"Comentário: A Querela entre o Cinema Silencioso e o Cinema Sonoro"
| cetaps.description.printingName | Atlantida | |
| cetaps.publisher.city | Coimbra | |
| cetaps.researcher | Marques, Gonçalo | |
| cetaps.source.place | J. 2836 M. | |
| cetaps.text | COMENTÁRIO A QUERELA ENTRE O CINEMA SILENCIOSO E O CINEMA SONORO Embora inútil, apaixonada e ininteligente, a discussão era inevitável entre os partidários do cinema sonoro e os do cinema silencioso: Êstes viram as casas de cinema invadidas pelo fonofilme, constatando que alguns dos seus mais queridos astros da Arte do Silêncio se metiam a aprender línguas e a exercitar a voz. Aqueles encontravam no cinema silencioso um poderoso rival, do qual urgia afastar o público. Assim, a luta era inevitável. Mas sejamos rudemente francos: Digamos claro que em tal discussão se joga com quási tudo, menos com razões de ordem estética. Digamos que, salvas as excepções, é sobretudo por uma incorrigivel dificuldade de renunciar a quaisquer velhos hábitos adquiridos, ou por um estreito espírito de desconfiança, incompreensão e hostilidade ante qualquer inovação, que os acirrados defensores do cinema silencioso se negam, por principio, a aceitar um espectáculo em que o som e a imagem visual colaborem. Duas palavras resumem tal atitude: estreiteza e caturrice. E digamos que, salvas sempre as excepções, é sobretudo por variados interêsses aos quais a Arte é não só alheia como adversa, que os acirrados defensores do fonofilme acusam de morta ou senil a Arte do Silêncio. Duas outras palavras resumem a atitude dêstes: industrialismo e cabotinismo. Sabemos que numa e noutra ala há quem não caiba neste esquema. Sabemos que, felizmente, ainda há quem se mantenha numa ou noutra ala por determinações de gosto. E sabemos que numa e noutra ala se toma, por vezes, atitudes próprias a sublevar as indignações da ala contrária. Sejam, porém, quais forem os motivos da intransigência, - há os que podem merecer certo respeito e há os que só podem merecer desprêso - não deixaremos de acusar de intransigentes quaisquer partidários exclusivistas do cinema silencioso ou sonoro. Porque - senhores paladinos hirtos do silencioso!, - nos negaremos, sistemáticamente, a um novo género que se adivinha rico de horizontes e possibilidades? Evidentemente, os filmes sonoros que por cá surgem não passam duma hibrida paródia ao cinema e ao teatro. Êsses incompreensíveis diálogos que enfastiam o espectador de melhor vontade: êsses gritos de mulher aflita, semelhantes ao miar dum gato a quem se pisa o rabo; essas vozes infantis ou feminis, que se esganiçam ou rouquejam como as dum côro de sogras constipadas; essas infalíveis canções tão lisonjeiras aos ouvidos afeitos à música de revista ou opereta fácil; esses ridiculos argumentos descaradamente tendentes a introduzir, com ou sem propósito, o maior número possível de tais canções, - não podem ser sinceramente defendidos por quem tenha um centavo de gôsto artistico. E dizer-se que isso é novo, fresco, moço, alegre, - só pode iludir alguns mocinhos ignorantes, snobes, e ligeiros. De tal se encarregam as revistas assalariadas, as opiniões dependentes, e os produtores, empresários, e aderentes monetàriamente interessados. Mas o fonofilme é... isso? O fonofilme pode ficar por aí? Esperemos que não. Já os aparelhos se aperfeiçoam. Já criadores e criticos apontam perspectivas inexperimentadas. Já os verdadeiros artistas sonham no cinema sonoro um novo meio de expressão, independente e complexo. E a vós agora, senhores pimpões do cinema sonoro!, digamos que a vossa táctica é comprometedora. Será preciso, para impor o que de bom nos possa trazer o cinema sonoro, classificar de velharia o cinema silencioso? Uma Arte que ainda há pouco admiráveis - e à qual devemos autênticas obras primas - já não morre com duas tristes piadas do Kino; nem com todo o oiro americano interessado na indústria do fonofilme. Também o cinema quís matar o teatro, mas o teatro não morre pela simples razão de que o cinema o não substitúi. O cinema sonoro também não mata o cinema silencioso, pela simples razão de não ser um grau superior na evolução dêste. É simplesmente um novo género, que se afirmará, como Arte, na medida em que se afastar das ingénuas palhaçadas que hoje nos impingem. Se o vosso intento é arranjar público, talvez possais triunfar... ao menos provisòriamente: A maioria dos espectadores não procura emoções artisticas. Procura excitações mais ou menos grosseiras, e passatempos mais ou menos acomodados à sua mediocridade. Além de que haverá sempre meia dúzia de ignorantes, de timoratos, de cabotinos, prontos a desviarem-se de tudo o que meia dúzia de levianos, de arrogantes, de sabidos, classificar de velho e morto. Porém nós, os artis- tas, iremos ao teatro, ao cinema silencioso, ao cinema sonoro ou ao circo, - procurando e aplaudindo a Arte onde quere que a encontremos. E se os estranhos falarem demasiado alto na nossa própria casa, ergueremos também a voz. É, pois, como críticos e artistas que reconhecemos a perene vitalidade do cinema silencioso, - reconhecendo por verdadeiras Obras de Arte filmes como a Opinião Pública, A Mãe, A Quimera do Oiro, a Paixão de Joana de Arc, O Gabinete do Doutor Galigari, as Variedades, O Circo, A Multidão, O Vento, etc., etc. Filmes completos em seu género; e aos quais qualquer sonorização acrescentada só deformaria, pois que neles o silêncio é um elemento necessário. É como criticos e artistas que reconhecemos o inexgotável campo oferecido pelo cinema silencioso à fantasia, à imaginação, à inventiva, à sensibilidade, à inteligência dos verdadeiros artistas. Longe de julgarmos o cinema silencioso exausto, ingénua, astuta, ou estúpida pretensão dos seus adversários julgámo-lo inexaurivel como a literatura, a pintura, ou a música. É como críticos e artistas que reconhecemos o génio de Charlie Chaplin, tão ridiculamente atacado hoje por motivos demais conhecidos. E é como críticos e artistas que nos colocamos, ante o fonofilme, numa atitude de espectativa simpatizante e amorosa curiosidade, - recusando-nos a julgarmos das possibilidades dêste novo género pelo que de péssimo nêle temos visto. E até que voltemos ao assunto, ponto final por hoje. | |
| dc.contributor.author | Anónimo | |
| dc.date.accessioned | 2025-04-07T08:35:03Z | |
| dc.date.available | 2025-04-07T08:35:03Z | |
| dc.date.issued | 1930-11 | |
| dc.description.abstract | Debate sobre os avanços no campo do cinema e sobre o valor artístico dos cinemas sonoro e silencioso, concluindo com uma referência ao actor inglês Charles Spencer “Charlie” Chaplin (1889-1977) e citando alguns dos filmes (silenciosos) directamente relacionados com a sua carreira, nomeadamente Opinião Pública (A Woman of Paris, 1923), A Quimera do Oiro (The Gold Rush, 1925) e O Circo (The Circus, 1928). | |
| dc.format.extent | 15 | |
| dc.identifier.uri | https://cetapsrepository.letras.up.pt/id/cetaps/131200 | |
| dc.language.iso | pt | |
| dc.publisher | João Gaspar Simões | |
| dc.publisher | José Régio | |
| dc.relation.ispartof | Presença: Fôlha de Arte e Crítica | |
| dc.relation.ispartofvolume | 29 | |
| dc.rights | http://purl.org/coar/access_right/c_14cb | |
| dc.subject | Cinema | |
| dc.title | "Comentário: A Querela entre o Cinema Silencioso e o Cinema Sonoro" | |
| dc.type | Article |
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