“Homens e Factos de Hoje e de Antanho”

cetaps.description.printingNameImprensa Libânio da Silva
cetaps.publisher.cityLisboa
cetaps.researcherAlice Laurentino
cetaps.source.placehttps://pt.revistasdeideias.net/pt-pt/contemporanea
cetaps.textHOMENS E FACTOS DE HOJE E DE ANTANHO MENDES LEAL JOSÉ da Silva Mendes Leal, pontificou nas letras patrias; drama- turgo, orador, poeta, historiografo e novelista, foi gran mestre da Maçonaria, ministro, par do reino e embaixador; e já ninguem dele se recorda hoje, excepto eu, que lhe devi a benevolencia dos seus conselhos literarios, quando, creança ainda, comecei a versejar. Amigo e colega de meu pai no parlamento, mostrava Mendes Leal pela minha suposta futura gloria literaria carinhoso interesse. E não só ele, outros politicos, tambem por igual motivo de boas relações com o progenitor, punham seu cuidado em que o genito viesse nas letras, um dia, a ser alguem. E que o seria me assegurava cada qual, se os seus respectivos ditames pessoais seguisse. E, porque os não segui, nada fui. Eram esses meus pedagogicos amigos, á excepção de Silveira da Mota, literatos falhados, que, na sua fatal mania de alcançarem fama, haviam, como geralmente sucede aos que nas letras baldam esforço e tempo, buscado evidencia e celebridade no serviço da Politica, a decima musa ou seja as das malas-artes. E dos oficiosos mestres, não tendo, por ingenita rebeldia atendido aos conselhos, muito vagamente me recordo já. De Mendes Leal, porem, não me tenho esquecido, porque uma especie de profecia sua me impressionou profundamente, embora extranho paradoxo me parecesse quando a ouvi Foi, ha bem trinta e oito anos, numa festa dada pelo ultimo marquez do Rio Maior, no seu palacio á Anunciada, em honra de Mazella, aquele nuncio de S. S. que veio a morrer cardeal e, em 1883, ia deixar Lisboa, vencido por um moço ministro da justiça del-Rei D. Luis I, na questão da apresentação dos bispos para aquelas Sés que, ao tempo, estavam em Portugal vacantes. O velho bardo do Pavilhão Negro, dera-me nessa noite a honra de me chamar a junto dele, para conversar comigo, que, havia poucos dias, regressára do secretariado de Angola. Queria saber por que artes conseguira eu, numa interinidade minha governativa decretar o registo civil obrigatorio naqueles reinos de Angola e Congo; e tambem queria the dissesse se era verdade, ou não, ter eu concorrido, como the haviam contado, para a escolha que o governo fizera do bispo lá, D. José Neto, para cardeal patriarca de Lisboa, escolha essa que muito contrariára o Nuncio. E a proposito de tal nomeação, e daquela festa fidalga, a que asistiamos, especie de parada de forças a recrutar, possivelmente para a politica do neo catolicismo, na mais aristocratica roda de Lisboa, já a esse tempo bastante gafa de adventicios vindos da grande finança e do parlamentarismo, disse me Mendes Leal: – daqui a cincoenta anos, «me joven amigo, o mundo pertencerá ao operariado comanditado pela companhia de Jesus.» E como notasse o meu espanto, explicou-se pouco mais ou menos nestes termos, que na manhã seguinte registei, ad perpetuam rei memoriam. « – Aos netos destes proceres, (proceres disse ele, que semper falara dificil), que ai vemos nesses salões, tão convictos da hegemonia que hoje desfrutam na sociedade portuguesa, não chegará a hora de a exercer, pois, já, terá sido liquidada miseravelmente a situação. politica e social de hoje. «Se o não for pela concreção de ideia colectivista na forma do socialismo chamado católico, – transição fatal para um comunismo à maneira do que houve no Paraguay Maranhão – se-lo-ha pela revolução de caracter meramente económico nas reivindicações do povo. «Em qualquer das formas, porem, em que o problema se resolva, a companhia de Jesus prevalecerá espiritualmente. «As actuais classes sociais preponderantes, restos duma ilustre aristocratica historica e a alta burguesia, engrandecida pelo regime parlamentar e capitalista deste seculo, estão concorrendo, dia a dia, para dar maior força à politica da companhia de Jesus, imaginando salvarem-se dentro do imperialismo desta. «É uma ilusão, meu amigo, é uma ilusão! Todo o imperialismo implica uma raza igualdade dos imperados, não só em relação ao imperante, mas ainda, para a igualdade ser completa não admite a supremacia de classe social alguma sobre outra. E isto é a negação absoluta da razão de ser, tanto do antigo regimen nobiliarquico de lustre guerreiro ou de competencias estadisticas das organisações monarquicas, modelo Luis XIV como do regime capitalista ou burgues das monarquias e republicas parlamentares. «A companhia de Jesus é essencialmente inimiga duns e doutros, porque o seu objectivo é o comunismo economico, sob o governo moral dos seus geraes. Aos fidalgos ilusionados pelo preconceito de casta e aos burgueses deslumbrados pela sua situação preponderante actual, bastava-lhes reflectir sobre o facto da Companhia de Jesus ter promovido, pela sua politica capciosa, a confusão da aristocracia velha com a burguesia recem engradecida pela tripotage e pela usura, explorando, a bem de tal confusão, a decadencia pecuniária daquela e o snobismo desta, para claramente se lhes evidenciar que a politica da Companhia tem sido sempre dum cruel oportunismo, aproventando-se das supremacias, duns e outros emquanto tiverem prestigio nas multidões para vir a final a estabelecer depois de as confundir, a sua propria supremacia social. E vai seguindo a mesma politica convicta de que a ruina e morte dos regimes oligarquicos é inevitavel num futuro mais ou menos proximo. «E quando a crise se der, ver-se ha a Companhia, pelo proletariado contra os possidentes. Na verdade, a Terra, fonte da riqueza e teatro da actividade humana, é patrimonio de toda a humanidade, e não morgadio e apanagio para goso de uma parte dela somente; é inevitavel, e é justo, que a luz desta verdade se faça. «Ora, como a espiritualidade humana é tambem uma realidade, que tem a imortalidade que a especie tiver, e a alma vibra constante no receio da morte do corpo e na ancia dum bem mais infimo e profundo, o do espirito, factos estes de que resulta a religiosidade do homem, aquela teologia moral que no periodo da historia, em que a humanidade se rebolque num sensualismo grosseiro de gosos materiais, harmonizar a satisfação destes com aquele anceio, será a que dominará universalmente. «O periodo de lutas entre as diferentes modalidades de entender Deus dentro da mesma religião, passou para sempre no catolicismo romano, pois que o «trust» de todas as ordens catolicas está feito, pertencendo a hegemonia á teologia dos jesuitas, que hoje são marianistas e codelatricos. É esta teologia a que no fundo considera que o homem, por ser alma, tambem não deixa de ser carne emquanto vive, e que cumpre em nome de Deus harmonisar as aspirações espirituais com as necessidades imperiosas da sensualidade. Principiou-se por preconisar com Loyola e S. Francisco de Borja, o marianismo, o qual veiu a lograr base dogmatica pela definição do dogma da Imaculada Conceição de Maria o que importa a divinação da mulher; e nos fins do seculo XVII surgiu o culto do Sagrado Coração, idolatrio contra a qual o episcopado catolico, os papas por mais de um seculo lutaram; mas acabará por vencer e triunfar plenamente de Jesus Cristo com as canonizações da histerica Maria Alocoque e quiçá do mistificador padre Colombieres, da Sociedade de Jesus. Tanto o «marianismo» como o culto do Sagrado Coração são idolatrias creadas pelos jesuitas para propiciarem uma politica religiosa de transigencia e harmonia numa moral acomodaticia ás humanas temporalidades, por isso, que importam a espiritualização da carnal concubiscencia. É meio de a tudo dar satisfação numa enscenação que se chama «A Ordem». Mas a «ordem» é tudo quanto, na sua euritmia ha de mais variavel, por isso que depende das condições metologicas como agora pedantemente lhes chamam; e a habilidade do artista, isto é, do politico, está em aproveitar as condições para um ilusorio efeito que concorra a mostrar praticamente a aparencia de verdade da tese, a qual é o intuito da obra dos jesuitas. Este processo é a tecnica teatral. Era a tecnica o que sobretudo me preocupava quando eu escrevia para o teatro. E o meio seguro de empolgar-se o publico: e o publico é quem paga ao autor e aos actores. Se o meu joven amigo, um dia, se dedicar a trabalhos dramaticos, cuide principalmente da tecnica da encenação porque sem ela não haverá «ordem» nem real nos movimentos das figuras, nem aparente nas ideias; e sem aparencias, que é que o publico vê, não se prende o publico e este é... quem paga. – A ordem! a ordem social? a ordem politica? Artificiosas enscenações! Teatro! Tudo teatro! E logo como que segredando-me: – O jesuita, meu joven amigo, é um grande comediografo, e das três mascaras, a classica, a romantica e naturalista. Mas usa-as sempre espiando o seu publico, para o fazer colaborar com ele. É um dramaturgo oportunista; faz com as paixões, humanas, e os erros consequentes e os preconceitos, o que fazia o nosso Jorge Ferreira de Vasconcelos, enchendo a Eufrazina de adagios e anexins ao sabor do tempo. Adagios e Anexins são toda a sabedoria do publico, o qual ouvindo-os, ditos do palco, se reconhece autor, e aplaude, porque a si se aplaude. É esta tambem a razão do triunfo do lugar comum na oratoria dos comicios, e no artigo politico do jornal, porque a opinião publica é lugar comum.» Assim, ia dizendo o poeta; mas parecendo-lhe que eu já estava atordoado e me distraia, olhando repetidas vezes, para as raparigas que dançavam, sorriu-se benevolo e despediu-se, dizendo-me: «– Vá, divertir-se, vá, que está na edade feliz de o poder fazer, e, se chegar a velho, como eu do coração lhe desejo, ha de lembrar-se do que eu lhe digo aqui, nesta linda festa em que brilha uma sociedade, que será então apenas uma vaga recordação. E na saudade, que alguns tiverem dela, estará a esperança de restauração do passado, serão os futuros sebastianistas». Eu estava encantado de o ouvir, e, embora me parecessem algumas afirmações, das que reproduzo quasi textualmente, paradoxos injustificaveis, por consideração pelo velho diplomata lusitano, tão cheio de glorias oficials, não me atrevi a contradizê-lo. Quantas vezes, porém, volvidos anos, me tenho recordado da profecia, do velho poeta, e perguntado a mim mesmo se realmente não virá a ser essa a proxima resultante social do neo-catolicismo. E esse Mazela, que já então tinha vencido Bismark, fazendo com que os jesuitas fossem livres para a sua ação decente em todo o imperio alemão, não terá sido quem á Prussia feriu de morte, tornando pelo triunfo aquela sua gestão diplomatica de nuncio da Baviera, inevitavel, mais tarde ou mais cedo, a victoria dos latinos, tão diferentes no modo de ser politico da raça puramente germanica. Diz-se e justifica-se o dito – que foram Fitch e Hegel os que venceram definitivamente a Napoleão I; por ter sido a cultura filosofica, que, por influição deles nos governos da Prussia, fizera renascer e consolidara a força moral da colectividade germanica do Norte. Pois, com razão, igualmente fundada, se pode agora dizer que foi o neo-catolicismo que levou de vencida a ultima guerra mundial. Na verdade, quem vence as grandes campanhas (e esta foi a maior da historia de todos os tempos) não são essencialmente os eminentes generais, nem os eximios diplomatas em evidencia; mas sim as supremas sinteses espirituais, que influindo, por sugestão sentimental, movem as consciencias e determinam o caracter moral das colectividades bumana e a estas dão a força de resistencia invencivel. É sempre Jeovah o Deus dos exercitos! E, logo, surgem os homens propelos para instrumentos das ideias. Porventura nesta segunda guerra púnica, pois a historia repete-se, Jofre – Quintus – Fabius Maximus conetatore – e Foch – Spionem habemus – não são dois neo-catolicos millitantes! Jofre retina-se do serviço activo do exercito para a sua aldeia nos baixos Pyrineu, fronteiriça da Catalunha, em protesto contra a lei que expulsos da França as congregações religiosas e só voltou de lá para tomar comando na grande guerra; e Foch é um jesuita confesso. E quem ignora que o partido catolico goverava, havia vinte e seis anos, a Belgica, quando este minusculo reino, que parece, se armàra com os seus fortes blindados em previsão dibina, se opôs á passagem dos alemães para Champagne, retardando lhes pela resistencia heroica até ao sacrificio possivel da propria nacionalidade, o passo conseguindo, assim, dar tempo á preparação militar precisa da França e da Inglaterra, para poderem tomar a ofensiva, e a que igualmente tempo houvesse (e esse mais necessario era ainda, para que a ideia imperialista, que é a formula politica neo-catolica, superasse com o Imperialista Wilson a natural repugnancia instintiva da grande nação norte americana a ir contra a civilização alemã, cujo espirito, sob o ponto de vista da compreensão do que seja a missão social do dinheiro (criterio etnico moral este que principalmente a caracteriza e a diferença da civilização latina), é hoje o dela, tanto na sua essencia como no modo de concretar-se, porquanto sua grandesa industrial, deve-a á America do Norte, a onda de sangue germanica que se the infiltrou com a grande emigração, em massa, do Hanover em 1848. E depois não foi a revolta efectuada na rectaguarda alemã promovida pelos bavaros? Ah! os catolicos bavaros! E dos catolicos austriacos, com os seus desfalecimentos morais e dubia diplomacia, que diremos? Mas a victoria dos aliados rompeu o equilibrio politico da Europa, e determinou o tremendo descalabro economico, efeito da polarização inevitavel das reservas metalicas do mundo nas mãos dos enriquecidos pela guerra, nações e individuos; e dai ha-de resultar, em reacção contrária á absorvente burguesia parasitaria, o advento do operariado. E com o bolchevismo, no genuino significado do termo, virá o consequente desaparecimento, por largo tempo, (quiçá por seculo), da hegemonia de elites intelectuais de cultura filosofica; e, dêsse facto, inevitavel tambem, o triunfo da Igreia Romana, visto que o problema do operariado o objectivo imediato é o bem estar material, e ao homem é tambem essencial um bem mais elevado, a satisfação do espirito, consistindo a felicidade, o seu bem sapremo numa existencia em que se harmonizem a satisfação material e a espiritual. Dá-se, porém, que as condições sociais éticas do intenso periodo revolucionario não permitem, para a maioria da humanidade, que o bem estar de espirito lhe possa proporcionar um criticismo esclarecido e orientado pela unidade filosofica; e, como um schema de tal harmonia se acha completo e sintomatizado, politica e pedadogicamente, pela Companhia de Jesus, sob o principio da abdicação do juizo propria de cada qual no do seu director espiritual, a humanidade cristã será, de necessidade, colhida, com rapides de asombrar, nessa embaladora e save rede de sufimações da vida, e repousará feliz naquela artificial ignorancia, de que fala o Marquês de Pombal no preambulo do decreto da reforma da Universidade de Coimbra em 1772; e terá a ilusão de que vai realizando seu destino superior. É portanto, de reconhecer que Mendes Leal, aliás um poeta menor, tivéra, ha trinta e oito anos, a clarividencia genial do que está sucedendo hoje, o que Inácio de Loyola tendo fundado no seculo XVI a sua Companhia de Jesus com o objectivo de combater e vencer o Protestantismo, só veiu a triunfar neste seculo XX, quando vencida a grande guerra, o nuncio do papa para a Alemanha foi recebido pelo govêrno de Berlim! E porque não havia de ser, se o protestantismo está na Europa, de facto, vencido? É bem certo que para as altas entidades politicas tem de haver tempos de toupeira e tempos de falcão, e, mais de trez seculos andou de toupeira a Companhia de Jesus, para, emfim, se mostrar hoje, à luz do dia, em alto vôo de falcão; e cila a pairar ovante sobre a velha Europa, levando em suas garra, a um tempo de aço e de veludo, captiva a pobre alma humana, que Jesus Cristo libertara, provando, sentimentalmente com o sacrificio do filho de Deus, que o homem só se deve á verdade, embora o matem. É isto que a Cruz simboliza. E foi ato que Luthero e Malecton viram no cristianismo mas a insuficiente sciencia do tempo, não lhe permitindo outra base para a concepção de Deus, que não fosse a revelação, e não tendo os doutores protestantes outro método de raciocinio que não fosse o escolastico, a Reforma falhou como religião e como filosofia. E se não morreu com os reformadores foi porque os reis do norte, por politica, lhes conveiu mantê la. Volvidos, porém, dezoito seculos depois do aparecimento de Cristo, apareceu Kant a iluminar plenamente as almas, dando lhes pelo cristicismo da rasão para a consciencia da responsabilidade moral. E assim se ia completando a missão redemptora do cristianismo. Mas a obra de Jesus Cristo e a de Kant ei-las frustadas, a final, pela tenacidade dos jesuitas; e a Liberdade já quasi perdida vai. COELHO DE CARVALHO Antigo Reitor da Universidade Coimbra
dc.contributor.authorCarvalho, Joaquim José Coelho de
dc.date.accessioned2025-04-17T14:08:19Z
dc.date.available2025-04-17T14:08:19Z
dc.date.issued1923-03
dc.description.abstractConversa entre o autor e José da Silva Mendes Leal (1818-1886), em que se menciona a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), evento para o qual França e Inglaterra teriam tido uma “preparação militar precisa”.
dc.format.extent113-117
dc.identifier.urihttps://cetapsrepository.letras.up.pt/id/cetaps/131945
dc.language.isopt
dc.publisherSociedade “Edições Contemporânea”
dc.relation.ispartofContemporânea
dc.relation.ispartofvolume9
dc.rightshttp://purl.org/coar/access_right/c_abf2
dc.subjectPrimeira Grande Guerra
dc.title“Homens e Factos de Hoje e de Antanho”
dc.typeArticle
person.birthDate1852
person.deathDate1934

Files

Original bundle

Now showing 1 - 1 of 1
Loading...
Thumbnail Image
Name:
Homens e Factos.pdf
Size:
9.66 MB
Format:
Adobe Portable Document Format