“Literatura de Sadoma”

cetaps.description.printingNameImprensa Libânio da Silva
cetaps.publisher.cityLisboa
cetaps.researcherAlice Laurentino
cetaps.source.placehttps://pt.revistasdeideias.net/pt-pt/contemporanea
cetaps.textLITERATURA DE SODOMA O sr. Fernando Pessoa e o ideal estetico em Portugal SENHORES meus, nunca eu me vi em tamanha atarantação!... Aqui muito á puridade lhes confesso, coração nas mãos, penna emperrada e hesitante, que não sei como demonio heide começar este artigo e,- o que é muito peor!-nem mesmo chego a decidir comigo se o devo ou não lançar á publicidade... Aqui teem os leitores da Contemporanea um assumpto de que é urgente falar, mas que requeria um canto absolutamente isolado, como as salas escondidas de certos museus por esse mundo de Christo... O que lhes tenho a dizer abonam-no a voz de Deus, a prosa candente e viril do Apostolo das Gentes, a saude do corpo e do Espirito; estão comigo as regras inviolaveis da natureza e os ensinamentos inflexiveis da razão humana quando despida de romántismos de qualquer especie, a Razão que actua sobre a sensibilidade e d'ella é capaz de se tornar absoluta dominadora... Mas, Deus do ceu! não é comtudo verdade tambem, haver assumptos repugnan- tes que se podem facilmnete tornar pedra d'escandalo-e ai de quem dér escandalo! ameaça a voz divinamente candida de Nosso Senhor pela bocca dos seus evangelistas!-assumptos que, tratados com a largueza necessaria, podem redundar em reclame a obras de maldição, attenta a morbidez da humana curiosidade nestes tempos de transição, em que a imunda teoria dos vicios pretende encovar a alfurja por entre as ruas floridas da mocidade?... Valha-me Deus, que nem eu sei como a minha consciencia hade traduzir para o papel o que é urgente afirmar -para collocar as coisas no logar devido, para desviar de sobre a minha geração, aquellas imputações nefandas que o seu silencio poderia suscitar, mas que o seu culto da serena e divina Beleza em absoluto condemna e repelle... Preciso falar-lhes de Sodoma: que os anjos enviados por Deus a casa de Lot abstraiam da minha indignidade e me acompanhem na repugnante travessia... ... Que Nosso Senhor seja comigo!... VISAVA a fóros de enorme retumbancia entre os moços da geração que ora passa, o ar- tigo-sophisma que o sr. Fernando Pessoa, cultivando a blague com amor e o escandalo com dedicação, ha semanas publicou nesta revista, feita expressamente para gente civilisada e para civilisar gente. Mas, a escandaleira politica dos ultimos tempos fevou de vencida o doentio proposito do novel escriptor e eu acharia justo remette-lo ao esquecimento se, por má ventura, elle não houvesse ficado arquivado para leitura de todo o momento nas paginas d'arte d'esta revista paragente civilisada... Entre os novos tornou-se já um estafado logar commum o indicar o nome do sr. Fernando Pessoa como um dos mais representativos entre os valores da minha geração. Não serei eu quem conteste a verdade de tal afirmativa, antes a confirmo com a minha nenhuma auetoridade, e é exactamente por isso que me espanto com as turbas vendo-o enfileirar entre os symphonistas dos fedores, remecher, ás mãos ambas e plenas, os escorralhos nauseantes da esterqueira romantica, olhar com amorosa complacencia o pús literario dos ultimos gafados. Sequioso de ineditismo, pescou do justo esquecimento um livro sem arte nem belleza e como, nessa miseria impressa, fosse claramente felta a apologia daquellas aberrações sexuaes que levaram Deus a sepultar Sedoma e Gomorrha sob um diluvio de logo e enxofre, o sr. Fernando Pessoa, sacudie de sobre o livro a poeira espessa que o encobria, pendurou o nas primeiras protuberancias lunares que se lhe antolharam, falou-nos do chllo da Beleza entre os Gregos e, com toda a imponencia – aquella imponencia que lhe dá a admiração que todos os novos lhe dedicam proclamou ore rotundo, que o auctor daquella escorrencia literaria é o unico entre os porteguezes a quem o titulo d'estela pode caber. Um triste sorriso d'ironia e de piedade-eis o que devera provocar sempre a leitura das paginas geradas pelo espantoso lapso mental do sr. Fernando Pessoa... Não concorrendo no livro que tanto o entusiasma qualidade alguma que o recommende à admiração dos estetas de tal modo escassearam no seu auctor faculdades de realisação literaria, tho pobre é o seu conteudo mental, tão chatas e languescentes as suas construcções podalicas – forçoso será concluir que a intrusão dos Gregos no arrazado panegyrista do sr. Fernando Pessoa, apenas é devida ao facto de o livro referido sér uma torpe exhibição do amor thracio. E realmente desolador que o sr. Fernando Pessoa não tenha respeito pela sua propria inteligencia... Por justa consideração para com o sr. Fernando Pessoa de houtem, respondamos ao sr. Fernando Pessoa de hoje, e façamo-lo-para desviar suspeitas de parcialidade - não à luz dos nossos principios religiosos é moraes, mas sim ajudado pelos principios da prepria cultura helenica." Pondo de parte tudo quanto no seu artigo nos diz sobre os criterios d'imperfeição e o ideal helenico, – mero apontoado de coisas boas e más, que para o co não passa de simples farelorio, – admitamos o que Winckelmann, citado pelo sr. Fernando Pessoa, afirma e que reproduzo testualmente: Como é confessadamente a belleza do homem que tem de ser concebida sob uma ideia geral. assim tenho notado que aquelles que observum a belleza só nas mulheres, e pouco ou nada se commovem com a belleza dos homens, raras vezes teem um instincto imparcial, vital, inato de belleza na arte. A pessoas como essas e belleza da arte grega parecerá sempre falha, porque a sua belleza suprema é antes masculina que feminina. Se me da licença, acho o argumento d'aquelles que voltam os bicos contra o argumentador, Em primeiro logar, se muito são d'espirito não ousa expressar em publico a sua admiração pela belleza masculina é porque tem receio de que o confundam desastradamente com es amadores d'actos contra-natura, entre os quaes enfieira e proprio Winckelmann. Em segundo logar, sendo a arte grega o culto da belleza plastica, e um perfeito concerto de harmonias e de linhas terrenas, a pérros teria de se dar o sr. Fernando Pessoa para me convencer de que os seus estelas possuem esse culto, sentem esse concerto. Se me da licença, repito, o argumento volta-se contra o argumentador, e os seus estetas não vão alem de simples devotos do orgasm invertido: para d'isso nos capacitarmos bastará ler o livro do seu panegirisado. Uma coisa è ler veneração pela belleza plastica, como na maioria dos gregos; e outra, inteiramente diversa é a impulso genesica, seja ella hetero ou homosexual. Um corpo d'athleta, aonde se verifiquem perfeiçñes d'estatua grega, é uma coisa bella, incontestavelmente bella, como obra da sabedoria divina. Mas, por ventura os individuos que, pathologicamente, se desviam da contemplação da belleza masculina e se deltam levar pela onda ascorosa do desejo invertido, porventura esses serão estetas, na sentido puro e insolismovel da palavra? Acaso esses réus do nefundo, o Santo Oficio justiceiramente os apelidava acaso elles teem o culto da helleza plastics, á se melhança dos helenos e no que elle possuia de mais elevadamente artistice? Por amor de Deus! deixemo-nos de hipocrisias! Para se ter o sentido da belleza fisica, mister se torna possuir tambem o sentido das proporções, o respeito pelas inflexiveis leis da natureza, ou que é muito mais elevado e filosoficamente christão-o culto pela obra de Deus, pelo que de perleição Deus poz nessa obra, para nos dar uma ideia do que, de mais perfeito, nella poderia ter posto. Ora, o que a experiencia tem demonstrado a todos quantos estudam as profundas miserias sexuaes do todos os tempos, é que os taes estelas, na sua totalidade esfuriados pela pedicação, não pos suem de modo algum o sentido da Belleza plastica mas unica e exclusivamente a tentação pela anomalidade sexual. E esse o unico mobil do seu escandalo e só esse. E a experiencia egualmente demonstra, ser rarissimo os réus do nefando escolherem cumplice que participe das harmonias d'uma estatua grega: em geral, o patico escolhe um brutamontes, e elevado por um exame que a decencia me impede de apontar. Quanto ao cinedo, a sua escolha recae em individuos de compleição franzina e delicada que, pelo aspecto exterior, pelos modos, falas e acções, maca queiam o sexo bello. Em qualquer dos casos teremos um crilerio de escolha que não abona as tendencias helenicas dos taes estetas. Onde, pois, o culto da belleza masculina, e, em ambos os casos sujeitos, se lhe foge pela contrafacção? Será porventura estetico o culto pela bestialidade? Será acaso manifestação de entusiasmo pela belleza mascula e viril, o procurar no homem atributos femininos, atributos esses que, no caso em questão, por serem anti-naturaes e estarem deslocados, se caracterisam de ridiculo e de ignominia? NOTE-SE desde já que, mesmo entre os gregos, e a despeito de tudo quanto o desvergonnhamento de hoje nos queira fazer acreditar, o uranismo não se legitimava por culturaestetica mas sim por aquellas allegações risiveis cujo relator foi Platão no seu Symposion. Para o celebre filosofo, não sendo o mundo fisico objecto de sciencia, só poderia ser tratado por meio de fabulas ou de mythos, que elle desenvolveu com arte mas que, na phrase de Jacques Maritain, mais não servem do que para mascarar a impotencia da sua doutrina perante a realidade corporal. C'est dans ces mythes qu'il attribue la production on plutôt l'organisation du monde à un de- miurge-regardé par beaucoup d'interprètes comme distinct de Dieu et inferteur à lui- et qu'il expose cette étrange idée que tous les organismes vivants proviennent de Chomme: les premiers hommes produits par les dieux étaient du sexe masculin: eene qui ont mal vécu ont été après leur mort changés en femmes, qui à lear tour, si elles ont continué à pécher, ont été changées en animaux sans raison el meme peut-être en en vegetaux (1) Assim, para o celebre discipulo de Socrates, o uranismo muito mais do que uma base puramente plastico, tinha uma base metafisica, asserção que não resiste a mela gargalhada. E a da verdade é que, para os gregos, tanto a plastica feminina como a mas- culina bellas, se é que o não era muito mais a feminina porque entre elles o arbitro da formosura plastica estava symbolisado por um sér feminino, u deusa Aphrodite, e não outro sexo (3). Para e homem e a mulher eram bellos em matero para todos quantos possuam dez réis de miolos, o pelo em si, materialmente, e incompletos em relação um ao outro: com e na união hetero-sexualem essa harmonia na inversão. Foi assim que o com os gregos em questões d'e o uranismo para elles, a despeito do lirismo das de Platão no seu Banquete, era uma forma de libido: instinctivamente, apesar das praticas vergonhosas a que se se entregavam, despresavam-no, ou, pelo menos, não lhe conferiam fo ros de culto pela porque. o termo que designa a miseria physica e moral a que se entregavam, provém de duas palavras: paidos e erastes-ou seja (que horrível coisa ter de o eroticas com creancas. Como se vê claramente, pelo que acima deixa escripto e transcripto, nem entre os gregos, tampouco entre os panegyrisados pelo sr. Pessoa, havia, na sua degradação sexual, symptoma algum de culto pela belleza masculina, culto esse que requeria absoluta pureza d'instincto e de ideias. E’ que, tanto helenos como os seus mais directos herdeiros, os romanos, atribuiam aos invertidos certas qualidades que não abonam absolutamente nada o tal culto belleza masculina Nuns e noutros, e com referencia áquelles que não haviam corrompido o culto pela sentido da Belleza, era frequente a murmuração contra o vicio a que me refiro. E lançando mão da satira – quando não da sanção legal, como entre os Romanos pela celebre lei Scantinia – miseria exaltam, fazem-no em homenagem ao libido que lhes comburem até ao inverosimil a apodrecida carcassa, e não nos apresentam como passivos senão individuos aonde se encontrem reflexos da belleza feminina. Impossivel é fazer citações das suas liricas porque a minha repugnancia fisica e os meus escrupulos religiosos m’o proibem totalmente. Quem se quizer certificar do que afirmo, mais não tem do que consultar as minhas traduções que, poetas com poucos pruridos de moral, se deram ao trabalho ingrato de elaborar. Note-se ainda que, se entre os gregos, por deficiencias de toda a ordem, se não chegou a condenar pela injuria, pelo agravo e pela sancção legal semelhante miseria, entre os Romanos, seus discipulos e aperfeiçoadores em tudo, os cinedos e os praticos foram objecto das mais cruas invectivas, e bastaria a leitura de Juvenal ou de Seneca para ficarmos fazendo uma ideia do tal culto estetico professado pelos individuos de que o sr.Pessoa se fez o desgraçado panegyrista. Para o grande satirico latino, como para Seneca, todos os todos os amadores passivos das inversões sexuaes não passam de contrafactores d’aquilo que nas filhas d’Eva é graça natural; teem como caracteristicas principais: olhar languido; passo indeciso; marcha sem porte viril; rosto efeminado; fragilidade, delicadeza de membros; cabellos soltos; moleza d’espirito; uso e abuso dos cosmeticos e perfumes; garridice do vestuario; aluvião de aneis nos dedos; requebro de meneios… E’ pois, malgré a repugnancia que sentem pelo sexo fraco, a tacita confissão da superioridade feminina: é a natureza a tentar cabalmente, pôr tudo no seu logar, buscando não ser torpemente encarnecida! A inversão, nesses miseraveis, repudiando leis eternas, vae cair na extrudada vergonhosa da contrafacção dessas leis!... A malignidade dos sêres referidos vae até á suprema irrisão de nos querer pôr abaixo dos proprios irracionaes – que nem abusam do que lhes é natural, nem usam (a não ser por engano de instinto) do que lhes não é dado! Se os estetas de que nos fala sr. Pessoa não passam, afinal de contas, de rebotalhos d’uma geração; se nelles o culto da belleza mascula em nada mais consiste do que na ancia de satisfação d’uma carnalidade monstruosa, fóra de todas as leis da natureza e exemplificada nas mais ridiculas mascaradas do desejo sexual, na mais bestialisante coprolalia; se para elles a Grecia não vale senão pelo uranismo – que não é esteticismo, nem é oriundo das bellas terras d'Homero, mas sim uma anormalidade erotica supurada em todos os tempos, todos os paizes, e em todos os paizes e tempos escarnecida, quando não amaldiçoada e punida para que demonio vir a publico com a apologia indecorosa dum livro que só tem de especial o ser, em toda a acepção da palavra, uma porcaria? Culto da belleza? esteticismo á grega? Porque demonio é que o sr. Fernando Pessoa lhe não chama aquillo que todos, inclusive o proprio autor, lhe chamam?... A ideia qué certos fabianos fazem do que seja criticar !... Afinal de contas, tanto a imundice publicada pelo sr. Pessoa como aquella que lhe deu origem, mais não são do que simples manifestações de podridão romantica. O Romantismo, rebellião do instincto contra a intelligencia, é de todos os tempos, como expressão de fadiga na organisação intellectual, como impulso violento do individualismo contra a disciplina social. Vem de longes tempos: o proprio Platão, apesar de lirico defensor de paticos e cinedos, assim a comprehendeu. Le souci de lutter contre le romantisme moral de son temps apparait fort net dans Platon, lorsque de sa République idéale, il écarte les poètes, qui s'adressent à la humaine à la partie “faible” de l’âmi, à celle qui est susceptible d'illusions, et s'attendrit immodérément sur la misère humaine – à la sensibilité en un mot, escreve Ernest Scillière. E sempre foi a literatura o melhor vehiculo da miseria moral: desde as produções fescenninas da decadencia romana, até á imoralidade sentimental de varios romances de cavalharia; desde a Renascença com a sua degeneração pagã, passando pela miseria intellectual das gerações saidas de Rousseau até ao romantismo de esgoto de Zola, o Grand Pécal, como lhe chama Léon Daudet, temos nós assisti o que senão à tendencia da Besta se sobrepor ao Espirito? Erasmo talvez não andasse muito longe da verdade quando a Loucura era a rainha do mundo, tanto a civilisação mens para a inconsciencia, para a bestialidade. Jugez de là s'il 'il ne faut parece querer levar os homens para à pas que la Folie soit un grand bien, puis que les Spaans ont donné lant de louanges à son ombre pourceau d'Epicure des mieux conditionnés, 'il ordonne de mêler la Folie avee la Sagesses. Il veut, je l'avoue, que cette Folie soft courte; mais en cela il n'en a pas plus d'esprit. Le même Poële dil dans ses odes: “Qu'il est doux d'e extravaguer à propos!” Et ailleurs, qu’il “aime mieux passer pour un homme en délire & sans nul tallent,que d’être sage & enrager tout son saoul”. Homère, qui donne tant de louanges à son Télémaque, ne laisse pas de le nommer quelquefois jeune étourdi: & les Poetes tragiques donnent volontiers le même nom aux jeunes gen, comme s’il était de bon augure. Quel este le sujet de la divine Illiade? Ne sout pas les fureurs & les folies des Rois & des peuples! Ciceron n’a jamais pensé plus heureusement que lorsqui’il a dit: Que tout le monde était plein de fous. Or vous n’ignorez pas que plus un bien este général, plus il esta excellent. Erasmo quasi que tinha razão... Que temos nós vista desde ha muito ultimos duzentos annos-senão o instincto cego a rebellar-se contra a intelligencia, os pseudo sabios a escavacarem tudo com a sua ancia de reformas, os humanitarios a pregarem verdadeiras loucuras, e os homens de letras a secundarem a sua tarefa de morte e destruição? Se todo o mundo, ao contrario do que pretendia Cicero, não está cheio de doidos, não haverà nelle, contudo, uma boa meia duzia de malucos a pretender tripudiar sobre a impassivel preguiça do resto? Este caso do sr. Pessoa e do seu panegyrisado e bem concludente.. Quem é que aparecen a protestar, não contra o segundo porque esse é talvez o menos culpado – mas contra o primeiro que se tornou assassino da sua propria intelligencia, prestando-se a protogonista duma reles farçada de reclame? Do arrazoado do sr. Pessoa se conclue que apenas serão estetas em Portugal os paticos e cinedos. Portanto quem quizer ser esteta, forçoso será que se entregue a actos contra-natura. Semelhante teoria, bruta até ao exagero, visa á complacencia dos basbaques elegantes, e ao reclame pelo escandalo. Verdadeira miseria psychica em ambas as intenções, não me causaria espanto se proviesse dum celebre titular que o lapis de Bordallo Pinheiro justiceira e implacavelmente fustigou; que isso é que me me causa espanto provenha doloroso como manifestação do que seja a critica dum individuo que se nos apresenta como intellectual em terras lusiadas. Se o sr. Pessoa, com toda a sua cultura, se nos revela como acabamos de vér, que de monio se hade exigir dos chumecos farem critica nos mecos que periodicos? O assumpto que, com tamanha repugnancia, aqui tenho tratado – a prosa da sr.. Pessoa – revela-se-nos como mais uma exhibição patologica do desejo de fazer escandalo. E o ultimo porventura dos symptomas da deliquescencia romantiça em Portugal: trata-se duma subordinação do juizo a sensibilidade e, tanto pelo que respeita ao individuo em questão como ao seu panegirisado, os caracteres romanticos são absolutamente nitidos. Tanto num como noutro e com a diferença apenas de que um tem talento e o segundo está sujeito à clinica da especialidade o caso è absolutamente caracterisado, Como consequencia logien da subordinação da inteligencia á sensibilidade, ambos possuem – notada é claro a restricção que acima deixo – uma impressão obsediante de incompleto, de angustiosa solidão moral, de melancolia procurada, de excitação nervosa, de langores d'erotismo, de existencia descolorida, irreal, longinqua – as qualidades, exacerbada em função, romanticos allemes, ou do mal do seculo da geração francesa de 1830. Entram em funcção, dum modo assolador e como unico recurso admissivel para ambos, as faculdades do seu subconsciente no filo de sobre ellas apoiarem o seu esforço d'expansão vital, donde um mysticismo invertido e irracional - para me servir da expressão de Ernest Seillière – e a qual conduz, como é obvio, ás peiores aberrações, á degra- dação ultima do ser humano. E ainda como ultimas caracteristicas do seu marcado romantismo, te todos sabem como a essencia do Romantismo se oppõe em absoluto ao ideal helenico) ambos se dão a velleités passagères de retour aux inspiration rationelles, bem como ao emploi fréquent du vocabulaire de la raison; teem por vezes le langage intermittent de la vertu, qui ne naît pourtant que d'un effort sur soi même, d'une discipline consciente imposée aux propensions subconscientes du moi. "Incapables de realiser l'acte raisonnable, ces impulsifs en conservent du moins le respect et en emploient le nom afin de farder à leur propres yeux les fantaisies de leur instinet.E o caso de Winckelmann procurando cohonestar, sob o protesto de helenismo, os vicios vergonhosos a que se entregava: é o de Byron e Chateaubriand, ambos incestuosos mentaes, se é que o primeiro o não foi por pensamentos, palavras e obras; é o de Theofilo Gautier na Mademoiselle de Maupin, e o de todos os criminosos literarios d'então para cá. A sua verborrhagia, desmarcada e aberrativa, importa sempre um recurso ao sofisma e foi isso que observamos na prosa que motivou as linhas deste artigo. Como já fiz notar, nas liricas tão presadas pelo sr. Pessoa (tão banaes como arte, como realisação plastica, santo Deus!) o que nos surge a cada passo são as apologias homosexuaes do auctor: culto da Beleza, como, expressão de harmonia não existe nelle porque, para ser logico e absolutamente helenico, teria de pôr em egual plano a beleza feminina, Estamos pois em frente, repito, dum caso de putrescencia romantica: o auctor em questão é um romantico e não um romano; um fabiano como varios e não um grego da ultima hora; um debil d'espirito e jamais um ser inteligente; é um desventurado, se assim o quizerem, no qual se dissolveram por completo as faculdades superiores da inteligencia. E o recurso de ambos no sofisma é a melhor prova da sua podridão romantica. En effet, leur subterfuge le plus redoutable, parce qu'il est sincere, c'est de prendre et donner leur debilité physique et morale pour un excès de force, leur maladie comme une exubérance de santé. Illusion qui procede de cette maladie elle même !) Não sei bem se, realmente, será sincero o subterfugio, conforme quer o ilustre critico que me fornece estas achegas; o que eu sei é que, por cobardia e indolencia' dos portugueses, a estes lhes tem sido feito nos ultimos cem anos toda a casta de judiarias mentaes por banda dos pseudo-pensadores!.. O receio cobardissimo de parecer retrogrado tem levado muito espirito a contemporisar com a Suburra intelectual, a permittir entre nós e em todos os campos, sem protesto quasi, as mais risiveis abstrusões; uma critica irremediavelmente cretina, encyclopedicamente ignorante, comodista, agnostica,-o seu agnosticismo vem não só da sua ignorancia como tambem do seu culto pelo vil metal - adoptando o criterio da arte pela arte como o mais proprio a deixar em paz e á vontade a sua ignorancia, o seu comodismo, a sua ganancia e a sua preguiça mental, uma critica tal como a acabo de caracterisar deu as melhores complacencias a tudo quando lhe apresentaram como novo e distinto. O resultado é a miseria politica e moral em que a Nação se debate. Pouquissimos se lembram da maxima sublime de S. João Berckmans, Ad meliora natus sum: Deus não existe para esses animaes e, quando elles admittem a sua existencia é para subordinarem esse Deus ás miserias humanas de toda a casta! O Deus destes simios, a existir, seria egual a eles, e perfeita inutilidade portanto; ter-se-ia dado ao luxo de elaborar um codigo maravilhoso de conducta moral, mas sem se importar de que os homens o seguissem ou não. Tudo o que fizessemos sobre a Terra estaria bem: acabada a vida, por mais porca e abjecta que ella houvesse sido, teriamos na outra vida uma Biarritz aonde, logicamente, iriamos continuar a bella vidinha terrestre. Assim, pois, inteligencia seria synonimo de instincto desentreado; Christo não teria cá vindo fazer nada e os Apostolos não passariam duns respeitaveis massadores. D'aqui, guerra é Egreja, ás instituições politicas creadas pelos povos à sua sombra; combate sem treguas ás ideias de ordem, de disciplina, de hierarchia; sobreposição do individuo á sociedade e, consequentemente ruina total do individuo, D'esse periodo miseravel a que Léon Daudet chamou o estupido seculo XIX, ficou-nos um pantano; e aquillo que delle podermos salvar não lhe pertence. Pôdre nas ideias e nos facios, os seus milasmas chegam ainda até nós. Pierre Lasserre, definiu bem a podridão romantica, ao escrever: Sensualisme des idées; métaphysique des émotions, materialisme mystique, bestialité lyrique, ainsi pourrait-on définir la tare, disons mieux: la pourriture romantique de l'intelligence. Já Goethe definia como classicismo a saude, e romantismo a doença!.. Não haverá no que acabo de citar materia que baste para definir o estado intelectual do sr. Pessoa? Pobre d'elle que ainda não comprehendeu ser a vida uma coisa tão seria que, nella, mais deveriamos pensar do que rir! A vida é uma simples e longa preparação e ha coisas de que não é licito zombar. E peior, multo peior se a nossa imaginaçao se agita continuamente entre os espelhos de Hostius Quadra... Será a ruina completa dum espirito, o emparceiramento com as coisas inuteis que são lançadas ao fogo... Quanto aos seus estetas, na vida terão o sarcasmo justiceiro de Juvenal: Interea tormentum ingens nubentibus haeret, Quod nequeunt parere, et partu retinere maritus. Mas, depois da morte, sr. Fernando Pessoa, o que será d'elles e de quem tiver desprezado traze-los à direita via? ALVARO MAIA
dc.contributor.authorMaia, Álvaro Amadeu Pereira
dc.date.accessioned2025-04-17T14:21:46Z
dc.date.available2025-04-17T14:21:46Z
dc.date.issued1922-10
dc.description.abstractO artigo apresenta a posição contrária de Fernando Pessoa (1888-1935), a respeito da estética, à expressada por António Botto (1897-1959) no número anterior do jornal. Álvaro Maia menciona, também, Lord Byron (1788-1824) depreciativamente, descrevendo-o como incestuoso e influenciador de “vícios vergonhosos”.
dc.format.extent31-35
dc.identifier.urihttps://cetapsrepository.letras.up.pt/id/cetaps/131952
dc.language.isopt
dc.publisherAgostinho Fernandes
dc.relation.ispartofContemporânea
dc.relation.ispartofvolume4
dc.rightshttp://purl.org/coar/access_right/c_abf2
dc.subjectPoesia
dc.title“Literatura de Sadoma”
dc.typeArticle
person.birthDate1887
person.deathDate1940

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