps.researcherMarques, Gonçalo
cetaps.source.placeJ. 3640//94 B.
cetaps.textJOAQUIM MADUREIRA -BRAZ BURITY- IMPRESSÕES DE TEATRO ZILDA, O LODO e Á LA FÉ CONTINUAÇÃO DO NUMERO ANTERIOR Depois da Zilda, o sr. dr. Alfredo Cortez, que poderia e deveria esperar que todos os teatros lhe abrissem de par em par as suas portas, que empresarios e artistas açodados e á compita lhe rondassem a casa, solicitando-lhe as obras, viu recusada por todas as empresas de Lisboa a sua peça em 3 actos O Lôdo, que posta, testaruda e audaciosamente, em scena pelo autor, foi representada em récita unica, no Teatro Politeama, nos principios de julho de 1923. Embora, já então, estivesse a desafazer-me do mau sestro de ler jornais, tenho idea de haver chegado té mim o eco retumbante das formidaveis tundas que, na imprensa e em nome da Moral ultrajada, não houve escriba aliteratado que não zupasse, fero e rijo, no autor e na obra, reclamando do Estado, os mais fervorosos em suas coleras, se engenhorocassem comités de censura, com olheiros da Pudicicia Nacional, para relegar á policia e meter na cadeia, sem mais forma de processo, os scelerados autores dos crimes nefandos de pôr em scena, com carradas de talento e intuitos alta e pode rosamente moralizadores, os quadros vivos da baixa miseria social - premiando, é claro, com os aplausos e bençãos ferventes das grandes e pequenas tiragens, para maior honra e gloria da Moralidade Lusitana e suas adjacencias, os quadros-sujos, pornograficos e afrodisiacos, dos maillots obscenos e das larachas mal-sonantes de todas as revistécas e magiquêtas que por ahi pululam, fazendo a fortuna de empresarios e revisteiros e a delicia fazendo de pucelas casadoiras, seus papáses, irmãos e noivos que, nos salsifrés do Bairro e forróbódós da Sociedade, maxixam e jazebandam os seus números mais bréjeiros e desavergonhados. O escandalo foi tremendo e o caso não era, em verdade, para menos. Todos os três actos de O Lôdo se passam no mais sordido bordel da Rua-Suja, em plena Mouraria, entre rufias baratos e rameiras de navalha na liga e numero na policia. Mas a-pesar disso, por isso mesmo talvez, O Lôdo, sendo, como peça de teatro, uma obra-prima de teatralidade, de emoção e de sentimento, é como obra de Arte, austera e perfeita, uma das mais belas e moralizadoras peças do teatro contemporâneo. Na scena portuguesa enfileira O Lôdo, tragedia do Fado, hombro a hombro com a Dór Suprema, tragedia burguesa; e, se Marcelino conseguiu dar livores de comoção, arripios de pavor, ás plateas sentimentais de ha trint'anos, graças ao seu talento e á colaboração de scena de João Rosa, que era um mestre, e de Santa Virginia, Nossa Senhora, que então era a Rainha dos Palcos e dos Corações - O Lôdo, posso garantir que, ainda não ha oito dias, mercê tão só do talento literario e da veia tragica do sr. dr. Alfredo Cortez, arrancou, na leitura, de olhos formosissimos de Dona, de olhos castissimos de Donzela, torrentes amarissimas de lagrimas, choros convulsos de aflição e de lastima, de piedade e de comiseração e arrancou-as despido de todo o amargo horror que, no palco, lhe poderia ter dado, e certo deu, o desempenho assombroso da assombrosa Artista Adelina Abranches - temperamento privilegiado de Comediante, sensibilidade estranha de Mulher, carcassa androgina de Actriz, que na Arte Dramatica da sua Terra, que é a nossa, e do seu tempo, que foi ontem, é hoje e será um eterno ámanhã, em vôos de intuição, rajadas de instinto e fogachos de talento, marcou, marca e ficará marcando entre as Raras e as Grandes, que tão poucas e tão pequninas como sempre por cá foram, A MAIOR DE TODAS, que sempre e em toda a parte foi e ainda é. Simplesmente nos três actos estupendos da Dôr Suprema, toda a acção dramatica se resume na má-sorte dum casal de boas pessoas, bem comportadas e bem falantes a quem morre um filho e que, para não morrerem de fome, enchem de brazas um fogareiro e se preparam para morrer pela asfixia. Se ha alguma moralidade a tirar dêste caso simples de noticiario, será talvez que já naquele tempo os senhorios andavam a pedir aos céus pela dureza de seus feitos e ruindade de suas manhas, a expiação crua da moderna lei do inquilinato, e que, sendo agiotas e tendeiros, ainda antes da desvalorização da moeda e da carestia da vida, uma sucia infernal de exploradores que não fiavam pataco a pessoas de bem - o carvão de sôbro ainda então era acessivel a quem não tinha eira nem beira, e, não tendo onde cair morto, queria permitir-se o luxozinho decente dum suicidio pelo oxido de carbone. Do Lôdo, porêm, a lição moral é bem mais clara e bem mais forte e as suas linhas pavidas de tragedia ensombram-se e pungem no que de mais sombrio e pungente pode arrancar-se á degradação da mulher, á miseria humana, no ultimo estalão da Vergonha e do Vicio, contrastando com a pureza imaculada duma rapariga toda candura e amor filial, que procura, em transes de angustia, arrancar a mãe ao tremedal de lôdo que a emporcalha, que a subverte e acaba por as submergir a ambas - matando-as, uma ao lado da outra, a pobre virgem e a velha proxeneta, no mesmo antro ignobil de Devassidão e de Crime. Donde a conclusão moral: nem para salvar a mãe, uma mulher honesta pode descer, na sua abnegação, no seu amor, no seu sacrificio, até roçar a fimbria do vestido por aquelas geenas da Prostituição e da Desgraça, para onde, ás vezes, se resvala de cabeça e sem remedio, por ligeira e alada culpa de amores - uma palavra que se diz, um beijo que se dá, uma carícia a que se não foge… * * * Porque O Lôdo é isto: A acção onde disse e com todos os caracteristicos crus do local e da profissão. As taboinhas cá fóra, e, lá dentro, ao levantar o pano, vultos de homens que saem batendo com a porta, mulheres que pagam a passagem e resguardam o troco e a sua quota, na meia, por baixo da liga. Domingas Capelôa, a patroa, em cuja fisionomia dura as asperezas da vida gravaram traços fundos de mal- dade, veste descuidadamente. Costura e põe certo esforço em enfiar a agulha, tarefa que principia a ser dificil para a sua vista cansada. Resmunga com uma das moças, que lhe ajuda a enfiar a agulha. Entra, com freguês, Julia, a filha mais velha, que, em arremessos e maus modos, se refere à irmá mais nova que dorme numa alcova ao lado: - A janota da minha irmã... Em a gaja cá estando em casa, tudo isto é puxado ao maior respeito. Muito respeito e muito silencio, que a cavalheira ind'é honrada e o barulho pode... fazer-lhe mal. Sós, mãe e filha, discutem questões de interesse, quarenta mil reis que a velha lhe emprestou, e rompe da discussão, o eterno pomo da discordia, o macho, o rufia, que a filha roubou á mãe - a braza do ciume sordido que as queima e as consome em labaredas de furia e de lama. Mas Julia sobe a aviar o freguês e com Marcolina, criada vulgar de alcoice, a Domingas desabafa num rompante: - Nunca mais se abre a porta a esta criatura, mas a criada rezinga, de acostumada a tais ordens que nunca se cumprem, e, em comadres, as duas, abordam o caso estranho, o caso grave que as absorve e as preocupa: A Maria da Luz, a outra filha, a boa, a inda pura, a quem a Julia tem uma osga que a não pode tragar... Parece que lhe arranha o coração o bem dos outros e emquanto a não vir tambem na lama não descansa. Marcolina propõe-se a ir tirar a limpo o misterio com os padrinhos da menina... Uma casa onde ela estava desde pequena, tratada não como afilhada, mas como verdadeira filha, e donde veio embora, de repente, sem se saber porquê!... Num trago de agua-ardente, para apagar paixões, as duas separam-se com a exclamação pungente de Domingas: - Salva-la a ela, ao menos, dêste inferno... que se a vejo bem e a morte me estoira... já não peço mais a Deus!... Mais uma golada e Facão que entra bamboleante, em fadista bem posto, casaco debruado a astrakan, calças justas, chapeu claro, quasi branco, cabelo puxado á testa, aneis e corrente de ouro, brigando logo os dois, a velha que quere chave da porta, Facão que lha nega, com insinuações ameaçantes, já de chantage, á borrega que dorme ali ao lado, e, sem fazer chiada, sem fazer grulha, os dois que desfiam o longo rosario das suas misérias, num tom azedo, de velhos odios e velhos amores. concentrados, represos, e que ameaçam explodir, quando o rufia, propõe reatar, voltar á antiga, mesmo nas barbas da Julia, continuando, é claro, a explorar e a bater as duas para evitar scenas, poupar vergonhas, que sempre é uma mãe e uma filha nas bocas do mundo. E todo o passado da velha vem á baila numa baforada sinistra de drama e de vergonhas; eras filha dum grande janota já s[e]i, casada com outro, mas foram-se ambos p'r'o major e tu ficaste á paisana. Onde te encontrei? Na moina. De chaspelinho, mas a pedir esmola p'ra mosquires, mais as miudas. E desde que eu me alapardei nesta casa nunca mais cá houve traça... Mas Julia, aviado o freguês, volta á scena, e aproveitando o querer a velha, no momento, evitar barulhos a todo o custo, não vá despertar a Maria da Luz, os dois, conchavados, já de acordo no assalto, fazem a proposta de voltar ao ninho, tomarem conta da casa e do negocio, que dá um dinheirão medonho, sem ninguem se ralar, e, como o que é justo é justo, a maior queijada é ali p'r'á patrôa. A velha nega se. Obstina-se. Expulsa-os. Eles recalcitram. Rugem. Vem as ameaças á outra, á Maria da Luz que, pelos modos, suspeitam, já se atravessou no negocio. E no paroxismo da colera e da aflição, Domingas ameaça-os e amaldiçôa-os, rangendo os dentes exaltadissima, - Nem na hora da agonia... nem para o perdão de Deus! - caindo nos braços de Maria da Luz, que aos gritos destemperados da mãe, acudiu, descalça, em camisa e enfardelando um casaco que a cobre até meia perna. Maria da Luz é uma figurinha fragil, graciosa, senhoril. Ampara a mãe. Acarinha-a. Procura calma-la. A velha, num chôro convulso, arfa, arqueja, de desespero e de dor. Com bons modos, meiga para a irma, Maria da Luz, pede-lhe que saia, que se vá, que deixe sossegar a mãe e que volte amanhã... Hão de falar as duas... Tudo se ha de compôr... Mas que se vão... que se vão os dois... Facão intervem, brusco, ameaçador, que a êle ninguem o põe na rua... e á brutalidade directa, sarcastica: Querem ver... qu'inda tenho de apagar a luz?... Domingas, levantando[-]se, como impelida por uma mola, em leôa ferida a defender a cria, ruge apavorante e apavorada, e lança-se cega contra ambos: ao Facão, ameaçando-o, com denuncias á policia, de velhos crimes esquecidos, á Julia, gritando-lhe, revelando-lhe as ultimas propostas sordidas do amante. E emquanto os dois, surpresos, quasi se engalfinham e acabam por sair, gingões, em sarcasmos á velha, esta, estorcegada pelo choro, cai, convulsa, como um trapo, como uma rodilha, como um pobre esfregão humano, junto de Maria da Luz, que, consumidissima, não se atreve a intervir. E o pano lento desce… * * * Shakspeare em calão da Mouraria - mas se[m]pre vale bem mais isso do que todo o Dantas, e os outros todos, em linguagem erotica da Academia e dos salões, ao Ouvido de Madame X., a dizer-lhe Como Elas amam e, no Serão das Larangeiras, entre Crucificados e com a Soror Mariana á cabeceira, como a Severa amou e morreu de Amor... * * * No segundo acto, o mesmo scenario. O mesmo candieiro aceso sobre a mesa. A mesma disposição em todas as coisas. Tudo como ficou ao concluir o primeiro acto. A scena vazia. Pouco depois ouvem-se passos na escada. É Domingas que desce, com um jarro numa das mãos e um castiçal aceso na outra. Atravessa a scena, sai, pousa o jarro, volta com o castical ainda aceso, apaga-o e vai pô-lo debaixo da escada, numa prateleira. Depois enxuga os olhos, onde ha ainda vestigios de lagrimas, enche um calice de agua-ardente, bebe-o e vendo Maria da Luz, que sai nesse momento, já vestida, do quarto, numa voz que é uma caricia, começa o dialogo, longo, longo, emocionante, desgarrador, confrangente, tragico que dura o acto inteiro, num crescendo isocrono, obsessionante de almas que se rasgam, corações que se dilaceram, sentimentos que se esfarrapam, duas vidas que se esfrangalham, miserias negras que se apalpam, desgraças sombrias que se sentem, dores lancinantes que se vêem; um turbilhão de lôdo e um bloco de candura que se entrechocam, entre a mãe, sagrada pela degradação em que caiu, e a filha, que a degradação materna amarfanha, estorcega, esmaga, em ancias de libertação e de revolta, em haustos de sacrificio, fremitos de repulsa - gritos estrangulados de angustia e de abnegação, lagrimas amarissimas do maior e mais santo dos sofrimentos, miserrimas lagrimas do maior e mais puro dos amores. Dolorido, cruciante sofrer de mãe, que se redime pelo amor á filha; imaculado, celeste amor de filha, que se sacrifica á redenção da mãe; - todo o dialogo, todo o acto, entre as duas mulheres, sózinhas em scena, é de tal pureza helenica de córte, de tão austera sobriedade de trucs, que, indo ao auge da emotividade humana, atingindo o paroxismo da tensão galvanica, tetanizante da nervaria flacida das plateas contemporâneas - curtidas em sensações fortes, bem jantadas e nas tintas para as ficções da dramaturgia de faca e alguidar - é, sem contestação, sem exagero, muito pura e simplesmente, como literatura e como Arte, a mais bela, mais perfeita, mais completa e mais arrebatadora página de teatro que em português populaceiro e são, sonoro, redondo e vivo, se tem escrito em boa lingua portuguesa. A mãe escarna, escancara aos olhos puros da filha, gradualmente, pedaço a pedaço, escalão a escalão, torpeza a torpeza, toda a hedionda odissea do seu martirio de abjecções e infamias - a fatalidade demoniaca que a arrasta e a impele e a despenha nos abismos torvos em que se arrasta, em que se contorce, em que se esfacela, em que toda a vida se entorvelinhou, cada vez mais, cada vez pior, cada vez mais baixo, cada dia mais fundo, cada dia mais sem perdão, cada dia mais sem remedio. Dês da iniciação, longinqua, distante, que, como num pesadelo de agoiro, num signo tremendo dos Fados, num presagio lugubre do Destino, a faz recordar da infancia, como dum lindo sonho... - Não nasci neste meio, nem desta gente... A minha infancia recordo-a toda como um lindo sonho... Lindo, sim... até um dia em que eu e outras brincavamos num campo muito grande e muito cheio de sol! O que nós riamos e corriamos, e eu mais que todas, disparatadamente, nuns grandes saltos! O sol picava toda a minha alegria infantil, que era bem a alegria de viver!... Corria... corria á doida, até não poder mais; e fui cair cansada, numas pedras, á beira duma agua muito negra, que me fez logo aflição. Como podia, no meio de tanta luz, ser aquela agua assim tão fria?! E sendo pouca, porque se lhe via o fundo, porque dava a impressão de não ter fundo?!... Debrucei-me... Caí. E logo uma terra mole e vagarosa principiou a abrir-se para me engulir! Gritei, gritaram todas, debatia-me... E o lodo a engulir!... Ninguem que me acudisse... E o lodo a engulir sempre, devagar!... Sentia o como uma lesma a subir pelo meu corpo! Era bem a morte, a morte fria, a morte negra, que se apoderava de mim a pouco e pouco!... Que horror! Que horror! Sentir a propria terra a abrir-me a cova! Ser enterrada viva!... - (Pausa. Noutro tom). Acudiram. Veio gente. E o lôdo até ahi duma moleza desleixada, criou logo forças para lutar. Prendeu-me pesado e forte. Sugava com desespéro. Vi-o espumar de raiva. Tiravam-lhe o que era déle... o que já era déle... - (Transição) - É isto afinal a minha vida e não queiras saber mais… Até a confissão derradeira, o rechinar do pus, na gangrena putrida da sua chaga mais oculta, mais secreta, mais nojenta e ascorosa... o elo de ferro que me chumba a isto para todo o sempre... a prisão de que ninguem me poderia libertar... o ciume da Julia, o amor pelo Facão... ela vai contando tudo, tudo, á filha, que, mais e mais, sempre e sempre, em carinhos doces de ternura, em balsamos suavissimos de perdão, em confôrtos santos de energia, a cada novo pavor retruca com nova esperança, cada nova miseria sagra com novo sonho, procurando liberta-la, redimi-la, leva-la comsigo, para uma vida nova, um meio novo, uma velhice calma, honesta, decente, de trabalho, de sossêgo, de regeneração - as duas lutando as duas sofrendo, as duas chorando, mundo fóra, vida adiante, encarando o futuro sem olhar para trás… O pano vai descendo lentamente e o acto fecha numa inversão angelica de sentimentos, como que diriamos, numa troca sublime de papéis - é filha que maternalmente vai adormecê-la, enxugar-lhe as lagrimas, cobri-la, piedosa, com a aza tepida de todos os perdões, á pobre da mãe, coitadita, que quebrada, vencida, se deixa levar, se deixa adormecer como uma filha docil, toda carinho e toda amor… * * * Na escabrosidade crua do fundo, resplende e estua a castidade forte de tudo o que é grande, de tudo o que é Belo. Acto perfeito. Arte soberba que transmuda as paredes torpes dum prostibulo reles no tabernaculo santo duma abnegação de filha, dum amor de mãe... Se o sr. dr. Alfredo Cortez não é um homem de teatro, o nosso primeiro e talvez unico dramaturgo nós somos duas bestas... Eu que o creio e o afirmo e o leitor que me acredita e concorda. * * * No terceiro acto, a mesma disposição em todas as coisas. Maria da Luz, sentada á mesa, relê as ultimas páginas duma longa carta - a carta á madrinha, contando-lhe os seus novos planos de vida - conclue, subscrita, vai fecha-la, mas suspende ao ouvir rodar uma chave na porta da rua. É a irmã, a Julia, que tendo estado a rondar, á cóca, durante o acto antecedente, vem tirar a limpo o que se passou, o que estiveram congeminando as duas, a mãe e a irmã, emquanto ela lá fóra mailo amante deitaram contas à vida, aos lucros que a casa dá, ao que o negocio pode render e ao perigo da velha abalar com a pequena, fechar a porta, trespassar o estabelecimento e abotoarem-se as duas, sabe Deus onde - com o chorume daquela dinheirama toda. A cupidez do interesse a acicatar a ferocidade do crime. O acto é rapido. As réplicas sêcas. O dialogo sibilante. Num arripio crescente, avassalador, sente-se rodopiar a acção vertiginosa para a fatalidade sangrenta do epilogo. O dialogo entre as irmãs é cortado pela entrada da mãe, que se abre toda, num rompante sêco de desafio. - E dahi?... quero que saibas que vou realmente com a tua irmã, viver com ela, do trabalho dela. Sairemos ainda hoje e o mais depressa possivel. Mas a casa não é para ti. Negoceio-a... Quero lá ter ao canto da gaveta, dinheiro para lhe acudir, se a vir doente, ou sempre que precisar de mim, compreendes? Sim... Agora deves ter compreendido que tens de desistir duma vez para sempre do que é meu. E hirta, desaparece no interior da casa, vai lá dentro, batendo-lhe com a porta na cara. As irmãs ficam frente a frente e Julia investe. Impõe-lhe que deixe o campo livre - Desandas lá p'r'ó padrinho ou madrinha ou p'ra onde te tens gasto, que não te chamaram cá, e como Maria da Luz resista, se negue, e acabe, energica diante de todas as ameaças, por articular um derradeiro «Fico!», Julia passa-lhe um lenço pela bôca, cruzando-lho na nuca. Estrangula-a. Domingas, atraída pelo barulho, surge á porta. Cambaleante, leva a mão ao coração, respira a custo, e impede a saída da filha, que, fleugmaticamente, batendo o chale, se prepara para a fuga - Não sais. Hes de pagá-las todas... Vou entregar te á policia... Assassina!... Assassina!... Não ha meio de profanar, em amanhos de sintese, em esbatidos de raconto, a pungente beleza, crua, rude, brutal, sanguinolenta, mas a profunda, a viva, a radiosa, a absoluta beleza das réplicas e das rubricas do acto, que, em obra prima, se desfecha e termina assim: JULIA Atirando o chale fora, num rompante, caminha sobre a mãe, deita- lhe as mãos e, dobrando-a - 'Ta bem! Sim! Grite! Chame gente, mexa-se como lhe der na tola que p'ra mim é tudo igual. - Dobrando mais e falando lhe cara a cara, de cima para baixo - Mas primeiro ha-de ouvir me... Hei-de cantar-lhas todas... Arregale bem êsses olhos... Arregale-os bem aqui p'r'ós meus. Sou uma galderia, uma ladra e uma assassina!... Sim! Uma assassina!... Sou o que vocemecê fez de mim. Não 'stá contente?!... Não aprendi bem?.. A espreitar pelas portas e a vê-la receber homens... a gostar dos que vocemecê gostava, como vocemecê gostava, pondo toda a canseira do meu corpo em manter um que me goza, que me vende, que me bate, não sou bem a sua filha toda, a que não tem padrinhos, a que se relaxou nestas taboas, coçando a mesma sarna que vocemecê coçava... e que lhe foi pegada por si?!... DOMINGAS Mata-me! Mata-me! JULIA Não! Ha-de viver... Acabar o trabalhinho, pois então?! - Rindo-lhe na cara - Quero ser filada á sua ordem, acusada por si, condenada... e quando lá ficar no chelindró - numa grande gargalhada - ah! ah! ah! ah! quero vê-la voltar contente como um rato!... De grande!... Aquela morreu, acabou... De mim tambem está livre p'ra toda a vida... Fica vocemecê e o Facão, hein ! E ninguem que os empate, hein!... Ri. Depois atirando[-]a para o chão, erguendo-se e noutro tom - Sempre se salvou uma, embora não fosse esta... nem eu.. que tambem cá a mim, louvado Deus, nunca ninguem me quis salvar. - Pega no chale, embrulha-se e senta-se á mesa, de queixo ferrado no punho. DOMINGAS No chão, meio corpo erguido - A ti?!... - Olha em volta, aturdida, com a expressão de pensamentos confusos. Ergue-se, sempre com a mão no coração, vai dentro á E. B., surge depois com uma corda, atira-a a Julia, indicando-lhe em gestos rapidos que dependure a irmã ao fundo, no vão da escada. Julia, cuja atitude d'ora em diante, muda completamente olha a mãe e a corda, sem se resolver. Um tempo. Domingas. imperativa - Depressa. Vamos… - Julia vai maquinalmente a pegar na corda. Batem á porta da rua. Ficam ambas aterradas. Um tempo. Batem segunda vez. Julia diminui a luz do candieiro, ficando a scena numa grande obscuridade. Caminha depois pé ante pé para o fundo. FACÃO Da rua - Julia!... Julia! Abre. JULIA Em voz abafada - E' o Facão. DOMINGAS Mesmo jogo - Sim... Abre... JULIA Executa e, fazendo logo um gesto de silencio a Manuel Facão, que entra - Schiu!... Fecha outra vez a porta cautelosamente. Facão cami- nha até ao corpo de Maria da Luz. Olha depois com grande pasmo para Domingas e para Julia. Torna a olhar a morta. Julia, entretanto, veio à frente, pegou na corda, leva-lha, indica-lhe o que deve fazer e apontando o tecto do vão da escada - Ali. FACÃO A meia voz - Mas que foi? JULIA Impaciente -Ali!.. Depressa!... FACÃO Indicando Domingas - E a velha vai no embrulho ?! - Gesto afirma tiro de Julia, que vem encostar-se á mesa do primeiro plano a observar a atitude de Domingas. Esta caíu numa cadeira e conserva-se imovel, d’ olhos fixos, olhando muito longe de face para a platea. Facão em movimentos rapidos faz um laço com a corda, vai ao vão da escada, sobe a uma mesa, ata a corda no teto e corre rapido a transportar o corpo de Maria da Luz, que pendura ocultamente por trás duma cortina meia corrida, Domingas, ao senti-lo pegar na filha morta, acorda da sua imobilidade, num sobressalto, sem olhar, e cai por fim numa grande crise de choro. Julia, sempre a espreita- la, dá uns passos para ela, e continua a observar-lhe de perto os movimentos. FACÃO Concluiu a tarefa. O corpo ficou encoberto sempre pela cortina. Vem até Julia, toca-lhe com o cotovelo e, m gesto de se safarem - Ala... DOMINGAS Aterrada - Não! Não!... - Suplicante - Não me deixem sózinha!... Agarra-se a Julia. FACÃO Ai! Não!... Vamos ficar talvez aqui a olhar !... DOMINGAS Segurando-a sempre - Não quero.. - Manuel Facão puxa pelo braço de Julia. Domingas num grito aflitivo -Tenho mêdo!... FACÃO Mau... - Senta-se aborrecido na esquina da mesa. DOMINGAS Levantando-se sempre agarrada a Julia - A minha filha!... A minha querida Luz!... FACÃO Mau, mau, mau... DOMINGAS Caminhando de mãos erguidas para o fundo - Morta!... A minha rica filha !... Aproxima-se tumorata do cortinado. Vai levanta-lo. Vacila. Ergue por fim a cortina e recua num grito. Depois caminhando novamente de mãos postas - Perdão !... Perdão!... - Mais alto - Perdão!...- Leva as mãos ao peito, cai de costas, contorce-se uns segundos e queda logo inerte. Julia corre a acudir-lhe. FACÃO Intervindo - Eh!... Não mexas. - Aproxima-se, curva-se a examina-la, põe-lhe o ouvido no peito e com um gesto expressivo.- Estoirou - Julia vai novamente a debruçar-se sóbre a mãe. Facão segurando-a - És bronca. Não lhe mexas. Não vês como está tudo mesmo a correr bem?... Isto foi de manhã. Ela veio... abriu a janela... - Noutro tom - Abre a janela - Julia vai executar - Não, não. Emquanto estiver luz, não. Podem toscar.- Continuando a narrativa - Abriu a janela... deparou com esta desgraça... Coitada.. Arrebentou. - Vem á frente, passa a vista pela scena num exame rapido, vê a carta que Luz tinh[a] escrito, pega-lhe, lê o envelope, mete no bolso, novo exame pela sala e por fim a Julia - Leva a luz.- Julia, numa obediencia passiva, pega no candieiro e desaparece pela E. A., ficando a scena e a sala complètamente ás escuras. Facão abre a janela, acende cautelosamente um fosforo, alumia a Julia, que regressa logo depois, encaminha-a até à porta á da rua, abre e dando-lhe passagem - Põe-te a mexer. - Apaga o fosforo. Ouve se no escuro o bater da porta e só se faz luz na sala depois de descer completamente o Pano. Eu creio firmemente, que dentro de poucos anos, quando o mundo tornar a entrar nos eixos, as coisas retomarem os seus lugares, os homens adquirirem a noção exacta dos seus deveres e direitos e os acontecimentos, na Vida e na Literatura, na Sciencia e na Arte, começarem a concatenar-se, a ordenar-se, a produzir-se com a logica inflexivel e a inteligencia imperativa que, material e moralmente, obstem ao triunfar de todos os absurdos, á vitoria de todos os insignificantes, á engorda de todos os inuteis e á glorificação de todos os pulhas-dentro de poucos anos, quando as coisas forem, não o que sã[o], mas o que devem ser, no reportorio classico do nosso Teatro Normal, tendo arejado, em tradução, pelos melhores teatros do mundo, O Lôdo do Sr. Dr. Alfredo Cortez formará com o Frei Luiz de Souza de Garrett e com a Dôr Suprema de Marcelino de Mesquita, a trilogia apoteosante da arte dramatica portuguesa. A não ser, é claro, que daqui até lá, por ahi nasça, pelos presepes fecundos da jumencia nacional, solipede capaz de aos coices atirar com o Frei Luiz, com a Dôr Suprema e com O Lôdo para o barril do lixo onde já apodrecem as peças consagradas, representaveis, representadas e representativas, moralissimas, moralizantes e moralizadoras da Sociedade dos Autores Dramaticos e congéneres Filarmonicas Lusas do Auto-Reclame de castrados e estuporinhos. … Porque não é demais frisa-lo e repeti-lo: O Lôdo, sendo como literatura e como teatro, pelo estudo detalhado, acuto e cutelante do meio e dos personagens, pela sobriedade modelar dos processos de exteriorização e de efeito, pelo corte natural, vivo, sangrento, do dialogo, pelo desenrolar logico, rapido e seguro da acção, pelo equilibrio inabalavel da estrutura e até pela arriscada e voluntaria escabrosidade de todo o conjunto, uma obra forte, mascula, cheia de violencia e de verdade, exuberante de movimento e de Vida - na simplicidade rara de mover e vivificar todo um acto com duas personagens - O Lôdo é, acima de tudo e antes de tudo, uma peça honesta, uma peça moral, ia a dizer, uma peça educadora, se não fôra o trocadilho facil da tragédia se desenrolar num colegio de meninas e do teatro estar hoje e ter estado sempre, como Arte, muito mais alto e muito acima duma escola laica de boas-maneiras ou duma aula cristã de bons-costumes... Não se compreende a pudenda vestalidade dos empresarios que a recusaram, na tacanha estupidez da sua amoral industria de exploradores de todos os escandalos e de todos os vicios, despilfarrando luxos e deslumbramentos de pecunia e mise-en- -scéne ao cartazear, em cantaridas,todos os desbragamentos das revistas alfacinhas e todas as chifreações do reportorio francês. Não se compreende a repulsa e o protesto dos jornais - com as suas publicidades obscenas de quartos com porta para a escada, damas que se oferecem, machos que procuram, drogas que infecundam e pilulas que rejuvenescem - contando-se, demais ás centenas, por êsse país fora, as representações tronguis d'A Severa e dêsse actozito de O Fado - em -que o talento moço de Bento Mantua bordou apenas as variantes chulas de calão indispensaveis para animar e carregar, em scena, as tintas cruas do quadro celebre do Malhôa - a consagração pitorica do rufia e da rameira, nua e crua, sem uma pontita de sentimento a suavizar o am- biente, sem um rigido caixilho de emoção e de terror a emoldurar a pornografia nauseante das atitudes. E é ainda de ontem, em todos os jornais, êste anuncio SALÃO CENTRAL HOJE - Ás 21 e 22,30 - HOJE O FADO «Film» tipico e genuinamente portuguez, inspirado no celebre quadro de MALHOA Acompanhamento á guitarra por DISTINTOS PROFESSORES Soberbo desempenho dos artistas EDUARDO BRAZÃO, EMA D'OLIVEIRA, RAUL DE CARVALHO, ROLDÃO, etc. reclamando um triunfo cinematografico de estrondo que, na minha ogerisa morbida pela Arte do Silencio, eu não vi, mas mandei indagar do que vinha a ser e que, sabidas as contas, redunda na mesquinha historieta do bom do ferreiro bate-o-malho a abandonar a mulher e os filhos, para nos mesmíssimos scenarios d' O Lôdo, com todos os sordidos detalhes da rua da Amendoeira, se iniciarem as damas, damizelas e donzelinhos, que fazem a grande massa das admirações do écran, nestes pavores romantizados, sentimentais e piegas da baixa prostituição - acompanhando em guitarradas de repenique os esgares histrionicos do Brazão, em pai-nobre de operario transviado, e os ergueres de fralda da comparsaria, que, para dar cor local á fita e tom á fibra dos espectadores, arremeda as filhas di a Desgracia, com perfeições e realismos mais que suspeitos em quem não deu anos ao oficio. … O Lôdo, na interpretação estupenda, arrebatadora de naturalismo, de intuição e de sentimento de Adelina Abranches, que é, na sua admiravel pequenez de miraculosa androgina, a mestra insigne e inegualavel de todas as grandezas artisticas da scena portuguesa, O Lôdo, em representação privada, em récita unica, não sei se por convites, mas para um publico á certa, escolhido e de feição... foi-se pelo chão abaixo, entre clamores dispares da platea, aplausos e uivos, palmas e patadas, num reboliço grosso de escandalo, de que a critica se fez eco e se fez mentora. * * * O sr. dr. Alfredo Cortez, se não se dá por vingado, pago e satisfeito, com a consagração definitiva que a Crítica lhe outorgou, com as ferraduras, enterrando O Lôdo e os Empresarios lhe autenticaram, em asnos, fechando-lhe as portas, é porque, positivamente, tendo muito talento, riscando em genio dramatico de vez em quando - é de si, pessoa de muito mau genio, dificil de contentar e com ruim bôca para estas vinganças, que dês de sempre, dês que o mundo é mundo, em toda a parte foram e no teatro, nas letras, em Arte, como em nenhures, ainda são - o nectar e a ginginha dos deuses caducos e dos homens inteligentes. Mas, pelos modos, o sr. dr. Alfredo Cortez é simplesmente um mestre de teatro, e, inda outro dia, no Politeama, arcando com a canastralidade de todo o teatro historico, atirando-se de cara para as hastes limpas das rimas sonoras e das amplificações poeticas, vencendo no Á la fé, as dificuldades maximas do genero, e vencendo, sobretudo, carnavaladas de guarda-roupa, êrros palmares de marcação e tais desconchavos, despropositos, inepcias e miserias na colaboração de scena por banda dos comicos e comicas que lhe engrolaram os versos - que pareciam, os êles e as elas, apostados todos em espatifar a peça e a pôr em relevo o terno fiozito de intuição artistica e de mocidade gracil da sr.a Constança Navarro, que eu nunca vira e fico supondo a unica artista do cartaz - inda outro dia, no Politeama, o sr. dr. Alfredo Cortez demonstrou a flexibilidade do seu talento, a mestria da sua Arte, a possança das suas faculdades, abrindo[-]me, como de principio disse, o apetite para travar conhecimento com a sua obra anterior e não desmerecendo, em muitas das scenas e em quasi todos os versos do Á la fé, do altissimo, privilegiado e entusiastico conceito em que o fiquei tendo depois da leitura da Zilda e do estranho, rijo, capitoso e consolador prazer espiritual de topar n'O Lôdo com uma obra prima, que, sem restrições e sem adversativas, me encheu as medidas da admiração, do entusiasmo e da fé esperançada e ardente, inabalavel e confiante no largo e amplo futuro do sr. dr. Alfredo Cortez, como dramaturgo e como escritor. * * * Divide-se em quatro cantos o poema dramatico da Lenda da lealdade, que tantos são, no cartaz, os actos da peça historica Á la fé. Sou mau julgador de versos, pouco atreito a espiritualidades de poesia, chegando mesmo, na minha ignorancia omnimo da de bacharel formado e na minha proverbial memoria de galo que perdeu a crista, a ter esquecido já as comezinhas regras a que obedecem e com que se constatam, na estilistica, os misterios charadisticos da cesura e da metrificação. Outros dirão, pois, das belezas poéticas que, por acaso, me hajam escapado e de que, em boa verdade, quisera autoridade e competencia para lhes dar conta, e, para não arrotar herculanismos fáceis de quem traz o Portugal medievo na ponta da língua e faz das reconstituições históricas prenda de sociedade ou modo de vida, confessando de boa-mente, não ter andado em Campolide, com o Martim de Freitas, no Colégio dos Padres, onde apenas o conheci nos ditados e analises dos Logares-Selectos - juro, a la fé de quem sou, não ter cohabitado, que me lembre - em casa da Antónia, onde em rapaz topei, entre Lolas e Mecias, com muitas cabeças bravas e outras mansas - com a Senhora Dona Mecia Lopes de Haro, que foi rainha de Portugal e senhora mulher do senhor rei Dom Sancho o Capêlo. Restrinjo-me, pois, á falta de sabença académica e de relações nas rodas finas da História, a encarar meramente o Á la fé sob o seu aspecto teatral, em que se me afigura reluzirem scintilações bastantes para fazer brilhar o sr. dr. Alfredo Cortez no mesmo alto nivel donde ainda despedem seus raios os astros que a Morte não apagou, cobrindo com o seu manto o bravo Marcelino Mesquita da Leonor Telles e do Regente e o bom do D. João da Câmara do Afonso VI e do Alcacer-Kibir. * * * Na quadra do Alcaçar de Coimbra, o bôbo d'el-rei e as donzelas da rainha, mexeriqueiam a vida da côrte: o rei baboso p[e]la rainha, deixando o reino sem rei nem roque; a rainha, enfastiada com as melurías do rei, toda ancha de haver subido de concubina-adúltera ao tálamo e ao mando das verdadeiras princezas. E ei-lo, ao régio casal, que entra, despede o bando e arrola e biqueijanas, proximidades do ninho: êle, rendido e lamecha, ela,' arisca e altaneira. Interrompe o idílio, sem pedir vénia, sem cerimónias, nem cortezias, Martim de Freitas, santo carrancudo, falas grossas de poucos amigos, porque o caso é sério e não admite delongas: a Cúria Romana mexe-se, o clero intriga, a nobreza levanta-se. O reino arde em rebelião latente, emquanto o rei, cativo de seus amores, arde apenas em cio. Não pode ser. A rainha sai, para que el-rei castigue o vilão que assim se atreve, e, tendo-se reunido a Martim de Freitas outros senhores repontões, o rei que volta de acompanhar a sua dama e se prepara para cortar cerce a língua solta dos que o censuram. Mas Martim de Freitas refila, reincide nos brados e nas acusações, e, eis senão quando, esbaforido, um mensageiro chega com a má nova: o Papa interditou o reino, interditou o rei e entregou ao infante as redeas da governança. Pasmo indignado de todos, redobrado, quando Gil de Valadares - o São Frei Gil de Santarem - em penitencia de seus pecados, vem desafiar a cólera realenga, lendo-lhe a bula que o destrona. Salva a pele a custo o bom do santo, que é levado aos empurrões porta fora, e o pano desce, ao gesto largo de Martim de Freitas, mudo e quêdo ao vozear dos que o rodeiam, - o último a desembainhar o espadagão na jura solene de defender e acompanhar D. Sancho. * * * Acto mexido, colorido, bem desenhado e firme nos caracteres que se esboçam em traços fundos; bem urdido, na trama, que não espezinhando a tradição e a Historia, põe em marcha a acção, despertando, vivo, palpitante, o interesse da platea. Tem sonoridade as réplicas, cunho medieval o ambiente, e o prologo do [t]ruão, o seu rimance dos Santos Martires, só lhes faltou, como ás tiradas violentas de Martim de Freitas, a colaboração de scena, para resultarem no palco, como na leitura resultam, das coisas lindas que lindamente contar ainda hoje se podem entre as lindezas do teatro em verso, sempre lindo, num salão lindo, com lindas mulheres, lindas flores, lindas luzes - numa festa linda, de lindos poetas e actrizes lindas. * * * Na antecamara conjugal dos reis, ainda, na Alcaçova de Coimbra, a rainha, andando o rei em guerras, longe, por esses matagais do reino, recebe ás ocultas um pagem que foi por novas e lhe traz mensagem das bandas do inimigo - alguem que do mando do Infante, procura penetrar na alcaçova e falar-lhe a sós. O mensageiro parte em novas inculcas e risonho, guizalhante, o bôbo surde do esconderijo onde cocou. Estranho, bizarro, duma beleza plastica estranha na bizarria do corte e das linhas, todo o dialogo entre os dois, no contraste negro-claro, das almas e dos corpos - ela, radiante, tôrva de maldades, ele, disforme, hilare de malicia Vá de pedir detalhes do Infante-inimigo, de o confrontar com o Rei-marido — uma pontita da perversidade feminina que irrompe, em crisalida alada de feias acções e vis torpezas. Mas a noite vai alta, as donzelas acodem ao chamadoiro do truão, para a recolha da rainha, quando, pancadas á porta, de mansinho, anunciam o pagem de ha pouco, e, trás dele, Raimundo Viegas, o emissario do Infante, que vem, embuçado, a propor a traição. Que deixe o Alcaçar, que deixe o rei, ao abandono da sua sorte mofina. O Infante, senhor do reino todo, entrega-lhe Ourem com o seu castelo e senhorio... Que se salve... Que fuja... Que lhe deixe simular um rapto. Senão quando, no melhor da festa, ouve-se no terreiro da Alcaçova um tropel de cavalos, logo seguido do toque de trombetas. El-rei que chega. Realissima atrapalhação. Raimundo Viegas pisga-se pela janela e o rei D. Sancho entra pela porta. Vem descorçoado com o reino, e ceguinho de todo pelas graças da rainha. Mas a rainha não é para graças, nem está de graças e exige que ele lhe conte as suas desgraças de rei e de cavaleiro. Uma desgraça. Traição geral e em dois tempos. Todos lhe fogem e todos o atraiçoam. E emquanto êle vai a fechar as portas, emquanto o demo esfrega um ôlho, ela que o atraiçoa e lhe foge - deixando-se amordaçar pelo Raimundo, que da janela espreita, a incita e a leva nos braços... como real prenda. El-rei que volta, que dá pela fuga, pelo estropicio da cavalgada portas fóra da Alcaçova, e berra, e brama, e uiva emquanto o truão, truanescamente, salta da janela abaixo donde esteve a mirar a fuga. Ri. Ri muito. E depois, com as mãos enclavinhadas no peito: Peito tôrto de bôbo! Folego e ar! Atoma bem, que ora quero soltar A minha mais profunda gargalhada. E, gargalhando o bôbo, detalhando bem a gargalhada pelo tamanho dum verso de dez silabas, remata : Um rei sem trono! Sem mulher! Sem nada!!! O pano desce e o acto acaba. * * * Romanesco, agitado, bem vazado nos moldes classicos do genero, com pagens que alcovitam, embuçados que raptam, maridos que tugem e mugem, bôbos que cocam e riem - o acto cheio, sem divagações, sem palpaveis anacronismos, marcha direito ao fim e bate, certeiro, o alvo de suspender a anciedade do espectador, no ponto culminante em que ela poderia decair. É ainda e sempre teatro e o sr. dr. Alfredo Cortez não aumenta os direitos de autor, ninguem na bilheteira exige suplementos de taxa e adicionais extras de preço, a quem se compraza com a idea de que, sendo teatro - tambem é Historia. A Historia sempre foi a grande mestra das pouca-vergonhas da Vida - e com mais Sancho, menos Sancho, mais Mecia, menos Mecia, a Vida sempre assim foi em prosa - e pode muito bem ser que assim tenha sido em verso. Mas continuo na minha: em verso e em prosa, o sr. dr. Alfredo Cortez é um homem de letras e um grande homem de teatro. * * * No eirado junto á «Torre de Hercules» no Castelo de Coimbra, de que alcaide é Martim de Freitas, correm, duros e asperos, os dias calamitosos do cêrco. Do reino, todo entregue, por peitas e armas, ao Intante, resta, apenas, fiel a D. Sancho, aquele renque inexpugnavel das muralhas coimbrans. A fome e o desanimo assolam os sitiados. O rei, desbaratado, refugiou-se em Tolêdo. De tantos senhores que lhe juraram fé, só a lealdade de Martim de Freitas se mantem firme, inabalada. Mas a revolta já mina, a dentro da cidade, peões e cavaleiros. Em sonhos presagos de donzela, adivinhou-a Beatriz, a filha do alcaide. Em ronda vigilante pelas barbacans, constatou-o Diogo Lopes de Haro, cunhado de el-rei, irmão da rainha, que ás hostes de Martim de Freitas se acolheu como protesto á feia acção da irmã. Martim de Freitas duvida. Espelho de leais, varão forte, não crê em fraquezas, em deslealdades das suas gentes, que já em grita, com o vilico em porta-voz, num fragor de maldições e de improperios - que deveria dar, com uma rasoavel marcação de scena, e não deu no Politeama, com uma reles figuração de farça, o que na leitura dá como côro das tragedias gregas - reclamam que se entregue o castelo a quem já possui o reino, que se acabem sacrificios por quem fugiu para Tolêdo e não se sacrificou. Tem fome e a fome é lei. Nem pão, nem agua. E nem sequer, para iludir a fome e a sêde, um bom combate que os mate, ou um beijo de mulher que os faça viver. Martim de Freitas increpa-os, procura reanima-los e contê-los. Tenta insuflar-lhes, nos peitos broncos, um pouco do que na lealdade do seu coração, estua e explude... Reagem. Martim de Freitas, violento, indomito, na sua colera, no seu desprezo, não tendo mais que dar-lhes, num rasgo brutal e medievo, atira-lhes, num repelão, com as carnes virgens da filha, da sua Beatriz - a carne da sua carne, o sangue do seu sangue, a honra da sua honra. E diante da enormidade do sacrifício - diante daquele pai austero, que pela sua lealdade, pela fé da sua palavra, pela fidelidade do seu juramento, salvando a sua honra, dando mais que a própria vida, dá a honra da sua filha, a honra da sua Beatriz; diante dêle, sôbre quem pesa um labéu atávico de deslealdade e de traição e que assim o lava e assim o redime; diante dêle, que sacrificando tudo, até a própria filha sacrifica; - diante do pai, que não diante do senhor - toda aquela multidão de esfomeados, brutescos, asselvejados, rudes, todos se curvam, e se submetem, «Á la fé... Á la fé... A la fé...» e todos ali juraram manter-se firmes, manter-se-lhe leais por todo o sempre, para a vida e para a morte... E saem de roldão, caminho das barbacans, emquanto Martim de Freitas, a sós com a filha, lhe cai nos braços: - Filha, perdão! E pano abaixo. * * * A sobriedade heraldica dos moldes clássicos, helénicos, da Tragédia antiga. Nem uma palavra a mais, nem uma palavra a menos; o cunho austero, rigido, dum baixo relevo em bronze. Herois duma só peça, inteiriços, hirtos, agindo, aquecendo, vibrando, na emotividade passional dos conflitos nobres. generosos, da vida heroica. Ponham grandes actores a dizer aqueles versos, marque o movimento daquelas massas de homens um homem que saiba do seu ofício e dir-me heis, depois, se lá fóra, ou cá dentro, ha por ahi, cebo, trapo ou osso de dramaturgo que maneje a sua Arte, lhe arque com as dificuldades, lhe conheça os recursos e lhe fastigie as belezas, como o sr. dr. Alfredo Cortez, que, no meu entender e quanto a mim, só podia ter feito obra mais perfeita, mais homogénea e completa, se.. Mas esperem um bocadinho, que eu logo digo o resto… * * * Na «Sala nobre do Castelo de Coimbra», andando por Toledo Martim de Freitas a certificar-se, se de feito, D. Sancho morreu, e se, por herdação natural, é senhor do castelo e do reino o irmão, o Infante bolonhês, Beatriz e Diogo, idílicos, contam-se ternezas de amor e lances de cavalaria, á espera ambos do alcaide, que presto chega e recontando os últimos dias do desterrado, manda ao novo soberano mensagem para que lhe venha receber o castelo. Mas antes do rei novo, a rainha velha que chega, e, em cabeça brava, se abespinha contra os dizeres ríspidos e bravos de Martim, que, escravo da lealdade, deslealdades não perdoa, e lhas diz tesas, de cabeça alta, cheio de razão e de justiça. E di-las logo a seguir ao rei novo, contando-lhe tambem como a Toledo fôra, a prestar preito e homenagem ao rei morto, levantando-lhe a pedra da sepultura para a entrega lhe fazer das chaves do Castelo... E não as tendo tomado para si D. Sancho nas suas mãos mortas e frias, ali lhas entrega, por herdança natural, pedindo-lhe escusa escusa e perdões pela soltura da linguagem, que outra não tem, e de outrem não sabe perdões e escusas pedir. D. Afonso, o Infante-rei, que nem pela cunhada deu, num ar soberano de desprezo e desdem, todo pundonor e cavalaria, manda que as chaves fiquem nas honradas mãos que as tem guardado. Martim recusa, e a peça fecha em soneto: Mercês, Mercès, senhor. Mercês, mas não, Houve meu pai um castro. Honra tamanha Me veio a mim tambem, mas que não venha Jamais aos meus tão alto galardão. Pois sobre aquele, da minha geração, Que usar meu nome, que de mim provenha E o aceitar, com implacavel sanha Daqui lhe lanço a minha maldição… Mercês, Mercês, senhor. Cuido que em tal, Carrego que tomei em ruim maré, Cumpri o meu dever até final. Nada mais devo pois a minha fé Deus vos seja propicio e a Portugal! (Depois, á filha) «Deixemos o Castelo a cujo é..» Abalando Martim de Freitas amparado a Beatriz de Freitas, sua filha, que não diz a Historia e a peça não diz se veio a maridar-se com D. Diogo Lopes de Haro e se, da maridança, houve muita e nobre prole, fecunda e luzida geração, como é de supor e não se leva nada ás espectadoras enamoradas que o fiquem supondo e imaginando em seus sonhos e imaginações. * * * Acto de remate e de epilogo, bem arquitectado, bem cerzido, em que se fala á fibra patriotica como é mister em peças historicas e que, deixando no espirito do público e do leitor uma impressão viva e funda de beleza e probidade literaría, não aquenta nem arrefenta, de per si só, o efeito global do Á la fé, o seu equilibrio, a sua solidez e a sua consistencia como obra de teatro e obra poetica, como obra de Arte, emfim, que, no meu entender e no meu conceito, só poderia ser obra mais perfeita e completa, se, com um pouco mais de trabalho e de esfôrço, sem tocar no que estava feito, o sr. dr. Alfredo Cortez, talhasse a sua peça em quatro actos - em duas peças de três actos cada uma. E eu que já lhe cortei um acto na Zilda - o terceiro - dar-lhe-ia no Á la fé um novo terceiro acto, a substituir o actual, para epilogar a belissima e impecadilhavel monografia scenica do primeiro rei amorudo e damoroso desta amoravel terra portuguesa, que, dês dos primeiros tempos afonsinos, sempre foi terra de amadores e de amantes - reis, poetas e cavaleiros do Amor, que viveram amando, e, por amores matando ás vezes, por amores e de amores se deixavam matar e morrer. Era transportar a scena a terras de Toledo, aos ultimos dias de exilio e de agonia de D. Sancho, focar dois ou três episodios da sua cronica de desventurado, curtindo maguas de amor e saudades do reino, abandonado por todos, vencido por alguns, atraiçoado pela mulher - a gargalhada do bôbo, detalhada num acto inteiro, rematada pela scena da morte e, quiça, num quadro final, de scenografia e figuração, em plena catedral, com o Martim de Freitas - em precursor do Teofilo Duarte nos Jeronimos - a destapar-lhe o tumulo e a depor-lhe nas mãos geladas as chaves do Castelo, de que em vida lhe prestára preito e vassalagem. E assim acabaria a peça em 3 actos Á la fé, com El-rei D. Sancho em protogni[s]ta e Martim de Freitas em comparça. E para completar a Lenda da lealdade - peça em 3 actos protognistada por Martim de Freitas e sem El-rei D. Sancho na figuração - era iniciar-lhe o entrecho e a acção com um primeiro acto rapido para apresentar e plantar em scena o debuxo dos personagens, qualquer coisa como os temores supersticiosos de Martim de Freitas, ante a fatalidade atavica de vir a ser traidor, o seu amor pela filha, que mais faria ressaltar o rasgo culminante do acto seguinte, e, os primeiros arrulhos do amor idilico de D. Diogo e Beatriz a preparar, sem surpresas a entrada luminosa do terceiro acto - o quarto de agora - que tem em leveza e sentimento, gracilidade e encanto dos mais bonitos versos do bonito rosario de bonitezas poeticas que é a Lenda da Lealdade, na sua bonita profusão de versos bonitos... Que nisto de versos, na minha prosa chan - eu chamo bonitos aos versos que me agradam, me cativam e me encantam e a que, por muito menos, outros chamariam, de bons para cima e de belos para baixo, o que eu, em rapaz, chamava ás mulheres bonitas ou que não me pareciam feias… * * * Mas como isto de talhar ou encolher actos nas obras dos outros é, mal comparado, como fazer filhos em mulher alheia, vá de deixar a obra do sr. dr. Alfredo Cortez tal como está - e está muito bem. Melhor não a conheço entre novos e velhos, nacionais e estrangeiros, dos meus tempos de gandaiagem pelas literaturas dramaticas cá de dentro e lá de fora. Nem melhor, nem mais forte, nem mais honesta, nem mais original — iniciando-se com uma obra moderna, ligeira e nervosada, a Zilda; culminando-se em obra-prima, em O Lôdo, tragedia pavida, arrepiante e moralizadora, com um acto, em dueto, sophoclico, dum helenismo cru e um fecho shakspeareano, de sangue e horrores, a pedir o bronze e o cinzel para se universalizar; e com o poema dramatico Á la fé, a aguentar-se no balanço, a sustentar-lhe o renome e a fama como homem de letras de envergadura e mestre de teatro em terra onde não tópo, pelos tempos que vão correndo, com quem tenha alma e arcaboiço para lhe aproveitar as lições. E precisamente por o não ver trombetear nas gazetas, zabumbar nas grandes circulações, turiferar em lausperenes da Academia e pôr nos cornos da lua pelo côro roufenho dos dadores, a prazo, das imortalidades caseiras - eu acabo, como comecei, por declarar, em público e raso, e para que o saibam quantos estas laudas tiverem lido, que, nem de vista conhecendo o sr. dr. Alfredo Cortez, em terra soalheira em que todos nos conhecemos e somos todos compadres, não havendo amplexo de fraternidade ou patada de repulsa que embicar se não possa ou filhar se não deva em arrangismos de seita ou antagonismos de mangedoira, nem de vista o conhecendo, considero, préso e respeito o sr. dr. Alfredo Cortez como um dos mais fortes temperamentos artisticos da nossa terra e do nosso tempo, prosista feito, estilista perfeito e dramaturgo feito e perfeito com cuja obra teatral acabo de me relacionar, estudando-a o melhor que pude e soube, e sempre, de peça a peça, de scena a scena, com o indizivel prazer e a crescente admiração de quem, descorçoado e sceptico - andando arredio e alheio a todo o movimento literario e a todas as correntes dramaticas de ha dez anos a esta parte - tópa, emfim, de supetão e quando menos se precata com um vero e autêntico temperamento de dramaturgo, cheio de talento criador, cheio de impetuosidade mental e de honradez literaria, possuindo todas as [a]udaciosas qualidades dum domador de plateas, acolchoadas no resistente fôrro duma soberba organização de Artista, a manejar a sua lingua, a modelar os seus personagens, a movimentar as suas scenas e a criar as suas almas, com a pericia forte e a tecnica viril de quem entra na Vida e tateia a profissão, com quarenta anos de oficio e dragonas de general. O que por ser verdade e ninguem mo pedir, afirmo sob minha honra e juro, á moda antiga, pela fé que professo e pelos meus graus de bacharel - o que, tudo somado e tirante a honrazinha que se não taxa e se não aluga não vale, em moeda corrente, com que mandar cantar um cego... Leça. Na Pascoa de 1924. Braz Burity. Post-Scriptum - Ao rever estas provas, sem as alterar, vi e conheci o sr. dr. Alfredo Cortez, a quem apertei, com efusão, carinho e entusiasmo, as mãos escrupulosamente limpas, estremando-o já hoje como meu camarada e meu amigo. Sahio-me melhor que as peças. B. B.
dc.contributor.authorCarvalho, Joaquim Madureira Nunes Borges de
dc.date.accessioned2025-04-17T15:30:01Z
dc.date.available2025-04-17T15:30:01Z
dc.date.issued1924-06
dc.description.abstractApreciação crítica que combina as obras naturalistas Zilda (1921) e O Lodo (1923), bem como o drama histórico Á la Fé (1924), todas da autoria do dramaturgo português Alfredo Ferreira Cortez (1880-1946). Criticando, interventivamente, a vida social portuguesa, O Lodo, apresentado no Teatro Politeama, em 1923, e no Teatro D. Maria II, em 1929, expõe um conflito familiar, num contexto de prostituição e crime, que, segundo o autor, assume traços semelhantes à técnica do dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616). Faz-se, igualmente, uso do anglicismo “Film”.
dc.format.extent[s.p.]
dc.identifier.urihttps://cetapsrepository.letras.up.pt/id/cetaps/131978
dc.language.isopt
dc.publisherAntónio Filipe de Gouvêa
dc.relation.ispartofA Revista: Ilustração Mensal
dc.relation.ispartofvolume1
dc.rightshttp://purl.org/coar/access_right/c_14cb
dc.subjectTeatro
dc.subjectLíngua Inglesa e Anglicismos
dc.title"Impressões de Teatro: Zilda, O Lodo e Á La Fé"
dc.typeArticle
person.birthDate1874
person.deathDate1954

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