“Palavras Ouvidas a um Hespanhol sobre o Possível Acordo Economico com a Espanha”
| cetaps.description.printingName | Imprensa Libânio da Silva | |
| cetaps.publisher.city | Lisboa | |
| cetaps.researcher | Alice Laurentino | |
| cetaps.source.place | https://pt.revistasdeideias.net/pt-pt/contemporanea | |
| cetaps.text | Palavras ouvidas a um hespanhol sobre o possível acordo economico com a Espanha O meu amigo fui encontra-lo vestido de amarelo, com sintomas de emigrado do norte, saindo do Sliping Car Office do Avenida Palace, Tinha comprado o seu bilhete derecto para Madrid e estava á minha disposiçaõ para gastar essas horas de vespera que faltavam, as que ainda podia dedica a fixar Lisboa – cidade que verdadeiramente o encantava, e a apreciar mesmo as coisas portuguezas, não apenas por um requinte de touriste, como ele tratou logo de declarar, mas com a ponderação e o cuidado que dedica a todos os assuntos graves, mesmo aqueles que lhe não interessam senão como problemas gerais. Encrespou ligeiramente o sobrôlho como que intimidado. – “Mas nós não sômos um assunto grave” – afirmei eu, rindo, de mãos nos bolsos, antegozando já a satisfação de lhe impressionar melhormente a retina sobre as belezas da cidade, a ele que a atravessava a correr do paquete de Londres para o comboio de Espanha. “Nós sômos apenas um pais que tem este sol no mez de outubro e esta boa disposição. No fundo estamos todos satisfeitos e a prova é que todos os nossos movimentos e expressões são concórdes á mesma mochalance. Porquê, você não é da mesma opinião?... – “Vamos falar, vamos falar… Vocês quere tomar café? Não quere? Então podemos sair” Saimos. Voltando ao sol da rua tive ocasião de o ver melhor, de lhe palpar as modificações de trez anos, prescrutando as impressões d’esse tempo todo de vida cosmopolita, fóra da peninsula, onde todas as questões sociais e politicas tomam um aspecto justamente europeu, são factos a valer, sem nenhuma face encarquilhada pela troça, de compostura forçada e comediante. Em verdade ele tinha outra desenvoltura, outra maneira rapida e brilhante de mover os olhos, e se isso me encantava e atraia por um lado, abrindo uma nesga á minha curiosidade de cosmopolitismo, por outro lado ia já tacitamente lamentando tanta ginastica de viagens, que fatalmente oporia muita frieza ás belezas naturais da nossa terra, belezas de marmore e de granito… Iamos a embicar para o Rossio. O meu amigo já lá tinha passado, ante a confusão de calceteiros. E como queria saber da minha opinião bairrista a respeito das obras com muitas perguntas sobre o tempo perdido e por perder, eu respondi-lhe entre palavras, que aquilo ficará muito bom quando se acabar, muito parisiense e bem inventado. E com pecados na consciencia, travei-lhe o braço, voltei para traaz e levei-o para os lados da Avenida. – “Muito interessante isto aqui.” “A Praça dos Restauradores. Recorda uma pagina da historia: 1649. Mas já ninguém se lembra d’ela quando aqui passa…” Era o diabo aquilo, porque o meu amigo não é Inglez, embora o pareça, de West Pocket engatilhada no dedo minimo da esquerda, chapeu claro, botas claras, todo pintalgado de claro como um viajante filho de Birmingham. O meu amigo é espanhol e aqueles olhos pretos, flagrantes, não se confundem, serão sempre a sua grande defeza da perversão poliglota: são olhos de sol, olhos peninsulare, duma latinidade que dava mais confiança ao meu braço enlaçado no dêle, até mesmo na conjectura d’aquele gaffe de 1640… Justamente os olhos do meu amigo nem pestanejavam e a sua resposta, que estava dentro das intenções de ja pouco, foi esta: –”Vocês os portguezes estão atravessando uma hora muito critica. Em não compreendendo como conseguem viver com o dinheiro tão pouco valorisado.” – “E é que conseguimos; respondi sem nenhuma aversão e apenas com um poucochinho de magoa patriotica. E esse facto afinal só prova a situação artificial do cambio.” – “Eu não compreendo, não compreendo como vocês podem viver!” Estamos agora no passeio do Drumond Castle. Insensivelmente eu tinha-o arrastado ali para tomarmos carro até ao Campo GRande. A ver se as avenidas novas, na sua arquitectura grotesca e rococó o espantavam, como aguearela impressionista onde a luz do sol é o melhor, o unico elemento. – “Mas sabe que nós estamos em vespera dum grande pacto economico? Sinto como satisfação que a hora de crise no país vai passar muito breve. Ha um sintoma de renascimento por essa provincia fóra, Fabricas e fabricas a serem levantadas, minas a perdurar uma reatividade onde estão estampadas as virtudes da Raça, retemperadas pela guerra… Vocês amanhã verá, de dentro do comboio. É impossivel morrer com tais sintomas de vida…” – “E quem é que vem fazer o pacto economico com os portuguezes?” – À Espanha. Pois você não sabe? Não tem conhecimento em entrevista do Augusto de Castro com o seu Rei?” – “Ah! Sim! Sim! Li tudo com muita atenção…Mas.. pacto economico …O que quer isso dizer?” Calei-me. Sorri-me para dentro num mixto de despeito e garotice…Realmente o que queria aquilo dizer?... Iamos na Rotunda. Não desesperando de o encantar com as belezas da capital, eu ia, do mesmo modo que conversavamos, reeditando as indicações de cicero: – “Olhe: o parque Eduardo VII…” – “Bem sei – disse ele sorrindo – onde se fazem as revoluções”. Eu tambem sorri mais uma vez, – a ultima; mas foi com um absoluto desanimo, perfeitamente arrazado por todas aquelas sugestões que não tinham resposta nem davam azo a uma argumentação contraria convincente, de mim proprio. E não me zanguei porque conheço o meu amigo e sei que a sua intenção era levar-me a uma discussão toda cifrada em numeros, toda metafisica, para a qual a hora romântica do sol posto me dava uma covardia enorme, nervrotica, invencivel… Iamos subindo Fontes Pereira de Melo, lentamente, com os vagares que concêm a um carro electrico burguez, a caminho da boa digestão da tarde. Os palacetes, no promiscuo agrupamento das casas desiguais e “pires”, punham no arruamento uma noite pitoresca que já não interessava ao meu amigo, agora perfeitamente sugestionando pela sua ideia inicial, a que ele vinha scherzando desde o meu abraço do Avenida Palace. Aqui e além em premio Valmôr de mil novecentos e qualquer coisa documentava a falta de pureza d’intenções no gosto aequitectonico da cidade e evocava, sem se saber porquê, os fonografos d’Almirante Reis. Ainda ergui o braço ali á esquina do Matadouro, para apontar um edificio em paranoia de arcos de volta, mas o gesto foi tão grande e tão elegante que o recolhi envergonhado metendo as mãos nas algibeiras. – Porque isso de pacto economico, concluiu ele curvando-se para mini, estaria muito bem se Portugal estivesse realmente um país sem dinheiro – mas arrumado. A Espanha não tem tempo a perder na sua propria civilização. Ajudar Portugal economicamente, está bem. MAis oiça, respondame a isto: Quais as garantias de que essa ajuda era proficua? Ha por ventura a segurança de que os dinheiros seriam aproveitados? Ha uma corrente politico-patriotica estabelecida na vontade de povo portuguez? Está feito ou apenas iniciado o grande problema de educação civica que conduz e orienta o espirito colectivo? Portugal, que eu venho encontrar numa degringolade financeira, sobre o que ha de fazer amanhã da ajuda espanhola? Bem vê, nõs podêmos animar-nos de nenhum espirito de sacrificio por que temos o nosso proprio fomento a acalentar. Politica peninsular, está bem. Não sendo Portugal um paiz essencialmente industrial, o acôrdo com Espanha pôde favorecera esta desde que a sua expansão se encaminhe para as colonias portuguesas. Mas esse acôrdo, para não afectar os interesses hespanhoes, só feitoem absolutas condições de estabilidade politica, isto é, preparando a confiança entre governos e governados. Portugal está doente; Portugal deve portanto curar.se e só quando entrar em ampla convalescença interessa para todos os pactos possiveis. Espanha não quererá pactuar com Portugal docente, alimentando-lhe a doença; o que lhe interessa, como politica peninsular, é ajudar a convalescença dum paiz que se pretenda curar. Esta é a minha opinião de espanhol e deixe-me dizer lhe que , quando a questão fôr ventilada no paiz, se não fôr nos termos que lhe deixo apontados eu serei contra a aproximação luzo-espanhola. E não sei se sabe, meu amigo, que nós já temoscreada no nosso paiz a cidadania, quero dizer, a responsabilidade politica do cidadão em todos os actos do governo. Os governos em Espanha governam com a vontade do povo e nunca extensivamente divorciados dêle”. O carro tomava a curva em Duque de Saldanha. Entrávamos francamente na noite. A estatia desenhava uma silhueta negra, sem beleza, sem vigor. O meu amigo calou-se por um momento, mas logo continuou. –”Outra estátua. Tenho reparado que Lisboa tem muitas estátuas. Tal como em Espanha. Os portugueses tem os mesmos defeitos dos espanhoes.” –”Temos defeitos peores. Quanto a mim este será antes qualidade. E’ uma preocupação de beleza que só não está bem quando é mal feita”. – “Parece-lhe? Em Inglaterra as estatuas são rarissimas.O que interessa são as escolas. As escolas profissionais, de ensino pratico. Deve homenagear-se um homem ilustre? Com o dinheiro da estatua construa-se uma escola a dê-se a ela o nome do homem. Pronto. E’ uma obra muito mais patriotica e civilizadora. Entre a estátua e a escola eu prefiro, esta por todos os motivos”. – “Eu prefiro as duas, nesse caso. Ficam satisfeitos todos os pontos de vista”. – “Mas o caso de Portugal é diferente. Aqui tem que se votar pela estátua ou pela escola. Não ha dinheiro para as duas: e eu estou vendo qual é a preferida..” – “O meu amigo passa em Portugal muito depressa… Não tem tempo para ver tudo…” – “Não é preciso ver mais. Os países vêm-se melhor de fóra que de dentro. O erro de Portugal, todos sabem, é a falta de educação civica. Dai a desagregação politica que traz este pais em constantes tumultos. Os senhores estão constantemente a derrubar os governos. Deixem estar os governos! Deixem estar a republica já que ela cá está. Mudar de governo é mau. Mudar de instituições, neste momento, ainda seria peor.” – “Mas se ninguem pensa nisso…” – “Tanto melhor. Porque a unica maneira de Portugal se salvar é conseguindo, colectivamente, a responsabilidade individual. Não sei se me faço perceber. Em Inglaterra a sociedade está admiravelmente organisada, precisamente porque os deveres e os habitos estão metidos na mais severa disciplina. E’ deste assombroso comando que nasce a liberdade ingleza. Portugal assim o deve entender tambem. Cada individuo não se pertence, mas à sociedade que frequenta e de que faz parte. Isto é rasoavel porque nós vivêmos em sociedade e não isolados uns dos outros. Portugal precisa de ter uma vontade bem encaminhada, no sentido progressivo. Esse trabalho de unificação é facil. Basta que assim o combine vocês, os intelectuais”. –”E’ essa justamente a grande dificuldade, meu amigo!” – “Não é, não me fale em dificuldades.Vocês podem e devem crear portuguezes praticos, com ideias praticas. Nada de programas transcendentes e complicados que na conseguem, porque nunca se cumprem. Formulas simples e claras. Simplificar tudo e sempre, eis a unica maneira de realisar. Um portuguez que saiba ler escrever, faça as quatro operações e tenha principios normais de patriotismo, religião, educação civica e profissional, a vontade equilibrada pela consciencia de si proprio, e proveitoso para o seu pais. Com portugueses assim preparados existirá realmente a vontade de progredir e só então todos os pactos economicos serão possiveis e necessarios. Nessa altura conte comigo para lançarem Espanha a ideia da aproximação com Portugal”. O electrico tinha voltado e já retornava pela avenida da Republica, outra vez a caminho dos Restauradores. Foi o condutor a cortar bilhetes, que veio pôr o ponto final nas considerações do meu amigo. E ficámos calados todo o resto da viagem, ele perfeitamente calmo, como se tivesse discutido um presupuesto, eu mexendo-me no banco com uma sensação de mal estar que me fatigava e oprimia. O carro agora descia veloz pelas avenidas abaixo com preocupações de fim. Não tardou que parassemos outra vez no Drumond Castle. Descemos. Travámos o braço, fômos indo sem mais palavra pela rua do 1º de Dezembro além. – “Vamos acenar, verdad?” – “Ya lo creo” Outro silencio, sem menor preocupação do jantar. Um side-car, com a torneira do escape num delirio, ensurdecer-nos, e encheu-nos do fumo aredo da gasolina. – “Se o pacto se fizesse, disse el por fim só um homem em Espanha seria capaz de o negociar, com as melhores vantagens para todos, um homem imensamente pratico, a inteligencia politica mais bem organisada que nós têmos”. – “Quem era esse homem?” – “Cambó”. Esquecia-me dizer que o meu amigo é engenheiro de maquinas pela Escola de Engenheiros de BArcelona e que, sobre ser espanhol, é imensamente catalão. E fomos jantar ao Leão d’Ouro. LUIS MOITA | |
| dc.contributor.author | Moita, Luís | |
| dc.date.accessioned | 2025-04-17T14:19:07Z | |
| dc.date.available | 2025-04-17T14:19:07Z | |
| dc.date.issued | 1922-11 | |
| dc.description.abstract | O artigo reproduz o encontro, passeio e diálogo entre o autor do artigo e um seu amigo espanhol. Debatem-se questões sociais e políticas de Portugal, estabelecendo-se diversas comparações entre o país lusitano, Espanha e Inglaterra. | |
| dc.format.extent | 2-4 | |
| dc.identifier.uri | https://cetapsrepository.letras.up.pt/id/cetaps/131950 | |
| dc.language.iso | pt | |
| dc.publisher | Agostinho Fernandes | |
| dc.relation.ispartof | Contemporânea | |
| dc.relation.ispartofvolume | 5 | |
| dc.rights | http://purl.org/coar/access_right/c_abf2 | |
| dc.subject | Política | |
| dc.title | “Palavras Ouvidas a um Hespanhol sobre o Possível Acordo Economico com a Espanha” | |
| dc.type | Article | |
| person.birthDate | 1894 | |
| person.deathDate | 1967 |
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