“Cronica”
| cetaps.description.printingName | Imprensa Libânio da Silva | |
| cetaps.publisher.city | Lisboa | |
| cetaps.researcher | Alice Laurentino | |
| cetaps.source.place | https://pt.revistasdeideias.net/pt-pt/contemporanea | |
| cetaps.text | CRONICA Um violino, um violino como o de Paul Kochansky, é uma sugestão aos sentimentos frivolos, os que estão dispostos no lado mais facil da alma.: Não ha aqui logar para um grande poder emotivo, toda a nossa covarde compostura se deixa penetrar duma doçura que não é sonhada, que está apenas na caricia superficial da pele. Porisso um violino, como a guitarra de Dom João, enrosca o som na eurva sensual da carne feminina, não a deixa socegada e o calma; o paroxismo dessa arquitetura complicada, facil como o vidro, nem sequer tenta penetrar a meditação. A dificil jonglerie merece a nossa admiração, mas nunca o nosso piedoso recolhimento. Logo uma sonata de Beethoven, para violino e piano, é uma expressão afiicta, paradoxal, não se explica em face do psiquismo, mil vezes genial, do grande musico que escreveu o traço d'união entre a Humanidade e Deus. Numa sonata de Beethoven para violino e piano, temos que esquecer o violino para compreender Beethoven. Paul Kochansky foi nobre, pois eu não me lembro de lhe ter ouvido o violino a tocar Beethoven... A sintese de Paul Kochansky, a sua grande expressão intelectual, não está, segundo muitos, no nocturno de Kymanowsky. Musico moderno, artista das tonalidades mais decadentes, mais avançadas, o grande artista consegue libertar a sua teenies, torna-la simples, mas no Hino Junqueiro ao Sol, de Rimsky. Qu'importa que as mulheres não compreendessem? Que faz que a sensualidade sugestiva dessa arenda sublime fosse a delicia mais intima ou a menos consagrada? Se o Hino ao Sol é a maior verdade instrumental e emocionante do violino de Kochansky... Tomás Teran, uma grande creança, da simpatia da «Contemporanea», tão amimalhada dos artistas portugueses, toca, sempre com muito interesse, a dansa del amor brujo, de Manuel de Falla, e a valsa n. 5, de Granados. Eu tenho medo que estas expressões se popularisem, por que a arte de Teran não é inexgotavel, E desejando que outros debujos espanhoes aparecessem nos seus dedos (evoco Tárrega e Albeniz), permito-me aconselhar d'aqui, aproveitando a sombra deste canto, que não nos toque mais Listz nem Chopin. Passada a hora do debute Tomás Teran é entre nós um artista, um grande artista da musica espanhola. Porque não ha de ele tocar-nos a Espanha toda, desde as alboradas gallegas ás teorias sonhadas, sombrias da Catalunha? E justo lembrar os acompanhamentos de Teran, nobres, sacrificados, inteligentes, nas noites de Paul Kochansky, na Sociedade de Concertos. Sem esse sacrificio o volume de som do violino, teria resultado menos expressivo e intencional. Tomás Teran foi o socego de nós todos os que ouvimos, e do polaco, que tocava... No Politeama organison a «Contemporanea» um concerto para Rui Coelho: e o compositor teve, nessa tarde isolada, uma pleiade de artistas a ouvi-lo com muita atenção. Alcacèr, uma suite bosquejada e facil, cheia de pormenores e côr, baralha motivos longes com motivos presentes. A tentação infantil predominante, torna o descritivo duma grande levesa imaginativa. Ha sugestões, na nossa mente cançada e saturada, do pincel de Eduardo Viana e de alguns versos, raros, de Augusto Santa Rita. Alencèr é afinal, depois da vila, pintada a vermelho, um mosaico tecido d'arabescos e cuja falta de continuidade estilisa, ela mesma, a emoção que se vai construindo e destruindo. Cuidar da Suite Rustica é recordar a vida da Montanha, que na obra de Rui Coelho passa por demais teoricamente, alfinetada em pregas nas rubricas do drama «Os Lobos»: aleluias na Serra é uma situação dramatica na obra de teatro: na peça musical é um contraste com a vida taciturna da montanha, onde uma tristesa vaga, indefinivel, perpassa nos silencios, vive na paisagem como nas almas. A alma da Serra está no folklore beirão, e esse è de toadas lentas, brandas como «berceuses», tristes por indole, por se copiarem no escarpado das encostas, na dificuldade da terra. Graça (das canções de Saudade e Amor) é um lindo trecho, duma frescura de linho, copiada talvez da melhor indole, do mais lindo rosto de mulher. E' a nosso ver, uma expressão flagrante da melhor arte de Rui Coelho. O compositor tem, na intenção da redondilha, a sua pujante exteriorisação d'artista. Para que ha de ele, conseguintemente, escrever-nos em heroico ou em alexandrino? Maria Antonieta Lima Cruz tem uma cabeça linda, e no olhar a miopia mais doce, mais teorica, de quantos talentos ha. Busto vermelho, ombros perfeitos, qu'importa que as notas do Maschere fossem d'ela on recordassem Schumann, que ouvesse nela uma intenção propria on uma sugestão? E' tão linda a cabeça de Maria Antonieta Lima Cruz... Nas Cantigas d'Amigo ha um travo barbaro, quasi flagrante. E' n'A de muy bom parecer, sob versos de Martim de Grijó. A expressão louçan, medieval, transparece, evoca, ha um momento de dominio, bem marcado. Mas logo nas Cantigas de Romarin, no Sam Cremenço do Vol. de Nuno Fernandez. Torneol, Maria Antonieta esquece uma psicologia torpe, à «Ribeyrinhas», ca por outra maneyra non podria del vingada sers deixando apenas evoluir o ritmo bailado, incapaz da menor sugestão. E para que falar de Dieu Pan, com versos de Lecompte de Lisle? Maria Antonieta, que sabe ela de Pan? Num canto italiano, com acompanhamentos debussistas, a expressão é incongruente e por demasiado literaria. As mulheres devem ser, como Maria Antonieta, ingenuas e ignorantes. A Pan falta, na composição de mademoiselle Lima Cruz, o «panico», e à compositora o conhecimento d'aquela verdade objectiva que é o unico apoio dos homens-artistas quando vão colher os vestigios de Deus, por esse mundo fóra... O quarteto de Haia trouxe duas noites elevadas à Sociedade de Concertos. Bem sabemos que ali mesmo passaram os quartetos Rosé e Poulet, o primeiro dos quaes deixou um rastro luminoso em a nossa emotividade. Mas nem por isso fica vedado a est'outro um logar de admiração. O quarteto de Haia, formado recentemente, representa um esforço honestissimo e a homogeneidade dos seus elementos uma verdade quasi flagrante. Eu julgo que a mais alta expressão Beethoveana está nas sonatas e nos quartetos de corda. Nestes, como naquelas todos os andamentos são partes intrinsecas dum todo psicologico encaminhado, duma directriz intencional. Um andamento que falte e logo o desiquilibrio corrompe a emoção, lhe põe febre, a desnortela, assustada e gasta. E frequente ouvirmos dizer após qualquer interpretação dos quartetos de Beethoven: – «Gostei muito do adagio e menos do resto…» – parecer de uns; e outros – «O allegro foi tocado admiravelmentes ». Outros ainda afirmam ter sido o presto ou o allegretto con variazioni o que mais os encantou. Todavia os interpretes tocaram o quarteto com uma rigida egualdade. O que deixa perceber, nestas escolhas do ouvido de tantos, a simpatia animica de momento por esta ou aquel'outra face da obra inteira, da obra egual. E este caso só se dá com Beethoven. Porisso Raymond Duncan afirmou algures que Beethoven, scientista, etratou de interpretar a musica natural, uma musica que está fora d'ele mesmo. O quarteto em fá maior op 96, de Dvorak é um agregado facil e melodico, gracioso, que alastra nos sentidos, afagando-os, mas que não importuna a alma. Destacando o allegro e o molto vivacce temos notado as expressões mais bizarras do quarteto, as que, adaptando-se ao ar da sala de concertos, se casaram com ele para amenisação de quasi todos. Henrique Vieira da Silva deu uma tarde no Salão do Conservatorio, apressadamente, a sua primeira audição publica. E como se trata de alguem, cabe apontar nesse joven pianista uma tecnica inteligente e disciplinada, sendo legitimo esperar que se resolva mais tarde, equilibradamente, na intelectualidade que a musica não dispensa para produzir a facil, a pura, a natural emoção de quem ouve. Apontando o Nocturno postumo como o mais feliz de todos os trechos, queremos marcar o paradoxo de ter Henrique Vieira da Silva, um tecnico do piano, emocionado nele mais de que admirado no Estudo n. 11 de Chopin, ou na Cavalgada de Wagner-Tausig. E por isso que Vieira da Silva tem já a extrutura inicial dum verdadeiro pianista. 0 5º concerto da «Contemporanea» apresentou na Sociedade Nacional de Belas Artes o baritono Enrico de Franceschi; acompanhou-o, na interessante conferencia que peste numero se publica, o escritor e critico musical Gastão de Bettencourt. De Fransceschi, cuja bela voz, volumosa e grave, domina todos os registos, ao talante da melhor intenção, pertence a uma escola moderna que torna o seu canto dum interesse sempre crescente e sempre insatisfeito Como cantor Enrico de Franceschi é notavel. Como artista é ele dum equilibrio que merece a nossa admiração. Preocupando o seu recital em madrigais da Italia seiscentista, ficam a par, na mesma altura, o artista e o cantor. E se o joven baritono deixou em Lisboa um publico de admiradores, pode contar tambem, depois do recolhido recital das Belas Artes, com a admiração de quantos o foram escutar a Barata Salgueiro, colher da sua voz noticia duma musica imensamente branda, sem teorias, quasi casta, é que, pertencendo hoje à erudição, foi, ha trez seculos, uma expressão popular que se perden. A Filarmonin de Lisboa, com ser uma realisação musical bastante acima das orquestras congeneres, trás uma intenção inteligente, bem marcada, bem guiada, que vem colocar as possibilidades musicais de Lisboa num plano ainda ha pouco não previsto. Os seus concertos de Sam Carlos e do Coliseu, uns em noites de Gala, com o nosso primeiro teatro em festa, outro em noite de Sam João, a preços «ao alcance de todos», mostram o intuito simpatico de requintar alguns e educar o resto. A obra é do Maestro Francisco de Lacerda cujo passado artistico pertence à vida lá de fora e que, nesta altura da vida musical portuguesa houve por bem entrar nela e encaminha-la para a melhor directriz. E se alguma objecção ha a fazer em face de tão simpatica iniciativa é a de se lamentar a gente por não ter vindo ela mais cedo, porquanto desde ha muito se não cuidava entre nós de encaminhar, de multiplicar, de estabelecer a natural progressão do gosto popular dando-lhe a ordem de sucessão que ele deve ter, e à que tem direito, fazendo-lhe ouvir, simples e belamente, tudo o que corrompido e tortuoso lhe tem passado no timpano cheio de fadigas. Em boa verdade, nós não evoluimos nada nos ultimos anos, justamente naqueles em que a cultura musical mais pretendeu insinuar-se entre nós. Fazendo da musica antes um prazer do que um estudo, mais um cerrar de palpebras decadente do que um motivo de meditação e de préce, os portugueses deixaram ir os seus cuidados no sabor de quem melhor ou peor os encaminhava. Ouvir musica por ouvir musica, tal o marasmo em que caira ha muito a nossa vontade colectiva. O sr. Francisco de Lacerda pretende agora, à frente da Filarmonia, fazer Arte, para e simplesmente, descobrir toda a belesa da musica elevando-a, pondo dentro dela a razão da sua existencia, – quiçá a razão por que nós proprios existimos. Para isso, – é transparente a sua intenção, poz de lado tudo o que tinhamos aprendido e começou pelo principio: e deu-nos a Pastoral, a Abertura de Juan, Os Mestres Cantores de Nüremberg. No Coliseu fez mais, usou do metodo de João de Deus; e foram um menuetto de Rameau, o Celebre Largo de Haendel, a Reverie de Schumann. E em tudo, absolutamente em tudo, a tessitura foi tão facil, tão sugestiva das cores, a maneira de dizer tão clara e fresca, a intenção pictural e expositiva tão geometricamente disposta, que pode dizer-se, comparativamente, do Maestro Lacerda o que a «Contemporanea» registou nestas paginas sobre Brailowsky, o revelador de Chopin (para os nossos ouvidos lisboetas d'hoje), sobre Marius Gaillard, o revelador de Debussy: Francisco de Lacerda revelou uma orquestra portuguesa. E a Arte de.Suggia? onde ha ouvidos que não tenham ainda, fresca e mimosa, a recordação dos seus dedos magicos, a musica d'aquela admiravel. Suite de Bach, em que o seu violoncello foi bruxo, em que ela foi diabolicamente divina, com a sua graça, o seu encanto, a deliciosa mentira da sua atitude, sobretudo o condão irresistivel de dominar o seu violoncello, – ela, uma mulher! e de o ter all, instrumento de bem expressa masculinidade, rendido ao capricho mais facil das suas mãos, Guilbermina Suggia teve, na noite de Sam Carlos, a expressão duma Santa realisando um milagre, o Milagre das Rosas, por exemplo. A sala, todos nós, ficamos chelos de flores, quando ela se foi embora... Madame Louise Matha cantou imenso, nas ultimas noites da Sociedade de Concertos. A sua voz, branca como uma tunica de noviça, foi sempre egual, tanto para a Iphigenie en Tauride, de Gluck, a Aria de Xerxes de Haendel, como para as tres Chançons de Bilitis, de Debussy. Aqui não houve grinaldas, nem evocação grega, nem Amor. A Flauta de Pan não encantou, a Cabeleira não se desprendeu, exuberante e linda, a envolver os seios de Maazidika na mais femenina das ternuras... Louise Matha escolheu apenas, de entre o seu longo programa, um trecho belo para nos encantar: o Enigma Eterno, dos Cantos Hebraicos, de Ravel. LUIS MOITA | |
| dc.contributor.author | Moita, Luís | |
| dc.date.accessioned | 2025-04-17T14:02:25Z | |
| dc.date.available | 2025-04-17T14:02:25Z | |
| dc.date.issued | 1923-03 | |
| dc.description.abstract | Crítica detalhada a concertos de diversos artistas relacionados com a revista Contemporânea. Luís Moita (1894-1967) recorda os concertos de Francisco Lacerda (1869-1934) e de Madame Louise Matha, nos quais ambos os artistas apresentaram obras do compositor inglês Georg Friedrich Handel (1685-1759). | |
| dc.format.extent | 142-144 | |
| dc.identifier.uri | https://cetapsrepository.letras.up.pt/id/cetaps/131941 | |
| dc.language.iso | pt | |
| dc.publisher | Sociedade "Edições Contemporânea" | |
| dc.relation.ispartof | Contemporânea | |
| dc.relation.ispartofvolume | 9 | |
| dc.rights | http://purl.org/coar/access_right/c_abf2 | |
| dc.subject | Vida Social e Entretenimento | |
| dc.title | “Cronica” | |
| dc.type | Article | |
| person.birthDate | 1894 | |
| person.deathDate | 1967 |
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