“Cartas dum Rapaz do Tempo”

cetaps.description.printingNameAlberto Teixeira de Sousa
cetaps.publisher.cityLisboa
cetaps.researcherSofia Fernandes
cetaps.source.placeJ. 3780//17 M.
cetaps.textSim, minha Amiga, a vida continuará a ser esta coisa bela e abominavel de que nos queremos desprender com aversão e a que desejamos simultaneamente saborear com volupia! Vivê-la será gosa-la, possui-la e gosa-la sem a comprender, porque compreendendo-a sofremos. Não compreender a vida é, pois a unica maneira em caminho para a saber amar. E nesta maneira de viver, uma grande porção de arte é solicitada pelos espiritos. Porque toda a vida esta vida sorridente e maléfica, digna e injusta, leal e ignóbil, é, acreditem, sómente um longo processo artistico. Sabê-la viver é escrever pela vida fóra o mais sabio e scintilante tratado de estética. Petronio, morrendo como morreu, atirou aos homens a chave d eoiro da obra de arte delicada e secreta que foi a ode elegante da sua vida. Morreu bem porque soube viver bem. Ruben Dario, alisando a seda negra do seu «smoking», disse a ultima frase que compôs sobre a perfeição inalteravel da sua vida. O aristocratico e genial C 33 do cárcere de Reading, por um motivo de arte a que ele correspondeu sempre com o mais altivo desdêm, viu aproximar-se a Desgraça e a ela se entregou ainda de coração ardente. Que são, afinal, todos os dramas e tragédias da existencia se não meros casos de arte? Pode apurar-se que as vidas de Napoleão, do Safo, da Suze ou da Maria Peregrina, são apenas um episodio de mais arte ou menos arte no seu equilibrio social. Assim, saber viver a vida é saber dispersar Beleza; não a viver bem é como num poema ou numa escultura o desequilíbrio artistico. E este vem muitas vezes duma exagerada paixão e cultura estética, como o caso de Wilde; outros, criados por uma força inferior á vontade: quer dizer, fraqueza, mediocridade espiritual; outras vezes ainda pela má interpretação emocional dos casos morais da existencia, o que, consciente ou inconscientemente, arrasta a sensibilidade a dar á Beleza formas demasiadamente humanas e sofredoras como tal. Aqui os casos de Antero e de Nietzsche. Mas Mallarmé e Rossetti, Maeterlinck e d’Annunzio dão-nos da vida exemplos frementes de que saber vivê-la é saber ser belo. Nós, os homens que pensamos, podemos dizer afoitamente: a vida nem é boa nem má, é como o nosso pensamento a arranca da lava interior, é como a nossa arte a cinzela e deliciosamente a sabe viver. Nada mais. E assim eu, hoje como ontem, querendo viver, saber viver, forçando a vida a entregar me todos os saborosos frutos de Ventura e de Desgraça de que é capaz, continúo sempre a ter por ela a mesma paixão e enfado, o mesmo sorriso explendido e maldito…
dc.contributor.authorCértima, António de
dc.date.accessioned2025-04-21T20:41:00Z
dc.date.available2025-04-21T20:41:00Z
dc.date.issued1924-09-22
dc.description.abstractEnumeram-se figuras que associaram momentos de sofrimento à criação artística/literária, utilizando-se as expressões “smoking” e “reading”. Destaca-se, ainda, o caso de Oscar Wilde (1854-1900).
dc.format.extent11
dc.identifier.urihttps://cetapsrepository.letras.up.pt/id/cetaps/132200
dc.language.isopt
dc.publisherTipografia Formosa
dc.relation.ispartofO Comércio de Lisboa: Diário da Manhã
dc.relation.ispartofvolumeEspécime
dc.rightshttp://purl.org/coar/access_right/c_abf2
dc.subjectLíngua Inglesa e Anglicismos
dc.subjectLiteratura
dc.title“Cartas dum Rapaz do Tempo”
dc.typeArticle
person.birthDate1894-07-27
person.deathDate1983-01-21

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