“Notas Camilianas”
dc.contributor.author | Velloso, Américo | |
dc.date.accessioned | 2024-04-19T10:04:02Z | |
dc.date.available | 2024-04-19T10:04:02Z | |
dc.date.issued | 1924-05 | |
dc.description.abstract | Num artigo que recorda o escritor Camilo Castelo Branco (1825-1890) e a obra O Vinho do Porto, cujo subtítulo é “Processo de uma bestialidade ingleza”, o autor remete para a Inglaterra através de referências à Westminster Review – periódico britânico publicado entre 1824 e 1914 –, a “Albion”, a “um bretão anonymo” e ao barão inglês Joseph James Forrester (1809-1861) – erroneamente designado como “barão de Torrester” (quando, na realidade, se deveria ler Forrester) –, comerciante de vinho do Porto radicado em Portugal. | |
dc.description.printing_name | Álvaro Júlio da Costa Pimpão | |
dc.format.extent | 9-11 | |
dc.identifier.uri | https://cetapsrepository.letras.up.pt/id/cetaps/114457 | |
dc.language.iso | por | |
dc.publisher | Gráfica Conimbricense | |
dc.publisher.city | Coimbra | |
dc.relation.ispartof | A Via Latina | |
dc.relation.ispartofvolume | 1 | |
dc.researcher | Marques, Gonçalo | |
dc.rights | metadata only access | |
dc.source.place | BN J. 2768//9 B | |
dc.subject | Jornalismo | |
dc.subject | Vida Social e Entretenimento | |
dc.text | Notas Camilianas Ao Senhor Dr. Ricardo Jorge por: Américo Velloso Desenho de Tavares Mourato A próxima comemoração do centenário de Camillo levou-me a percorrer em enternecida romagem espiritual todas as recordações do Mestre que conseguiu reünir para o meu culto. Algumas delas merecem registo especial pelo interesse que podem despertar nêste momento. É o que vou fazer nas Notas Camilianas. I « O Vinho do Porto » Existe na minha modesta colecção o exemplar do já quási esquecido opúsculo « O Vinho do Porto» (1[p.9]), que pertenceu ao escritor de tantas outras páginas modelares. O simples facto de possuir o livro pouco teria de notável se uma circunstância verdadeiramente feliz o não tornasse uma autêntica preciosidade, e não me fizesse hoje intérprete de um desejo claramente expresso pelo seu autor numa nota que talvez só agora achasse a oportunidade de ser revelada. Antes de mais nada, porém, e porque já quási está esquecido, seja-me permitido, embora resumidamente, dizer o que é «O Vinho do Porto ». Processo de uma bestialidade ingleza, chama Camillo à exposição que dedica a Thomaz Ribeiro dêste modo: Como sei que o teu amor ás perfidas trêtas e manhas de Inglaterra não é dos mais acrizolados, venho offerecer ao teu sorriso um SPECIMEN de bestialidade ingleza. Ora a exposição de Camillo ao autor do D. Jayme, é, nos intuitos, um Finis Patriae em prosa. E não se julgue temerariamente arrojada a comparação que se justifica conhecendo o fim que tiveram Camillo e Junqueiro ao elaborarem as suas sátiras formidáveis à Inglaterra. O de Camillo, pode ler-se a pags. 84 e 85 do referido opúsculo: N'este pedaço de litteratura da decadencia, ou decahida de todo, observe a critica escorreita que ha dois projectos:... O primeiro é - arrazar Inglaterra; e, com effeito, arraza-se. ¿O de Junqueiro não estará nêstes versos: …………………..só ficará, sob a densa neblina, Num pântano de sangue uma Gomorra a arder! ………………………………………………………… Tudo rebentará em cacos pelo ar !... E ao soturno fragor de teus finais lamentos Responderão - ladrando! as cóleras dos ventos! Responderão - cuspindo! os vagalhões do mar !...? Se alguma coisa os afasta é esta: Camillo fulmina com sarcasmos; Junqueiro com maldições. Em 1849 a Westminster Review publicou um artigo de um bretão anonymo que condenava a nossa velha indústria de vinhos por perigosamente adulterados. Camillo, 35 anos depois, conhecedor dêste e de todos os outros pormenores da campanha, sabe aproveitá-los de maneira a torná-la de um ridículo anglicida. Nêste empreendimento muito o ajudou o rio Douro que se vingara de um dos mais ferozes detractores dos vinhos da sua região... afogando nas afogando nas suas águas, o barão de Forrester (1[p.10]). Agora voltemos à nota. Junto a um artigo crítico de Valentim Magalhães, publicado na Gazeta de Noticias do Rio de Janeiro, em 23 de junho. de 1884, recortado e colado por Camillo em três meias folhas de papel de carta, leem-se as seguintes palavras escritas pelo punho do Mestre: Se se fizer 2. edição deste opusculo, peço ao editor q lhe anteponha como prefacio as Notas à margem de Valentim de Mag. ães E porque julgo do maior interesse o conhecimento do artigo que mereceu a Camillo tamanha honra, transcrevo-o na íntegra com todas as alterações feitas pelo insigne romancista. «NOTAS Á MARGEM Acabo de repor sobre a mesa, lido de um jacto, o ultimo livro de Camillo Castello Branco: - O vinho do Porto - como se fôra um largo e crystallino calice do bello liquido de igual nome, esvasiado de um só trago. E estou cançado; não pela fadiga da leitura: - por um excesso de riso. E tonto; perfeitamente embriagado por este Vinho do Porto. É que o espirito de Camillo atordoa e estuga os sentidos, ataca a um tempo o estomago em guinadas de riso, em pinchos de gargalhadas e o cerebro em deslumbramentos rutilos, affogueados, clarões intermittentes, esfusiadas limpidas de clarins e trepidos rufos de tambores. Extraordinario escriptor que é este! Quanto mais a geleira do tempo lhe encapucha a fronte com as neblinas alvacentas do inverno mais se incende e crepita e fagulha e se illumina o vulcão que ella procura, mas não pode apagar. Teimoso e exquisito cerebro - o d'este polygrapho indefesso, formidavel, unico! Ao badalar monotono e triste do relogio da vida que lhe bate às Avé-Maria, chamando-o com a voz em queixas a meditar no tenebroso mysterio do desapparecimento, advertindo-o que é tempo de descançar - responde atrevidamente com repiques festivos de alacridade, com gyrandolas multi- cores de estrepitosos remóques, campainhando pilherias, estrallejando chacotas... -Ah, tu queres Memento? diz elle. Pois eu te ensino. Espera lá. E, abrindo de par em par o vasto pagode do seu talento, dá dentro d'elle, em honra á visita do tal Sr. Inverno - uma grande festa de estylo; faz um novo livro. Embambinella as arcarias de marmore rendilhado com variegados e ondulantes tropos, pede à sua rhetorica - que é d'elle e de mais ninguem - as mais exoticas e finas flores, e atapeta as naves e enfeita os ares com estendaes de rosas e pervincas, com chuveiros de anemonas e rosas (1[p.11 a]), heliotropos e violetas, com festões e guirlandas de verbenas e pampanos, de myrtho e louro. Depois, a um signal de batuta do seu magro dedo, irrompe a symphonia da phrase e começam as danças. Esguios Adjectivos funambulescos passam a rir, tinindo guisos, em cadencias molles, bamboleando os angulosos quadris e trazendo pela ponta dos dedos louras Imagens risonhas, gordas e rubicundas, como donzellas normandas - fendendo as bocas vermelhas em curvos golpes de perolas e desnudando os abundantes seios redondos e tremulos no offego das danças, no fluxo das gargalhadas... Seguem após, como silenos avinhados e pandegos - os bojudos Adverbios encavalgados sobre possantes Participios, muito passados; que, de instante a instante, os sacodem pesadamente, em upas de rebeldia impotente. Dos Substantivos, de todos os feitios e de todas as côres, uns saltam, deslisam, cantarolam e bailam delirantes, saltando (2[p.11 a]) ás costas dos Adjectivos, agarrando-se aos Verbos ; escondendo-se por traz dos Pronomes, com tregeitos espertos; outros meditabundos e graves - perpassam solitarios e tersos, cheios de circumspecção. Mas ahi vêm os Neologismos. Uns sujeitos exquisitorios, alegres, inauditos e ineditos; piparatoeiam irreverentemente as orelhas versudas dos velhos Termos, tabaquentos e tropegos; encarapitam-se ao pescoço dos veneraveis Archeologismos e beijocam sem pudor as Expressões despeitoradas e faceiras. De repente todo esse mundo bizarro e tréfego rebenta a rir, a rir, a rir com furia, com destempero, escandalosamente… É que entrou na dança uma chalaça de Camillo ou um dos sagittarios do grupo dos Sarcasmos... Pois o Vinho do Porto é uma d'essas orgias phenomenaes com que vai Camillo desmoralisando as pretensões funebres da velhice. É mais ou menos isso que ahi deixei mal esboçado: - uma saturnal deliciosa, um encanto, um deslumbramento. É, em resumo, uma bomba de pilheria, rebentada ao rubro nariz da matreira e insaciavel Albion que, fingindo acreditar na Jeropiga (com jóta), vai abocanhando quanta geropiga (com gê) encontra nas lusas terras. E entresachadas a essa história picaresca - anedoctas de cosinheiras e marquezas, biographias de medicos e patetas, philosophia e mostarda. Delicioso este Vinho do Porto! E legitimo. Podem bebel-o sem temor. A marca está de ha muito registrada no tribunal da admiração publica. E é - «Camillo Castello Branco. S. Miguel de Seide. Reserva do armazem.» É bebel-o! _____ Aproveito o ensejo para uma rectificação necessaria. No artigo, que sobre este escriptor notabilissimo escrevi n'esta folha a 3 de março d'este anno, pedia eu humildemente á «Ironia, á bilis e aos nervos» - os grandes amigos e protectores de Camillo e á tenia que é a sua velha companheira e boa inimiga - que o deixassem escrever até completar cem obras. Foi um engano. Dias depois verifiquei que ha muito que elle ultrapassou a sua centesima obra: e agora leio n'esta ultima : « Emfim, eu sabia tudo, sem resalva das abominações procedentes do fogão; e os deuses me são testemunhas de que em cento e tantos volumes de analyse de ruins costumes nunca fiz máu uso dos segredos de Gertruria, etc… » Faço, pois, gostosamente a referida rectificação, pedindo mil perdões ao illustre prejudicado e a «á ironia, á bilis, aos nervos e á tenia» de Camillo que o conservem até que elle tenha presenteado as lettras portuguezas com a sua tricentesima obra. E queiram desculpar-me o engano. VALENTIM MAGALHAES.» (1[p.11 b]) Uma outra alteração, e não menos importante, tencionava aínda Camillo fazer na 2.ª edição de «O Vinho do Porto». Na penúltima página dêste opúsculo onde se lê: Quanto a commendadores, quem contou as gotas do mediterraneo, as areias do Saharah e as estrellas da Via-Lactea? o Mestre acrescentaria o seguinte período: As moscas incalculaveis, refracta- rias ao algarismo, as lendarias moscas da Povoa de Varzim, comparadas numericamente com os nossos commendadores, são raras como os rarinantes de Virgilio. E nada mais tenho a dizer àcerca do livro, em cujo frontispício o autor escreveu - Exemplar de Camillo Cast.o Br.co Coímbra, 1924. AMÉRICO VELLOSO. (1[p.9]) Porto, Livraria Civilisação, 1884. (1[p.10]) Autor do opúsculo A Word of truth Port wine. (1[p.11 a]) Camillo emenda para e lyrios. (2[p.11 a]) Camillo emenda para pulando. (1[p.11 b]) Ilustre escritor brasileiro. | |
dc.title | “Notas Camilianas” | |
dc.type | artigo de imprensa |