“O Romance de Amadis: Capítulo XVI – A Espada e a Guirlanda”
| cetaps.description.printingName | Imprensa Libânio da Silva | |
| cetaps.publisher.city | Lisboa | |
| cetaps.researcher | Alice Laurentino | |
| cetaps.source.place | https://pt.revistasdeideias.net/pt-pt/contemporanea | |
| cetaps.text | O ROMANCE DE AMADIS (CAPITULO XVI-A ESPADA E A GUIRLANDA) POR AFFONSO LOPES VIEIRA AMADIS, que todos julgavam perdido ou tinham por morto, fizera a el-rei Lisuarte serviços assinalados, combatendo por sua glória,- do que já diziam alguns que a fama de Amadis Beltenebros a ofuscava; mas como não tirara o elmo e ninguém the pudera ver o rosto, guardara o nome de Beltenebros. Entretanto, quando a noite descia, entrava em Miraflores- Ora, estando ele ai uma vez com sua amiga, veio Gandalin da corte com grandes novas. Um velho escudeiro grego, por nome Macandon, mostrara a el-rei Lisuarte maravilhosas coisas, as quais trouxera à corte da Grã-Bretanha por ser ela afamada em gentileza. E depois que el-rei disse-lhe aprazia que à sua corte a buscassem por gentil, mostrara-lhe o escudeiro uma espada como outra jamais se vira. Encerrava-a uma bainha transparente, cor de esmeralda, e a folha de aço era, ate metade, tão limpa como água cristalina, e na outra metade tão ardente e vermelha como de fogo. Depois que esta espada mostrara, mostrara o escudeiro uma guirlanda tão maravilhosa como aquela: metade das flores que a entreteciam estavam frescas como se acabassem de abrir, e na outra metade tão murchas que parecia que se iam desfolhar. – Senhor, – dissera Macandon-hà sessenta anos ando eu vagamundo, em cata daquèles cujo amor logrará vencer o poder do que vos mostro. Dèsses só, de mais ninguém, por mando de altos designios, poderá receber as armas e, emfim armado cavaleiro, neste cabo da vida subir ao trono que há tanto me espera, Mas como a esses não achei, nem nos reinos distantes nem nas ilhas do mar, à vossa corte vim para que nela ordencis uma prova e, se me prometeis que a ordenais, direi o mais que não disse. Ouvindo tais maravilhosas palavras, arderam todos por saber o mais que Macandon calara. – Senhor, disseram a el-rei os cavaleiros, que olhavam a espada encantada ordenai pois essa prova e tentemo-la todos, não sendo contra a lei de Cristo. E as damas, que remiravam curiosas a encantada guirlanda, disseram à rainha: – Senhora, pois que esta guirlanda nos respeita como, toucado de flores, ordene el-rei essa prova para que a tentemos também. De boa-mente o prometera el-rei Lisuarte; e dissera então Macandon: – Senhor, esta espada que vêdes ninguém nunca a tirou da bainha, donde só poderá arrancá-la aquele que à sua bem-amada quiser com perfeito amor. E esta guirlanda, quando posta na cabeça daquela que a seu amado quiser com amor igual, então se verá que reverdece e ficará toda em flor. Ouvira Amadis estas novas, e quedara-se a pensar nelas. Contara depois Gandalin que tendo el-rei já marcado o dia da prova, todos os cavaleiros fariam por desembaînhar a espada, do mesmo modo que a guirlanda seria posta em cabeças de donas e donzelas. E como então estivessem na corte os melhores cavaleiros da piquena e Grã Bretanha, e a rainha Briolanja – que Oriana queria ver, mais que a ninguém do mundo! – ali chegara, coberta de luto por Amadis, a grande prova respeitava a todos e todos queriam tentá-la. Disse então Amadis à sua amiga: -A prova iremos também! Pasmou Oriana do que ouviu, tão impossivel the pareceu por perigoso e louco. Respondendo ao espanto que lia nos formosos olhos da sua amiga, beijou-lhe Amadis as mãos e explicou seu pensamento: -Mas ireis rebuçada de guisa que ninguém saiba quem sois; e comigo sereis diante de vosso pai-e faremos a prova da Espada e da Guirlanda! Na véspera da prova na corte enviou Oriana recado a el-rei, dizendo que, por estar doente, naquele dia ficava deitada. E depois Mabilia e a donzela da Dinamarca disfarçaram a infanta à maravilha. Tão bem disfarçada ficou, vestida em uma capa muirica mas desusada no reino e com a cara encoberta com um rebuço, que Amadis, sorrindo, disse quando a viu: – Nunca eu cuidei que tanto folgaria de vos não conhecer! E antes da alva do dia sairam de Miraflores e cavalgaram para a corte em festa. Levava Amadis as mais formosas armas, pusera Oriana as mais formosas joias, e eram ambos o Perfeito Par. Na sala grande dos paços, e depois de ouvida missa, el-rei Lisuarte e a rainha Brisena vão presidir à prova. Todos os cavaleiros cercam o trono e, sorrindo para eles, estão presentes todas as donas e donzelas. Guardadas numa arqueta de jaspe chapeada de ouro, vêem-se a meio da sala a Espada e a Guirlanda. Quando el-rei Lisuarte soube que Beltenebros chegava e concorria à prova, alegrou-se e recebeu-o com honra. E Beltenebros, que não tirara o elmo, adiantou-se para el-rei, levando pela mão a dama rebuçada... (– Ah! senhores, como Oriana tremia!). Dado sinal, a prova começou. Primeiro adiantou-se el-rei e, pegando na espada, não a pôde tirar da bainha. Seguiram-se Dom Galaor, que amava Briolanja, e Bruneu de Bonamar, que amava Melicia, e Arban de Norgales, que amava Grindalaia: e não desembainhou a espada. Depois foi Florestan, o outro irmão de Amadis, tão lial e gentil, que amava Corisanda: e a espada não saiu da bainha de esmeralda. Seguiram-se Galvanes Sem-Terra, e Brandoivas, e Grumedan, e Ladasin, que todos tinham amores: e a espada ficou-se na bainha. Logo a provou Guilan o Cuidador, que amava Brandahia, depois de a haver provado Agrajes, que amava Olinda: e não saiu da bainha aquela espada. E assim foi com Polomir, com Dragonis, com todos que a provaram; pois se todos, uns mais, outros menos, arrancaram da espada algum tanto, nenhum pôde arrancar a espada toda. Então adiantou-se Beltenebros, levando pela mão a bem-amada: e, pegando na espada, – arrancou-a da bainha! Fez-se depois a prova da guirlanda. A rainha, primeiro, pos na cabeça as flores; e as flores não refloriram. Seguiu-se-lhe Briolanja, – formosa no seu luto, e para quem Oriana olhava muito, e não florin a guirlanda. Depois foram Estreleta e Brandahia, e foi Aldeva e foi Olinda e Grindalaia, e foram todas: e as flores não refloriram. Quando postas naquelas cabeças, mais em umas, noutras menos, refloriam algumas flores; mas nunca toda a guirlanda. Então adiantou-se a dama de Beltenebros, levada pela mão do seu amado: e quando a pôs na cabeça – toda a guirlanda floriu! Do livro no prelo O ROMANCE DE AMADIS | |
| dc.contributor.author | Vieira, Afonso Lopes | |
| dc.date.accessioned | 2025-04-17T14:17:00Z | |
| dc.date.available | 2025-04-17T14:17:00Z | |
| dc.date.issued | 1922-12 | |
| dc.description.abstract | Capítulo de O Romance de Amadis, um romance de cavalaria. Neste capítulo, é contado a Amadis que um escudeiro grego mostrara ao rei Lisuarte, o qual Amadis havia servido, “maravilhosas coisas” vindas da corte da Grã-Bretanha, “por ser ela afamada em gentileza”. A Grã-Bretanha também é indirectamente elogiada quando o narrador estabelece que é de lá que vêm os melhores cavaleiros. | |
| dc.format.extent | 101-103 | |
| dc.identifier.uri | https://cetapsrepository.letras.up.pt/id/cetaps/131949 | |
| dc.language.iso | pt | |
| dc.publisher | Sociedade “Edições Contemporânea” | |
| dc.relation.ispartof | Contemporâena | |
| dc.relation.ispartofvolume | 6 | |
| dc.rights | http://purl.org/coar/access_right/c_abf2 | |
| dc.subject | Literatura | |
| dc.title | “O Romance de Amadis: Capítulo XVI – A Espada e a Guirlanda” | |
| dc.type | Article | |
| person.birthDate | 1878 | |
| person.deathDate | 1946 |
Files
Original bundle
1 - 1 of 1