"Pouca Sorte…"
| cetaps.publisher.city | Lisboa | |
| cetaps.researcher | Marques, Gonçalo | |
| cetaps.source.place | J. 1433 A. | |
| cetaps.text | Existe nas nossas provincias uma certa gente predestinada para se deixar cair em toda a sorte de tranquibernias que fhe armam os espertalhões que vivem, com respeito diga-se, regaladamente á custa dos tolos. Essa gente provincianesca, que o vulgo apelida de palerma, não o é. Não o é, não senhor. Ao contrario, é manhosa. Tambem cultiva a intrujice, a manigancia. A unica diferença está nisto: emquanto os outros, os que se convencionou chamar espertos, exercem a intrujice com audacia, expondo-se ás consequencias, aproveitando todas as ocasiões propicias, os que se convencionou chamar tolos, exercem a manigancia, na mira de se locupletarem bastamente ou parcamente, segundo as ocasiões - tudo lhes serve manhosamente, escondendo-se, levando as suas vítimas para os logares ocultos. O conhecido conto do vigario, que a todas as horas se desenrola por essas ruas e praças, é a prova de quanto deixamos dito. Tão intrujão é o vigarista como o vigarisado. Só ha diferença no grau da habilidade. Ambos pretendem comer, o que não pode ser, porque um tem de ser comido. Daí resulta um empalmar e o outro queixar-se, pretendendo passar por uma honesta creatura. Aos olhos de certa gente talvez consiga misericordia. A justiça devia modificar as suas decisões neste ponto: castigar um e outro, pois o queixoso não é menos intrujão que aquele que o enrolou. Além disso, talvez a condenação de um e outro conseguisse extinguir a febre do conto do vigario, que se tornou endemica. Ora estas ligeiras considerações foram-nos sugeridas pelos contos do vigario em larga escala cometidos por afamados escrocs estrangeiros, homens de vasta cultura, esmerada apresentação, viajados, versados em todos os idiomas, sciencias, artes e letras, sobre os nossos estadistas. Ha alguem que possa com dados incontestaveis afirmar que os srs. Liberato Pinto, Augusto de Vasconcelos, Inocencio Camacho e Afonso Costa sejam tolos? Cremos que não! Pois esses ilustres estadistas s deixaram-se vigarizar - este é o termo - por afamados vigaristas estrangeiros. O sr. Liberato Pinto foi vigarizado pelo grego Cristo Cristófides. A justiça militar castigou-o com um ano de inactividade em Elvas, por se deixar vigarizar, pr um subdito do rei Constantino, apezar de homem culto, oficial do Estado maior e que já foi presidente do ministerio. O sr. Augusto de Vasconcelos, tambem estadista, um medico parteiro de fama em toda a peninsula, que já presidiu a um governo, que foi ministro nas côrtes de Londres e Madrid, deixou-se, como um patego de Val de Rolas, vigarizar por um subdito de Sua Magestade Catolica, num negocio de arroz. Portugal, o pai do ilustre estadista, para salvar o filho do entalão, pagou, embora bufasse. O sr. Inocencio Camacho, homem fino, governador do Banco de Portugal, antigo secretario geral do ministerio das Finanças, braço direito do sr. Brito Camacho, na politica, indo uma vez a Londres, e por conta do Estado para negociar um contracto de carvão, deixou-se cair como estudantesinho em férias, no conto do vigario, urdido por uma dama elegante, bem posta, educada, que se deixou agradar do estadista Inocencio, obeso e com cara de raros amigos, para, fingindo-se desinteressada em todos os momentos, depois o largar nas unhas do Pinder... Regressou a Portugal, cabisbaixo, envergonhado e encafuou-se no gabinete do banco emissor... Agora, outro ilustre estadista, o estadista dos estadistas o sr. dr. Afonso Augusto da Costa, que já foi cognominado o Senhor de Portugal, apesar da sua longa pratica da cidade do Sena, terra fertil em escrocs de todas as especies, deixou-se embarrilar pelo vigarista Jefferson. O ilustre estadista está tão envergonhado da sua palermice, que nem quere vir a Lisboa, com receio de assoada. É sina do nosso país: estadista que se meta a negociar contractos por conta do Estado lá fora, é certo que é comido, embora não haja quem lhes peça contas. Apenas o sr. Liberato Pinto sofreu punição por se deixar vigarizar por um grego. Os estadistas, os factos provam-[n]o, não devem sair fóra do seu ambito - governar. Tudo quanto não seja governar, é asneira forte. Os brancos que largam os seus dinheiros no Terreiro do Paço, ao desembarcarem os dinheiros que são seus. Ao passo que os dinheiros que os Cristofides, Pinders e Jeffersons levam, não pertencem aos vigarizados, mas, sim, ao país, que não mais os torna a rehaver. Triste sina! Pouca sorte! Pouca sorte, sim. Pouca sorte, porque não vamos nо vigario uma só vez, vamos todas as vezes que os estadistas se metem a negociar contractos de alta vantagem para o país, com sinfonias do Seculo... | |
| dc.contributor.author | Anónimo | |
| dc.date.accessioned | 2025-04-16T13:30:17Z | |
| dc.date.available | 2025-04-16T13:30:17Z | |
| dc.date.issued | 1921-09-19 | |
| dc.description.abstract | Menciona-se Augusto de Vasconcelos (1867-1951), outrora ministro em Londres, e Inocêncio Camacho (1867-1943), atraído para um escândalo aquando de uma ida à capital inglesa. | |
| dc.format.extent | [s.p.] | |
| dc.identifier.uri | https://cetapsrepository.letras.up.pt/id/cetaps/131757 | |
| dc.language.iso | pt | |
| dc.publisher | Astrigildo Chaves | |
| dc.relation.ispartof | A Voz Publica | |
| dc.relation.ispartofvolume | 1 | |
| dc.rights | http://purl.org/coar/access_right/c_14cb | |
| dc.subject | Política | |
| dc.title | "Pouca Sorte…" | |
| dc.type | Article |
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