"A Invasão Chinêsa de… Perolas Falsas"
| cetaps.description.printingName | Imprensa Beleza | |
| cetaps.publisher.city | Lisboa | |
| cetaps.researcher | Marques, Gonçalo | |
| cetaps.source.place | J. 2628 B. | |
| cetaps.text | A invasão chinêsa de... perolas falsas De ha muito que a imprensa burguêsa vem enrupando em terriveis formas o fantasma amarelo do perigo asiatico. Um belo dia a China despertava do seu sono secular e a sua imensa população estendia-se como uma cobra desenroscando-se, e asfixiava a Europa. Vá esta de tomar defezas. A principal seria manter a China eternamente adormecida, e para isso lá estava a Inglaterra garantindo a sua supremacia com o comercio de opio. Estava salva, com um grande negócio, um verdadeiro negócio da China, a paz europeia. Mas eis que os chineses começavam invadind[o] a Europa, numa invasão pacifica, é certo, mas perigosa segundo o conceito das autoridades encarregadas de vigiar a famosa civilização ocidental. Nas grandes capitais da Europa aparecem aos bandos, verdadeiros avançados de chineses, transportando pezadas malas, como se conduzissem temíveis pacotes de explosivos. A Alfândega preocupa-se, e os grandes patriótas de narís no ar, recordando velhos artigos de magazine onde um velho dragão devorava o galo francez e o leopardo britânico, murmuraram, medrosos: - Será agora? Mas que virão fazer á nossa pátria esses chineses misteriosos? Imediatamente pensou-se em maquinas infernais onde a paciencia dos filhos do ex-celeste império congeminasse a rápida destruição do progresso mecanico do Ocidente. E de tal modo este receio fez pressão nos governos e nas autoridades encarregadas de manter a paz, que o francês, ainda não ha muito tempo, expulsava do seu território os misteriosos chineses, a quem tratou de chamar indesejáveis. O chauvinismo conseguiu isto: apelidar de indesejáveis, criaturas que procuravam, fóra do seu paiz, os meios de subsistência que ali lhes era negado. Os perigosos e temíveis chineses invadiam a Europa com as suas malas apetrechadas de pérolas. Que deliciosa partida, que engraçados esses invasores originais, que assaltam os países, para lhes arremessar, para os destruir com perolas! Que civilização tão diferente! Os europeus sonhando com a invasão amarela, uma invasão com canhões máquinas esplosivas, cultura de bacilos e os chineses entram na Europa, simplesmente com pérolas. Isto é é simplesmente poetico, dum espiritualismo bem asiático, e é essa poesia que faz o sucesso dêsses vendedores que percorrem todas as capitais da Europa, e que Lisboa, neste momento, vem observando nos cafés, nos restaurants, ou parados na rua á hora do maior movimento. Donde veem esses homens e essas mulheres percorrendo mundo com o seu pé pequenino, o seu sorriso impenetravel e seus olhos que nada dizem, olhos calmos como a tentação do mar quando sereno? E em tôrno dêsses rôstos amarelos, dêsses olhos enviusados, a multidão pára, admirada, cogitando, fantasiando, deixando-se penetrar da sedução do mistério- Donde vêem êles? E as pérolas? Donde vêem elas ? E êste mlstério, atirando a imaginação para paises oferentes, de fabulosas lendas, empresta à bijoutaria, à pelos vendedores chinezes, o quer que seja de mágica infiuência de talisman. Aquelas pérolas, aquêles amoletos, aquêles pequenos Budas são como preciosas reliquias trazidas de logares embruxados, de logares que conhecem uma civilização bem diferente da nossa. É a verdadeira industria do mistério, é a sedução da longitude o que êles vendem afinal, esses chineses que invadiram Lisbôa. Eles não falam, o que consegue dar mais pitoresco e mais mistério, áquilo que afinal não passa de um negócio. O feitio inquieto dos portugueses, cujos antepassados comerciaram na China e no Japão, ao verem os chineses, nas esquinas das ruas, nos passeios públicos, nos cafés, procuram entabolar conversa e desvendar um pouco do impenetrável mistério. - Donde vêem vocês? - Dez escudos! - Onde fazem as pérolas ? - Oito escudos! - «Parlez français ? - Seis escudos! - Não quero comprar, só quero sabêr... - Quatro escudos. - Mas quatro escudos o quê? Isto? - Esta… Esta... Dois escudos... E eis eis como própria curiosidade provocou o negócio, porque o remate dêstes dialogos é sempre isto: um mistério a mais e um colar comprado, um colar semelhante aquêles que tôdos nós observamos nos armazens de novidades, ao lado do ouro americano e das bonecas de celuloide, mas que não tem a valorízá-los aquele sorriso dos filhos do ex-celeste império, aquela seducção de paizes distantes e estranhos. | |
| dc.contributor.author | Anónimo | |
| dc.date.accessioned | 2025-04-17T15:14:07Z | |
| dc.date.available | 2025-04-17T15:14:07Z | |
| dc.date.issued | 1925-12-01 | |
| dc.description.abstract | Alusão ao insucesso inglês em perpetuar o comércio do ópio, ao “leopardo britânico”, termo pelo qual é designada a Grã-Bretanha, e ao anglicismo “restaurants”. | |
| dc.format.extent | 7 | |
| dc.identifier.uri | https://cetapsrepository.letras.up.pt/id/cetaps/131975 | |
| dc.language.iso | pt | |
| dc.publisher | Alexandre de Assis | |
| dc.relation.ispartof | Renovação: Revista Quinzenal de Arte, Literatura e Actualidade | |
| dc.relation.ispartofvolume | 11 | |
| dc.rights | http://purl.org/coar/access_right/c_14cb | |
| dc.subject | Língua Inglesa e Anglicismos | |
| dc.subject | Política | |
| dc.title | "A Invasão Chinêsa de… Perolas Falsas" | |
| dc.type | Article |
Files
Original bundle
1 - 1 of 1
Loading...
- Name:
- RENOVAÇÃO VOL11 - A INVASÃO CHINÊSA DE...PEROLAS FALSAS - s.n. p7.jpg
- Size:
- 633.56 KB
- Format:
- Joint Photographic Experts Group/JPEG File Interchange Format (JFIF)