“Musica: A Propósito da Philarmonia”

cetaps.description.printingNameImprensa Libânio da Silva
cetaps.publisher.cityLisboa
cetaps.researcherAlice Laurentino
cetaps.source.placehttps://pt.revistasdeideias.net/pt-pt/contemporanea
cetaps.textCONTEMPORANEA MUSICA A PROPOSITO DA PHILARMONIA Divagando à vuela pluma – A proposito do quarteto de Beethoven – Inicios do movimento wagneriano em Portugal – Uma velha brochura anti-wagneriana – Um paladino estranjeiro da lingua portuguêsa e sua musicalidade – O nosso lied – Estadios de renovação do gosto musical nos ultimos quarenta anos: Rey Colaço e Viana da Mota – Musica de Camara e musica sinfónica – Tentativas orfeónicas – Um grande programa – «A Pro Arte», Francisco de Lacerda e os concertos sinfónicos de S. Carlos. Historiemos um pouco. Há tempos, para comemorar o aniversario natalicio de Antero de Quental, escrevi para A Patria umas linhas em que se fixavam algumas recordações pessoaes que se prendiam com o inicio das curtas relações que tive com o grande poeta e admiravel pensador. Ai me referia á audição de um quartetto de Beethoven a que eu tive o prazer de assistir, ha uns 36 anos. Eram executantes: Nicolau Ribas, Marques Pinto, Moreira de Sá e Cyriaco de Cardoso. Entre os assistentes achavam-se Antero e Oliveira Martins, que conheci pela primeira vez, se me não falha a memoria. Sobre o adagio do quartetto, que eu supunha ser o penultimo do famoso compositor, pronunciou Antero esta expressão: – É a rêverie de um Deus infeliz. Achei curiosa a coincidencia de êste modo de pensar com o de Wagner. Mas dias depois o meu velho amigo Moreira de Sá rectificava a minha informação num postal que me escreveu e do qual transcrevo as linhas seguintes: «Li com interesse o teu artigo na Patria sobre Anthero de Quental, mas permite-me duas rectificações. O dito do Antero foi a respeito da Cavatina do quartetto em lá menor, e o de Wagner é relativo á Introdução do quartetto em dó sust. menor. Não é exacto que em 1885 houvesse entre nós, musicantes, tão apou- cado conhecimento de Wagner como dizes. Em 1872 reuniamo-nos a miudo em casa do Marques Pinio aonde o Joaquim de Vasconcelos levou a partitura de piano e canto do Tan hauser, que o Miguel Angelo nos leu, inteiramente, mais de uma vez, assim como a do Lohengrin, que eu mandei vir e Junqueiro que o entusiasmou, principalmente o dueto de nupcias. No ano seguinte publiquei eu um tolheto dedicado ao M. Angelo, no qual expuz noticias àcerca das obras de Wagner e sua importancia, folheto éste que o Cyriaco apreciou muito.» A minha memoria traira-me. E o interesse das palavras de Antero desvanecia-se como fumo, redu- zindo-se a uma interessante frase literaria. Tudo me leva a crer que, em tal assumpto, o testemunho de Moreira de Sá deve prevalecer sobre o meu. Mas tudo tem compensações. E as noticias que o notavel musicólogo e professor me d' sobre a introdução de Wagner em Portugal indemnisam-me, em grande parte, do meu desastre. «A' quelque chose malheur est bon» Devo entretanto dizer que sobre a difusão do wagnerismo entre nós eu não fui tão formalmente negativo como pode depreender-se do desmentido que transcrevi. Num ponto se enganou o meu amavel corrector. E quando afirma que a peça caraterisada por Antero era a Cavatina do quartetto em lá menor. Dois musicos eminentes dos mais categorisados verificaram na minha presença que o quartetto em lá menor não tem Cavatina mas sim o quartetto em si bemol (op 130). Aqui é que me parece que não há engano, e se o há deslindem-no os meus três amigos. Também quiz ouvir a Cavalina. Lida ao piano e por quem tão bem conhece Beethoven não me pareceu que de modo algum se tratasse de uma rêverie e menos ainda de um Deus infeliz. E' antes a tradução de um estado de alma caracterisado por uma tranquilidade descuidosa, quasi idilica. Refugiei-me, como n'um ultimo reduto, na ideia de que a musica é por naturêsa a linguagem da imprecisão e que talvez por isso ela diz muitas vezes o que nós queremos que ela diga, mais do que o pensamento intimo do compositor. Mas eu não quero passar adeante sem dar, talvez, uma novidade a Moreira de Sá. E' que em 1883, o bom do Frondoni, que eu ainda conheci em velhice avançada, publicou um folheto de critica ao Lohengrin a que não falta interesse documental, pois reproduz os principais artigos de acusação, então correntes, contra o assombroso creador do drama musical moderno. O Lohengrin subiu á scena em S. Carlos, em 14 de Março de 1883. Era a entrada de Wagner na nossa scena lirica, com Giuseppina De Reské, Pasqua, Barbaccini, Navarrini e o baixo De Reské. Só dez anos mais tarde devia executar-se no mesmo teatro o Navio Fantasma (3 de Março de 1893) e o Tannhäuser (23 de Dezembro): aquele, com Arkel, Garavaglia, Colli, Tabuyo, Rossi; este, com Andrea Carrera, Mo- rini, Penchi, Maina, Kaschmann, Sabelico. O bom do Frondoni recapitulava, como disse, as censuras que então caiam sobre o sistema de aquele que um critico francez chamava, não ha muito, o Moloch de Beyreuth: a musica sacrificada à poesia; a melodia sacrificada ao recitativo; abuso dos efeitos tonitroantes; muita sciência e pouca inspiração; a orquestra suplantando o elemento vocal; e assim por deante. O critico não admitia tambem a preferência pelos temas fantasticos, que taxava de frivolos. Os assuntos historicos ainda se consideravam seria- Junqueiro mente como mais adequados à expressão musical. Frondoni dera tambem um exemplo desta preferência nas poucas e más operas que escreveu. Manda contudo a justiça dizer que a parte menos espectaculosa da sua obra foi a mais interessante; e que o autor da «Maria da Fonte» e do «Rouxinol das salas» nos deixou cantilenas cuja estilização as impôs ao gosto popular, ini- ciando uma corrente nacionalista que um outro estrangeiro, Salvini, devia prosseguir em condições mais perfeitas no seu Cancioneiro musical português (1866). E aqui direi, porque o facto ou é ignorado ou está esquecido, que Salvini no Prefacio do Cancioneiro, se ocupou primeiro do que ninguem da musicalidade da lingua portuguêsa, transcrevendo o conhecido panegirico de Rodrigues Lobo e perfilhando a serie da musicalidade decrescente de Colombat d'Isére, em que o italiano ocupa o primeiro logar, o português o segundo e o holandês o sétimo e último. Não se trata agora de derimir este problema da musicalidade relativa das diversas linguas, mas não me parece descabido acentuar a justeza das observações de Salvini, sobre o vocalismo do português, o nosso ão e o chiado dos nossos pluraes e o simpatico papel de defensor de uma causa que ainda hoje tem contraditores apezar do desmentido brilhante que oferecem algumas deliciosas composições portuguêsas dos ultimos vinte anos. O ano de 1883, que é o da primeira representação de um drama lirico de Wagner em Portugal, assinala, sob outro ponto de vista, um estadio interessante da nossa cultura musical. Neste ano, com efeito, Rey Colaço, que frequentara com brilho os três centros musicaes de Madrid, Paris e Berlim, vinha fixar-se em Portugal, como pianista e como professor. A sua natural distinção artistica, organização finamente poética e uma fé entusiastica na sua arte, indicavam-no para exercer em Lisboa uma acção profunda e uma renovação do gosto que se arrastava jungido a um reportorio cansado e sem elevação. Refiro-me a tendências geraes e evidentemente não nego a existencia de excepções de valor, que sempre houve. A vinda de Rey Colaço representava a integração do nosso meio nas correntes de música moderna, em que ele fôra educado e pudera seguir de perto. Era uma lufada de ar novo. Mendelssohn, Chopin, Schumann, Beethoven, Bach, Haendel vinham substituir as marteladas fantasias sobre temas de opera que arregladores, mais ou menos notórios, tinham conseguido introduzir no mercado. O nivel visivelmente subiu; o gosto guindou-se; a boa literatura do piano difundiu-se; e atraz de esta vinha a curiosidade inteligente por todas as manifestações de uma arte mais pura. A ditadura da musica italiana, exercida por uma scena lirica de tradições cheias de brilho, tinha de declinar. Sob a mesma ditadura viveram outros países que só tambem recentemente rasgaram horisontes novos. Ai está a Espanha sobre a qual ainda não ha muito nos elucidou com proficiencia e autoridade indiscutíveis o ilustre compositor Conrado del Campo. A vinda de um pianista, musico e musicólogo da estatura de Viana da Mota marca outro estadio. A sua influência consolidou-se quando o artista pôde harmonizar as suas digressões de concertista com uma permanência mais regular, que lhe permitiu entregar-se de coração ao ensino do piano. Um conhecimento mais completo e extenso da obra de Bach, Beethoven, Chopin, Cesar Franck e Listz tinha de ser a primeira consequência do facto apontado. Ainda não há muitos annos, Listz era pouco mais do que um brilhante rapsodista para a grande maioria do nosso publico dilettante. E' incontestavel que foi Viana da Mota quem pôs em relevo a grandeza deste músico genial e o parentesco artistico que o prende ao fundador do drama musical moderno. A música de câmara, por circunstancias de diversas ordens, sobre que teremos de voltar, não achou ainda entre nós um meio propicio ao seu desenvolvimento regular. A tentativa (há bons quarenta anos) de Miguel Angelo com os seus companheiros Ribas, Marques Pinto e Casella, deve registar-se; em Lisboa, foi Miguel Angelo Lambertini quem por mais tempo manteve o culto desta música, ainda que com intercadências, até á sua completa extinção. A música sinfónica, que teve na Associação 24 de Junho um meio de acção de certo valor, foi vegetando entre alternativas, até renascer, esporadicamente, com uma tentativa de Lambertini, implantando-se definitivamente com a organização da orquestra de Pedro Blanch, que, na realidade, ba-lisa entre nós o início dos concertos orquestraes regulares, proliferando em tentativas de maior ou menor exito. Está tudo feito? Muito longe disso. Ha tentamens orfeónicos que são dignos de considerar-se, mas todos de pouca dura; emquanto se não constituir uma autentica Schola cantorum entre nós ser-nos-ha vedado completamente um dos maiores dominios e dos mais altos da arte musical. Refiro-me à musica religiosa. Quando ouvi- remos cantar os Evangelhos de Bach ou o Messias de Haendel? Ha muitos anos que faço esta pregunta e confesso que ainda não perdi a esperança de uma resposta positiva. Pois há na Suiça terras de quinta e sexta ordem, em que o grande repertorio coral é pouco menos que familiar. Mas na esfera da música sinfónica ha ainda muito que desbravar. A estes dois desiderata responde a nova organização «Pro Artes» a cuja frente vejo o nome prestigioso de Francisco de Lacerda, um músico illustre, que depois de ter dado provas excepcionaes da sua larga competencia em teatros mais vastos, vem agora fixar-se entre nós, pondo a sua energia e o seu talento ao serviço de uma grande causa, a causa da boa música. Os dois concertos já realizados equivaleram a duas admiraveis afirmações dos seus todes incomparaveis de regente de orquestra. Quasi todas as peças executadas nas duas audições eram conhecidas do nosso público; mas sem desprimor nem menos reconhecimento para tentativas anteriores a que nunca regateamos o louvor merecido, forçoso é confessar que nas duas audições de S. Carlos a Filarmonia demonstrou qualidades de fusão, graduação e discriminação ainda não atingidas, sendo para notar-se uma variedade de colorido e uma propriedade expressiva e um sentimento poetico, de que foram ampla demonstração a Pastoral de Beethoven, os trez trechos dos Mestres Cantores e a forma finissima como foram acompanhadas as peças de violoncelo, executadas por essa artista maravilhosa, por vezes tocada de génio, que é Guilhermina Suggia. Não nos faltam pois elementos de primeira ordem para ir realizando o muito que nos cumpre fazer. Não é aí que está a nossa doença. Tudo dependerá de uma coordenação inteligente de esforços. Para que esta coordenação se opere, é indispensavel que todos os particularismos e personalismos se dissolvam perante o fim a atingir. Se perdermos este de vista, para nos exgotarmos em pequenas lutas de vaidade ou de capricho, melhor seria renunciar desde já a qualquer empreendimento sério e levantado. Junho de 1923. MANUEL RAMOS
dc.contributor.authorRamos, Manuel Maria de Oliveira
dc.date.accessioned2025-04-17T14:03:57Z
dc.date.available2025-04-17T14:03:57Z
dc.date.issued1923-03
dc.description.abstractO artigo incide sobre a área da musicologia, dissertando sobre a música e obra de diversos compositores, tais como o polaco Fryderyk Franciszek Chopin (1810-1849), os alemães Felix Mendelssohn (1809-1847), Robert Schumann (1810-1856), Ludwig Van Beethoven (1770-1827), Johann Sebastian Bach (1685-1750) e o inglês Georg Friedrich Haendel (1685-1759).
dc.format.extent137-141
dc.identifier.urihttps://cetapsrepository.letras.up.pt/id/cetaps/131942
dc.language.isopt
dc.publisherSociedade “Edições Contemporânea”
dc.relation.ispartofContemporânea
dc.relation.ispartofvolume9
dc.rightshttp://purl.org/coar/access_right/c_abf2
dc.subjectVida Social e Entretenimento
dc.title“Musica: A Propósito da Philarmonia”
dc.typeArticle
person.birthDate1862
person.deathDate1931

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